UOL Notícias Internacional
 

09/08/2005

Uma grande tempestade de areia cobre o Iraque

The New York Times
James Glanz

Em Bagdá, Iraque
Ao amanhecer, a atmosfera apresentava um brilho alaranjado, como as brasas de uma chama. Objetos a 25 metros de distância desapareciam, como se uma cortina tivesse sido puxada em frente deles. Os moradores de Bagdá começaram a despertar com gosto de areia na boca e uma camada dela sobre seus móveis e roupas, e às 8h da manhã, Nireen Abdul Khalek sentiu que não conseguia mais respirar.

Christoph Bangert/The New York Times 
Mulher caminha por rua de Bagdá; a areia cobriu o solo e deixou o ar da cidade impregnado

Cinco horas depois, Khalek, 24 anos, estava em meio a um pandemônio no atendimento de emergência do Hospital Yarmouk, um dos maiores de Bagdá, onde pelo menos 500 pacientes deram entrada com problemas respiratórios causados pela imensa tempestade de areia, que muitos moradores disseram ter sido a pior que viram em anos.

"Esta é a pior de todas", chorou Khalek, enquanto ministrava esporadicamente em si mesma os medicamentos na sonda que os médicos sobrecarregados inseriram em seu pulso.

Ebaa Mahmood Sabri, um médico que estava trabalhando no atendimento de emergência do hospital, disse que quase todos os casos envolviam pessoas com asma, bronquite ou infecções respiratórias, que estavam tendo dificuldade para respirar em meio a tanto pó.

Ele disse acreditar que dois ou três pacientes chegaram mortos, mas no caos do atendimento de emergência o número não pôde ser imediatamente confirmado. "Este dia é um desastre", disse Sabri em inglês.

A tempestade fechou o aeroporto de Bagdá, o comércio por toda a cidade e forçou o adiamento das reuniões dos líderes políticos que tentariam resolver as diferenças em torno da nova Constituição do Iraque. Os meteorologistas disseram que a tempestade em Bagdá fez parte de uma formação que soprou areia por mais de 800 quilômetros, das fronteiras da Síria e da Jordânia, no noroeste, até o Kuwait no sudeste, antes de despejar o material no Golfo Pérsico.

A tempestade afetou as operações militares americanas em todo o Iraque. "Não se trata apenas de não conseguir enxergar, mas também a poeira entra nos motores e acaba estragando tudo", disse o subtenente Barry Thomason, um oficial de ligação da Força Aérea para a 3ª Brigada, 42ª Divisão de Infantaria, em uma base a 56 quilômetros a nordeste de Bagdá.

"Nós não podemos ver nada para combater, mas isto também impede o inimigo", disse Thomason. "Nesta situação, os únicos que saem e se arriscam são os transportes de evacuação médica."

Vários moradores de Bagdá disseram considerar a tempestade a pior desde aquela que cobriu o país quando os Estados Unidos invadiram, em 2003. "A situação hoje é muito estranha", disse Arkan Adwan, 47 anos, dono de um açougue no distrito de Karrada, em Bagdá. "A maioria das ruas está vazia. A maioria das lojas está fechada. Esta é a primeira vez que vejo isto."

Mas os meteorologistas disseram que, apesar da tempestade ter sido particularmente dura em Bagdá, ela fez parte de um padrão climático causado por um vento norte, às vezes chamado de "shamal", que ocorre entre uma e várias vezes por ano. Apesar do shamal ter trazido quase toda a areia que atacou Bagdá da Jordânia e da Síria, estes países ficam praticamente livres das tempestades.

"O Iraque é praticamente o pato felizardo nisto tudo", disse o segundo tenente David Finlay, meteorologista chefe do 28º Esquadrão Operacional de Meteorologia na Base Shaw da Força Aérea, em Sumter, Carolina do Sul, que fornece previsão do tempo 24 horas para os comandantes no Iraque.

Apesar de os comandantes americanos terem dito no passado que os rebeldes usam a cobertura das tempestades de areia para plantar bombas nas estradas, o dia foi tranqüilo, com nenhum ataque significativo informado. Na grande ofensiva americana que relatou atividade na segunda-feira, uma operação marine no deserto de Anbar, a noroeste de Bagdá, disse ter descoberto uma fábrica de carros-bomba e uma série de bombas de estrada que foram destruídas em segurança.

Mas os marines reconheceram que os rebeldes deixaram a cidade de Haditha e outras, ao longo do Rio Eufrates, que são o foco da ofensiva. E como parte de sua contínua guerra de propaganda com os americanos, uma organização que alega estar ligada à rede terrorista Al Qaeda postou uma declaração na Internet, "anunciando o paradeiro dos mujahedeen em Haditha".

Os combatentes "estão em ótimas condições", disse a declaração, segundo o Instituto SITE, que rastreia as mensagens postadas pelas organizações terroristas. "Seus irmãos se retiraram de algumas aldeias perto de Haditha quando os cruzados entraram", disse a declaração, que não pôde ser verificada de forma independente.

Em Bagdá, a declaração do gabinete do presidente Jalal Talabani disse que, apesar do atraso nas reuniões constitucionais, os partidos ainda esperam cumprir o prazo de 15 de agosto para a conclusão do esboço do documento. Mas a Constituição pareceu ser a última coisa nas mentes dos cidadãos de Bagdá, que passaram o dia tentando lidar com os elementos.

"O que acha deste tempo?" Shuja Abdul Illa, um vendedor de sapatos, dizia a vários transeuntes diante da loja em que trabalha. Illa, 25 anos, estava usando um acessório semelhante a um rodo para empurrar montes de areia de um terraço externo, onde dois grandes mostradores de sapatos estavam em exposição. Os sapatos estavam todos imundos, cobertos com uma poeira cinzenta.

Quando questionado sobre a sabedoria de manter os sapatos do lado de fora, Illa disse que não importava onde estivessem, porque a areia penetra em toda parte. "O que podemos fazer?" disse ele. "Lá dentro da loja está imundo."

Illa disse que seus clientes ficaram irritados desde os primeiros sinais da tempestade, na noite de domingo. Sua avaliação foi apoiada por Ahmad Rahi, 23 anos, um policial de trânsito em um cruzamento perto de Karrada, onde dois membros sunitas do comitê constituinte foram mortos a tiros três semanas atrás. Mas Illa estava menos preocupado com a violência e sim com a evidência de que o humor azedou em Bagdá.

"Eu posso ver que quando apito para os motoristas, pedindo para que parem, eles não obedecem à ordem", disse Rahi.

Mas em uma cidade traumatizada pela guerra, muitos moradores parecem não entender quando indagados sobre os problemas de lidar com a areia. "Tudo vem de Deus, e tudo o que vem de Deus é bom", disse Muhamed Ali, 25 anos, que estava segurando sua filha de 8 meses do lado de fora de uma loja que vende geradores elétricos.

Mas quando pressionado, Ali finalmente reconheceu que ambos seus filhos, incluindo a bebê, de nome Ban, estavam sofrendo de problemas respiratórios, que foram seriamente agravados pela tempestade. "Eu nunca vi pior que esta", disse Ali, finalmente.

A tempestade de areia afetou outras grandes áreas metropolitanas no Iraque, incluindo Basra, no sul, onde o serviço meteorológico local previu "um tempo quente, seco e cheio de poeira, com um leve vento noroeste" para a terça-feira.

Ben Barnum, um cientista sênior da Universidade Johns Hopkins, cujo grupo de pesquisa desenvolveu um modelo de computador para transporte de poeira que é usado pelas forças armadas americanas e outros, disse que a tempestade provavelmente teve seu pico na segunda-feira e poderá melhorar até quarta-feira.

Alguns moradores de Bagdá, sem disposição para ver o lado positivo após anos de vida difícil, não pareciam inclinados a achar um na tempestade. Muhammad Abdul Emir, 30 anos, um funcionário da Farmácia Marhaba, reconheceu que estava vendendo muitas máscaras cirúrgicas durante todo o dia. Mas acrescentou: "São máscaras muito baratas".

Quando questionado sobre o estado de espírito dos clientes, Emir disse. "Todo dia é ruim. Especialmente hoje". Poeira paralisa as atividades militares e enche hospitais em Bagdá George El Khouri Andolfato

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