UOL Notícias Internacional
 

10/08/2005

Colômbia acha as sepulturas dos 'desaparecidos'

The New York Times
Juan Forero*

Em San Onofre, Colombia
The New York Times Image 
Milícias de direita dominam região norte
Em um dos capítulos mais horríveis do longo conflito civil da Colômbia, investigadores estão desenterrando vários corpos de sepulturas secretas espalhadas por esta úmida região de pastagens próxima ao Caribe. Os corpos são de vítimas dos grupos direitistas paramilitares que agora se beneficiam de generosas concessões por terem prometido se desarmar.

Com as denúncias feitas por dezenas de pessoas nos últimos meses a respeito de parentes desaparecidos, o governo e oficiais militares estimam agora que centenas de camponeses pobres podem ter sido executados e secretamente enterrados em uma campanha de terror que teve início no final dos anos 90.

Eles dizem que os grupos paramilitares seqüestraram e mataram as suas vítimas para se apoderar de terras e, em certos casos, eliminar os que apoiavam os guerrilheiros marxistas que lutam contra o governo desde a década de 60.

Durante anos, o medo manteve esses crimes ocultos. Mas com a chegada em 2005 de um novo comandante militar que ocupou a região, as famílias finalmente começaram a falar, apesar dos perigos constantes, que custaram a vida de um denunciante no início do ano.

Até o momento, 72 corpos foram recuperados em El Palmar, uma grande fazenda próxima a San Onofre, que era usada como base local pelas forças paramilitares, cujas milícias controlam vários Estados litorâneos.

Da terra escura e úmida as autoridades também retiraram corpos em várias outras vilas e estão procurando localizar sepulturas em cinco outros Estados, diz Elba Beatriz Silva, coordenadora do escritório da procuradoria-geral de direitos humanos, que está supervisionando um processo gradual de exumações que poderá se expandir ainda mais.

Panos/for The New York Times 
Uma das 4 covas clandestinas encontradas em El Palmar
"Muita gente daqui desapareceu --filhos, pais, mães, irmãos", conta Ivan Wilches, 22, cujo irmão sumiu. "Pessoas eram executadas todos os dias. Eles as retiravam de suas casas, arrombando as portas. Todas acabavam mortas".

As descobertas expuseram um componente brutal, mas subestimado, da guerra colombiana --o desaparecimento de mais de 3.500 pessoas nos últimos anos--, e fizeram com que se questionasse se os responsáveis pelas mortes serão levados à Justiça.

As autoridades dizem ter prendido 11 combatentes paramilitares da área, e que eles foram acusados criminalmente. Mas, segundo a população local e autoridades governamentais, os dois suspeitos de serem os líderes estão se beneficiando de uma nova Lei de Justiça e Paz que lhes oferece anistia em troca do desarmamento.

Os dois comandantes --Edward Cobos e o seu assistente, Rodrigo Mercado Pelufo, que chefiavam a milícia local de 600 membros-- estão em um abrigo governamental para 50 comandantes paramilitares que poderão cumprir penas de prisão de apenas dois anos.

Eles e os outros integrantes das milícias não são obrigados a fornecer detalhes sobre os seus crimes. Se as autoridades resolverem autuá-los criminalmente, a lei concede apenas 60 dias para apresentarem acusações formais, algo que os grupos de direitos humanos dizem ser praticamente impossível.

O governo, que tentou, sem sucesso, durante anos, negociar um fim do conflito com os guerrilheiros, diz que a nova lei é necessária para desmobilizar cerca de 15 mil combatentes paramilitares em todo o país que pegaram em armas nos últimos anos, fazendo com que o nível de violência aumentasse.

A lei também gerou fortes objeções por parte daqueles que temem que ela leve ao acobertamento de algumas das piores atrocidades cometidas em um conflito civil que já dura 41 anos, e no qual 200 mil pessoas morreram.

Até agora, se prestou mais atenção aos massacres e aos assassinatos de políticos. Mas ninguém deu muita atenção àquilo que é conhecido como "desaparecimento" de pessoas, algo mais comumente associado a outros conflitos latino-americanos, em países como El Salvador, Brasil e Argentina nas últimas décadas, quando a prática de dar sumiço aos cadáveres era utilizada principalmente por governos militares que desejavam silenciar os adversários e semear o medo entre os civis.

Desde os anos 90, a tática foi utilizada também com freqüência crescente na Colômbia. A Comissão de Juristas Colombianos diz que 3.558 pessoas desapareceram no país entre 1996 e 2004. O Grupo de Trabalho sobre Desaparecimentos Forçados ou Voluntários, da Organização das Nações Unidas (ONU), que visitou a Colômbia em julho, investigou quase 1.200 casos, incluindo aqueles de San Onofre.

Muitas das execuções ocorridas aqui são atribuídas a uma unidade paramilitar que se autodenomina "Heróis das Montanhas Maria", e que era chefiada pelos dois comandantes. O escritório da procuradoria-geral disse que o grupo estava principalmente engajado em tráfico de drogas e em corromper autoridades legais, e que os assassinatos ajudavam os seus integrantes a se apoderarem das terras de camponeses pobres e a controlarem os corredores de tráfico de cocaína para o Caribe.

Autoridades dizem que os grupos paramilitares também visavam aqueles que acusavam de ajudar os rebeldes, os poucos que ousavam reclamar, os pequenos criminosos e até mesmo os seus próprios integrantes em situações de disputas internas.

"Eles eram levados até aquela fazenda, onde recebiam uma sentença absurda, sem merecer sequer um julgamento, pois já estavam condenados, e eram a seguir executados das maneiras mais terríveis", afirma Silva, do departamento de direitos humanos da procuradoria-geral.

Como as autoridades militares e oficiais militares insubordinados são suspeitos de trabalhar para as milícias, durante anos quase ninguém na área emitiu uma palavra de protesto, dizem as famílias que nas últimas semanas falaram às autoridades sobre os parentes desaparecidos.

"Todos sabem disso, mas ninguém disse nada. Se alguém o fizesse, seria retirado da sua casa por eles às três ou quatro da madrugada e levado para o local de execução", conta Lorenza Cardenas, mãe de Jose Luis Olivio, que desapareceu dois anos atrás e que se acredita ter sido enterrado em algum local próximo. "Aqui, quem falasse, morria".

O medo começou a se dissipar, neste ano, apenas depois que um coronel rígido, Rafael Colon, passou a comandar a base local dos fuzileiros, dizem os moradores. Combatendo as forças paramilitares de forma tão determinada quanto atacava os rebeldes marxistas, os fuzileiros trouxeram para a região uma atmosfera de ordem que ela jamais conhecera.

Isso estimulou os Verbel, uma família local, a reunir outros habitantes da cidade que sabiam a respeito das sepulturas e convencê-los a falar. "Aqui, todos sabiam sobre as sepulturas, e nós relatamos o que sabíamos", diz Hermes Verbel, 43, um dos oito irmãos que organizaram o grupo de moradores. "Todos sabiam como os paramilitares roubaram as terras e o gado dos moradores".

Devido a sua ousadia, a família Verbel pagou um preço alto: o assassinato de um dos irmãos, Guillermo, 52, em janeiro. Mas, àquela altura, a morte só fez com que os moradores ficassem mais determinados. Mais gente veio de cidades vizinhas, como Alto Julio, onde quase toda família tem um parente desaparecido.

Quando dois jornalistas estrangeiros chegaram, os moradores saíram de suas casas para contar como filhos e pais, tios e primos, desapareceram, e deles jamais se voltou a ouvir falar.

O irmão de Ivan Wilches, Mauricio, 16, foi seqüestrado na rua há um ano. Fidencio Berrio, 67, recorda-se de que o seu filho, Andres, 42, saiu para fazer uma ligação telefônica em 2002 e nunca mais retornou.

Maruja Del Carmen Pestana perdeu dois filhos, e Hermenijirda Julio conta que o seu filho, Jairo Luis Alta Miranda, foi raptado por homens armados na arena local de touradas em 2003.

"Não sabemos onde estão os nossos entes queridos", lamenta Mariela Medina, cujo pai, Jose Torres, 60, trabalhava em El Palmar e desapareceu em 1997. "Sabemos que eles foram levados, que foram mortos, mas não sabemos de nada mais".

Por ora, as autoridades estão procurando sepulturas com o auxílio das famílias das vítimas e de informantes como Feliciano Yepes, um ex-comandante paramilitar que agora está na prisão. Ele guiou os investigadores até várias sepulturas.

"Há aproximadamente 500 pessoas enterradas naquela fazenda", disse Yepes, segundo um relato do governo. "Entre eles estão delinqüentes, camponeses que não colaboraram e também paramilitares".

As famílias dos desaparecidos continuam a chegar e a fazer as suas reclamações no pequeno e mal-cuidado escritório que serve como posto de comando local do escritório da procuradoria-geral. Sentados em frente a uma velha máquina de datilografar, eles fornecem aos funcionários detalhes sobre as vítimas e características que possam auxiliar na identificação de corpos, como o estado dos dentes ou a existência de fraturas ósseas antigas.

"Eles me perguntaram a cor da roupa que ele usava, o remédio que tomava, e até o tipo de roupa de baixo que vestia", conta Berrio.

Até o momento, somente dois corpos foram positivamente identificados, embora amostras de DNA tenham sido retiradas de 46 moradores da cidade, de forma que possam ser comparadas com aquelas dos esqueletos recuperados.

"Queremos muito uma resposta", diz Cardenas. "Uma mãe sente dor, e todas as mães se perguntam o que aconteceu com seus filhos, onde eles estão".

Próximo a San Onofre, a fazenda El Palmar, com as suas palmeiras e grandes árvores ceiba, está agora em paz e sem movimento. Orlando Pascua, 33, um dos camponeses que atualmente trabalha no local, leva os visitantes até os estábulos, onde as milícias cavaram várias covas profundas. A bota de uma das vítimas foi jogada para um canto. Vários metros adiante, as milícias enterraram várias outras pessoas sob uma grande árvore.

Pascua diz que ele e outros camponeses estão tentando esquecer o que ocorreu, mas que isso não é fácil. "Dizem que os paramilitares fizeram um grande estrago", afirma. "Quando as pessoas vinham para cá, daqui não saíam".

*Jenny Carolina Gonzalez contribuiu de Bogotá. Grupos paramilitares de direita matavam para se apoderar de terras

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