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10/08/2005

Campanha de Ferrer explora as ansiedades e as esperanças de uma cidade étnica

The New York Times
Diane Cardwell

Em Nova York
Na última década, Fernando Ferrer tornou-se a definição da política democrata na cidade de Nova York e todas suas fortes divisões. Em 1997, ele concorreu à prefeitura, mas saiu antes das primárias. Assim, alguns democratas e hispânicos moderados apoiaram Rudolph W. Giuliani, republicano que foi reeleito ao cargo. Em 2001, por pouco não venceu as primárias democratas, perdendo para Mark Green, em uma batalha que dividiu o partido entre as linhas étnicas e contribuiu para sua derrota depois em novembro.

Fred R. Conrad/The New York Times 
O cenário eleitoral de Nova York nunca esteve tão favorável a Fernando Ferrer
Agora, candidatando-se à prefeitura pela 3ª vez, as estrelas de Ferrer finalmente parecem estar alinhadas em seu favor, sugerem importantes democratas e inúmeras pesquisas para as primárias de 13 de setembro. Seus estrategistas esperam que ele não só consiga o 1º lugar, mas que tenha 40% dos votos, o necessário para evitar um 2º turno.

Foi um crescimento notável para Ferrer, que foi criado no Bronx, um bairro afligido por drogas e violência, e tornou-se o mais proeminente político hispânico da cidade. Mas a estrada, especialmente o pedaço que passa pela campanha deste ano, foi atribulada, cheia de inconsistências que expuseram algumas das antigas divisões do partido.

Muitos líderes democratas questionam se Ferrer, 55, é a pessoa que finalmente poderá refazer a base de poder democrata e romper com uma década de domínio republicano sobre a prefeitura. Subjacente às preocupações políticas está a noção de que o estilo de Ferrer --cuidadoso ao ponto da inércia-- não conseguirá vitalizar a coalizão de trabalhadores, minorias e brancos, que tanto precisará para vencer as eleições gerais em novembro, se chegar lá.

Há meses que Ferrer passeia pela cidade, indo longe de suas raízes no Bronx e buscando atrair eleitores da classe média, que se provaram cruciais para vencer as eleições. Sua mensagem --seja em um evento para levantar fundos em um bairro afluente de Staten Island ou em uma igreja episcopal metodista africana no sudeste do Queens-- envolve temas tradicionais democratas: que o governo pode resolver os problemas da cidade construindo mais moradias subsidiadas, contratando mais funcionários e taxando Wall Street para melhorar as escolas. No entanto, a cidade parece ter virado as costas ao partido, ao menos ao selecionar seus prefeitos.

No centro de sua candidatura está sua crença de que muitos nova-iorquinos enfrentam enormes desafios meramente tentando sobreviver na cidade, com os crescentes custos de moradia, as escolas públicas que muitas vezes não dão educação adequada e a falta de empregos atraentes para quem não é da elite. O prefeito Michael R. Bloomberg nem reconhece essas preocupações e defende somente os interesses das empresas e nova-iorquinos ricos, argumenta Ferrer.

Com sua mensagem, Ferrer está explorando a mesma veia potente e inflamável de aspiração étnica, união de minorias e ansiedade de classes que usou em 2001. No entanto, ele também está enfatizando suas credenciais de homem comum, de nova-iorquino ordinário que se criou com trabalho duro e oportunidades.

"Se não fosse por uma boa e sólida educação, eu não estaria aqui na sua frente hoje", diz freqüentemente. "Outra pessoa estaria."

Seus assessores acreditam que muitos vão se identificar com essa mensagem, que Ferrer, entre todos os candidatos, é o mais apropriado a transmitir.

Diferentemente dos outros candidatos democratas, Ferrer teve uma juventude atribulada, na qual superou obstáculos consideráveis. Criado em épocas duras por uma mãe trabalhadora divorciada, ele fez bicos pelo bairro a partir dos 10 anos, saindo-se muito bem tanto na escola quanto fora dela e tornando-se o primeiro na família a se graduar.

Mas foi nos círculos políticos que Ferrer encontrou seu lugar logo cedo. Seu curso reflete a vida cívica da época, quando candidatos promissores eram fomentados por uma máquina partidária que os preparava para os cargos. Conhecedor das leis, executivo e conciliador, ele rapidamente chegou à proeminência no Conselho da Cidade e, por seus laços com a poderosa organização do Partido Democrata do Bronx, foi nomeado em 1987 sub-prefeito municipal do Bronx, trampolim para suas aspirações à prefeitura de Nova York.

Apesar de Ferrer dizer-se político relutante, seu caminho a partir do South Bronx muitas vezes parece um mapa detalhado para a prefeitura.

"Todo esse tempo, Freddy sempre pareceu, desde que o conheci, estar concorrendo. Sabe aquele sujeito que quer ser representante dos estudantes e já é um político ativo na escola? Bem, esse era Freddy", disse Angelo Falcon, cientista político que conheceu Ferrer quando eram adolescentes.

E agora, Ferrer talvez esteja em sua última tentativa, sua última chance de conseguir um cargo para o qual foi destinado, segundo sua mulher, Aramina, que já previa isso quando o conheceu no colégio.

"Sempre soube. Sabia que ele era extraordinário porque era tão concentrado, tão sério e inteligente. Eu pensei 'Nossa, de onde tirou isso?'", disse a diretora de escola pública, em uma entrevista no apartamento do casal, em Riverdale, no Bronx.

Ele tirou isso vêm da rua Fox no South Bronx, de um prédio de cinco andares sem elevador, onde Ferrer morou e menciona freqüentemente, mas sem dar muitos detalhes. Sua infância foi "bela", diz ele. Brincava na rua, tomava café da manhã aos domingos na casa de sua avó depois da igreja e comia pizza toda sexta-feira à noite com sua mãe e irmã (ambas se chamam Susan) no restaurante Venice, na avenida Wales.

Lentamente, no entanto, o Bronx se entregou ao comércio de drogas. A classe média fugiu, durante os anos 60, e as coisas começaram a mudar no seu bairro. Sua avó, Inocenzia Lopez, foi assaltada em seu prédio. Havia prisões freqüentes nas ruas. O governo parou de fazer consertos.

Houve sinais das dificuldades adiante. Aos seis anos, Ferrer e sua mãe encontraram pichações contra hispânicos e negros em uma placa. "Saiam do bairro", dizia.

"Só que eu nunca tinha ouvido aqueles termos em minha vida", Ferrer lembrou em entrevista em seu comitê de campanha em Manhattan, referindo-se aos termos étnicos na pichação. Quando perguntou o que significavam, sua mãe respondeu, "bem, somos nós".

Depois da partida do pai de Ferrer, Santiago, de quem ele diz apenas que tiveram "momentos difíceis", a situação ficou apertada, então Ferrer começou a fazer bicos. Primeiro, engraxou sapatos, depois passou a fazer entregas, inclusive caixas de garrafas de Pabst Blue Ribbon, que tinha que entregar todo sábado, subindo cinco andares de escada.

Ferrer descreveu sua avó, cozinheira do Waldorf-Astoria, e sua mãe, atendente de hotel, como mulheres fortes que o estimularam a estudar e se tornar algo. Se ele fizesse algo errado enquanto sua avó fazia mingau, ela jogava uma colherada na cara dele.

No entanto, foi seu envolvimento com o grupo porto-riquenho Aspira, na escola, que deu direção na sua vida, ajudando a desenvolver seu lado sério e estabelecer o terreno para suas ambições políticas. Mesmo hoje, no rastro da campanha, ele às vezes parece presidente de clube de debates, ouriçando-se com as questões e apimentando seu discurso com palavras tidas como difíceis.

Ex-membros do grupo Aspira descrevem-no como uma espécie de serviço público, com seminários e campanhas para inscrição de eleitores, que serviam para promover gerações de jovens latinos. Mas a organização também ajudou seus membros a ter um senso de identidade porto-riquenha nova-iorquina, promovendo valores que contrastavam com grupos mais militantes daquela época.

"Era ótimo porque nos dava uma oportunidade de ver que não estávamos sozinhos nas escolas, nos dava a oportunidade de ver que sim, éramos inteligentes", disse Marlene Cintrón, diretora executiva da Hopeline, uma entidade de caridade do South Bronx que ajuda imigrantes, acrescentando: "E juntos crescíamos".

Luis A. Miranda Jr., ex-líder da Aspira que foi presidente da Corporação da Saúde e Hospitais e hoje é assessor de Ferrer, descreveu a organização como séria, como Ferrer.

"Não servia só para manter os jovens longe das confusões", disse ele. "Você tinha que assinar um contrato dizendo que ia tirar boas notas, que ia tentar ser o melhor da sala." Lembrando de uma viagem a Porto Rico, Miranda resumiu a seriedade do grupo: "Tem uma praia a 6 km, mas não, vocês vão à Assembléia, passar o dia conversando com os legisladores."

Entre seus pares, Ferrer ganhou fama de ser inteligente e movido por um gosto por debates, articulado e convincente.

"Nós o chamávamos de 'Sente-se Freddy'", disse Cintrón, porque nas reuniões da Aspira, ele sempre tinha algo a dizer. "E nós: 'Senta! Senta!' Ou seja, sabíamos, mesmo naquela época, que íamos ver --e ouvir-- muito do Freddy."

Um dos primeiros colocados no exigente colégio Cardinal Spellman, no Bronx, Ferrer tornou-se presidente da seção da Aspira. No entanto, ele tinha outro lado exuberante, dizem alguns. Em certa altura, ele descobriu que uma tesoureira tinha gasto mal US$ 10 (cerca de R$ 23) do dinheiro do grupo, então ele carregou a menina para uma reunião e reduziu-a as lágrimas, lembra-se Falcón.

"Parecia um advogado de acusação", disse Falcón. "Ele poderia ter conversado com ela em particular, mas preferiu fazer um grande caso. Era esse tipo de pessoa."

Depois do colégio, Ferrer entrou na Universidade de Nova York com bolsa do Bronx e estudou governo, filosofia e os clássicos. Depois da graduação, trabalhou em várias agências governamentais e para políticos eleitos no município e no Estado. Eventualmente, tornou-se líder distrital. Ele se aproximou do Partido Democrata do Bronx que, consciente das mudanças demográficas do bairro, estava procurando jovens porto-riquenhos promissores, para papéis de liderança.

Depois de perder sua primeira eleição --uma disputa para a Assembléia Estadual-- tornou-se membro do Conselho em 1982, cargo que o colocou em uma via expressa para a celebridade política. Logo, agentes políticos começaram a falar dele como potencialmente o primeiro prefeito latino da cidade.

"Freddy era uma das estrelas do Conselho", disse Peter F. Vallone, que dirigiu o órgão por 16 anos. "Freddy era o tipo de pessoa que compreendia a diferença entre fazer algo porque era popular e fazer algo porque era certo", disse Vallone.

Em 1987, no entanto, quando o sub-prefeito do Bronx, Stanley Simon, renunciou em meio a denúncias de um escândalo de suborno, Ferrer foi sub-prefeito do bairro. Ele relutou a princípio. "Achava que, se Deus fosse bom para mim, eu seria congressista", lembra-se. "Gostava de ser legislador."

Mesmo assim, trabalhando diante de baixas expectativas, Ferrer assumiu o cargo com certo gosto. Ele diz que seus primeiros dois atos foram para limpar a casa, figurativamente (pedindo a demissão de membros da equipe) e literalmente (limpando as pichações da Corte do Condado de Bronx, onde fica o escritório do sub-prefeito).

Ele diz agora que gostou de estar no comando, porque via como podia ajudar a melhorar o Bronx, mas também apreciava o status que vinha com o poder executivo. Apesar de ser mais conhecido como Freddy no mundo exterior, seu pessoal começou a chamá-lo de Sr. Presidente.

"Eu fiz a transição do legislativo para o executivo em 20 minutos", disse Ferrer em uma entrevista, em um jantar no Brooklyn. "Gostei, funcionou para mim, tive uma sensação muito clara do que queria realizar."

Na época, o município tinha se tornado uma piada e sinônimo popular de decadência urbana, algo que Ferrer estava determinado a mudar. Ele gosta de dizer na campanha que, sob sua supervisão, o Bronx ganhou mais de 66.000 moradias e 34.000 empregos. Foi até selecionado pela Liga Nacional Cívica, em 1997.

Mas o papel de Ferrer foi debatido, com fãs dando-lhe crédito e outros dizendo que simplesmente presenciou uma renascença da cidade como um todo, saindo das profundezas de um torturante declínio. Ao mesmo tempo, consultores e especialistas em política pública dizem que a revisão da constituição estadual de 1990 diluiu grande parte do poder dos sub-prefeitos, e restringiu a capacidade de Ferrer de agir.

Ao mesmo tempo, o relacionamento próximo de Ferrer com a máquina democrata do Bronx, com sua fama de acordos nebulosos ou até corruptos, sempre o perseguiu.

Mesmo assim, ele ganhou fama de defensor incansável de seu município, e logo ficou irrequieto. Em 1997, concorreu a prefeito pela primeira vez. Ferrer, que freqüentemente se refere a si mesmo na segunda pessoa, disse que chegou a essa decisão porque "você entende, no contexto dessa cidade, que o lugar para fazer uma diferença positiva na vida das pessoas é a Prefeitura".

Na disputa, ele procurou se colocar como moderado. Antes de abandonar a campanha abruptamente, ele competiu para a vaga democrata que acabou indo para Ruth W. Messinger, que perdeu para Rudolph W. Giuliani.

Depois de quatro outros anos como sub-prefeito do município, ele tentou eleger-se em 2001, quando seu cargo terminou por lei, cavando um território à esquerda de outros democratas. Ele competiu como anti-Rudy, e se mostrou como salvador da "outra Nova York", onde as pessoas eram deixadas para trás pelo trem de carga da administração de Giuliani.

Essa mensagem levou-o a quase ganhar as primárias, apesar de seus opositores rotularem-no como divisor. Ele ainda está marcado pela política traiçoeira étnica e racial que explodiu na disputa contra Mark Green. Até hoje, muitos democratas culpam Ferrer e seus partidários pela derrota do partido nas eleições. Eles dizem que, em um ataque de raiva depois de perder o segundo turno, o grupo de Ferrer não conseguiu transferir apoios para Green, pavimentando o caminho para a vitória de Bloomberg.

Desde então, Ferrer viveu uma vida mais serena, silenciosamente terminando um mestrado em administração pública em Baruch e dirigindo o Drum Major Insitute, centro de políticas públicas que se concentra em problemas dos trabalhadores pobres e de classe média, preocupações que formam a base de sua campanha.

Ele também pôde passar mais tempo com sua família, incluindo sua filha, Carlina, e seus dois netos, e apreciar sua paixão pela cozinha. Ele aprendeu a cozinhar sozinho, mas muitos dizem que é hábil no fogão. Animado quando discute os méritos relativos dos bolos Krispy Kreme e dos hambúrgueres White Caslte, Ferrer disse que teve que pensar muito antes de saber se queria voltar a tomar esse caminho.

"Eu não estava muito animado, porque gosto da idéia de jantar em casa", disse ele. "Eu não precisava de outra eleição para afirmar minha vida --tenho uma boa vida", acrescentou, comendo uma omelete de batata e cebola como as da casa de sua avó.

Ferrer disse que foi incitado a entrar na disputa por sua desilusão com o desempenho de Bloomberg, mas que sua candidatura representa a chance de compensar o investimento de toda uma geração de líderes latinos e provar o amadurecimento político da maior minoria da cidade.

Para Ferrer, o coração de sua candidatura está em sua criação, em contraste com Bloomberg, que ele diz não entender os problemas dos nova-iorquinos comuns.

Na primavera, Ferrer explicou assim: "Tudo que sou, tudo que me tornei, toda oportunidade que tive foi o resultado de ter crescido em Nova York", disse ele, falando lentamente, aparentemente inseguro de que estava sendo compreendido. "Quero essas mesmas oportunidades para as próximas gerações." Democrata que já foi engraxate pode o ser 1º prefeito latino de NY Deborah Weinberg

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