UOL Notícias Internacional
 

09/08/2005

Oficiais da ONU são acusados de corrupção em programa humanitário para o Iraque

The New York Times
Warren Hoge*

Em Nova York
A comissão investigando o programa da ONU petróleo por alimentos no Iraque acusou, nesta segunda-feira (8/8), o ex-diretor Benon V. Sevan de aceitar percentagens nas vendas de petróleo do Iraque e acusou outro funcionário da ONU de solicitar propina de uma empresa contratada pelo programa.

O conselho, presidido pelo ex-diretor do Federal Reserve Paul A. Volcker, disse que Sevan acumulou quase US$ 150.000 (em torno de R$ 345.000) em suas contas em Nova York explorando o programa. Já Alexander V. Yakovlev, do departamento de compras, pediu propina em troca de uma informação confidencial nas licitações.

Apesar de não ter conseguido o suborno, o comitê obteve "evidências persuasivas" de que Yakovlev desviou até US$ 1,3 milhão (em torno de R$ 3 milhões) em pagamentos de empresas contratadas por outros programas da ONU, depositado em uma conta offshore.

Na Corte Distrital Federal em Manhattan, Yakovlev assumiu a culpa, na segunda-feira, por conspiração, fraude e lavagem de dinheiro, segundo anunciaram os promotores. David N. Kelley, promotor do Distrito Sul de Nova York, disse que Yakovlev admitiu ter recebido "ao menos várias centenas de milhares de dólares" em propinas de empresas estrangeiras entre 1993 e 2005, em troca de informações de licitações em contratos com a ONU. Ele pode pegar até 20 anos de prisão por cada uma das três acusações.

Em relatórios anteriores, o conselho já havia exposto violações de regulamentos e conflitos de interesse, mas o documento de segunda-feira foi o primeiro a acusar diretamente funcionários da ONU por corrupção e benefício pessoal.

Em resposta, Sevan, cipriota de 67 anos que se aposentou no ano passado, depois de uma carreira de 40 anos na organização, enviou no domingo uma carta por meio de seu advogado ao secretário-geral, Kofi Annan, negando as acusações e dizendo que tinha se tornado bode expiratório de inimigos da ONU.

"Como previ", escreveu, "um corpo investigativo de grande notoriedade, investido com poder absoluto, sentiu-se compelido a encontrar um alvo, e esse alvo fui eu. As acusações são falsas, e o senhor, que me conhece há tantos anos, deve saber disso."

Sevan, que é do Chipre, anunciou no domingo que estava renunciando ao cargo de conselheiro da ONU por US$ 1 (cerca de R$ 2,30) por ano, criado para assegurar sua disponibilidade para o inquérito de Volcker.

O promotor do distrito de Manhattan Robert M. Morgenthau anunciou no mês passado que abrira uma investigação criminal contra Sevan.

O relatório de segunda-feira --de 88 páginas, com um apêndice de 39 páginas-- foi o terceiro do comitê de Volcker, a quem Annan pediu que investigasse o programa de petróleo por alimento, de US$ 65 bilhões (aproximadamente R$ 150 bilhões), que permitia que a receita obtida com a venda do petróleo iraquiano fosse usada para a compra de alimentos para o povo, sofrendo com as sanções da ONU. O programa foi usado por Saddam Hussein para obter US$ 1,7 bilhão (cerca de R$ 3,9 bilhões) em ganhos ilegais.

Annan foi mencionado apenas superficialmente no relatório. O comitê disse que ainda ia determinar se influenciou a contratação de uma empresa que empregava seu filho, Kojo Annan, e que a conclusão constaria do relatório "definitivo" do conselho, no início de setembro.

Em março, o comitê disse que Annan não tinha conhecimento prévio do contrato, mas desde então os investigadores vêm estudando novas alegações de reuniões nas quais o contrato pode ter sido discutido em sua presença.

Observando que essa era uma "missão de busca de fatos, e não um corpo supervisor", o comitê disse que estava cooperando com inquéritos nacionais e instou Annan a sustar imunidade diplomática de qualquer funcionário cujo testemunho fosse solicitado pelas agências policiais "apropriadas".

De acordo com o comitê, Sevan aproveitou-se de alocações de petróleo iraquianas ilegais por meio de um acordo sigiloso com dois amigos egípcios, Efraim (Fred) Nadler e Fakhry Abdelnour. Este último era presidente da Middle East Petroleum Company, Amep, pequena empresa petrolífera que Sevan teria favorecido. Os investigadores do comitê recentemente descobriram que Nadler era tesoureiro da empresa.

Os dois egípcios são parentes de Boutros Boutros-Ghali, secretário-geral na época do programa de sete anos começou em 1996. Volcker, porém, não chamou atenção para a conexão, nem sugeriu que teria um papel nas atividades corruptas.

O comitê disse que de 1998 a 2001, em transações que tentavam não deixar rastros, a Amep transferiu US$ 579,669 (cerca de R$ 1,33 milhão) das vendas de petróleo iraquiano para a Caisor Services Inc., em Genebra, uma firma que não fez nada além de servir de conta bancária para Nadler.

O relatório disse que Nadler retirou US$ 432.983 (aproximadamente R$ 1 milhão) de novembro de 1998 a outubro de 2001, inclusive US$ 257.000 (em torno de R$ 590.000) em dinheiro, em datas que coincidiram com as que Sevan depositou US$ 147.184 (cerca de R$ 340.000) em dinheiro em contas em seu nome e no de sua mulher, em Nova York.

O comitê disse que, além de receber dinheiro do esquema, Sevan e Nadler sabiam que Abdelnour tinha pagado ágios ilegais ao governo de Saddam. Alegações de que os três eram meros conhecidos também foram refutadas pelos 868 telefonemas detalhados entre 1998 e 2001, muitos em épocas em que o dinheiro estava sendo transferido entre eles.

O comitê sugeriu que a corrupção pode ter rendido ainda mais, mas que as investigações foram prejudicadas pelo fim da cooperação de Sevan com o conselho e pela recusa de Nadler em responder aos pedidos de informações e entrevistas.

Sevan alegou que recebeu US$ 160.000 (cerca de R$ 370.000) de uma tia falecida, mas o conselho disse que a senhora, ex-fotógrafa do governo do Chipre, não tinha acesso a tanto dinheiro.

Yakovlev, 52, russo com 20 anos no escritório de licitações da ONU, foi acusado de pedir propina da Societe Generale de Surveillance S.A, conhecida como SGS, de Genebra, em junho de 1996. Em troca, ele ofereceu à empresa informações confidenciais no leilão para um contrato de inspeção de petróleo. A empresa não aceitou a oferta e ajudou os inspetores de Volcker a revelarem o envolvimento de Yakovlev.

O funcionário assumiu ter culpa diante do juiz William H. Pauley, em um processo fechado à imprensa. Isso aconteceu pouco depois de Annan concordar com um pedido de Kelley para suspender a imunidade diplomática de Yakovlev, de acordo com Marc Malloch Brown, chefe de gabinete de Annan.

O comitê de Volcker admitiu que Yakovlev fora a principal fonte nos relatórios anteriores, revelando as violações de regulamentos de contrato por Joseph J. Stephanides. No entanto, segundo o comitê, as novas evidências não invalidavam as informações que Yakovlev dera, e as acusações contra Stephanides foram mantidas.

Stephanides, cipriota de 59 anos que trabalhou para a ONU por 25 anos, foi demitido por Annan em junho.

*Colaborou Julia Preston, em Nova York. Investigação aponta a cobrança de propinas e favorecimento ilegal Deborah Weinberg

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