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10/08/2005

Pouso da Discovery conclui com segurança a 1ª missão desde a tragédia do Columbia

The New York Times
John Schwartz, na Base Edwards da Força Aérea, e

Warren E. Leary, no Cabo Canaveral, Flórida
O ônibus espacial Discovery planou de volta à Terra, em um pouso antes do amanhecer aqui no deserto Mojave, nesta terça-feira (9/8), quase 14 dias após o início de sua jornada de 9,3 milhões de quilômetros. Foi a primeira missão de um ônibus espacial desde a perda do Columbia e sua tripulação de sete astronautas em fevereiro de 2003, que lançou a agência espacial no que Michael Griffin, o administrador da Nasa, chamou de "profundezas do desespero".

Monica Almeida/The New York Times 
Tripulantes da Discovery avaliam a missão após a bem sucedida aterrissagem da nave
A missão do Discovery, no papel, era simples: ela envolvia reabastecer de suprimentos a Estação Espacial Internacional e testar novas tecnologias e técnicas de detecção, avaliação e reparo de danos causados por destroços de lançamento. Mas basicamente, a missão do Discovery era recolocar os EUA no negócio de lançamento de humanos ao espaço.

Os administradores da Nasa ficaram extáticos com o retorno bem-sucedido ao espaço. "Se você quer saber como me sinto, eu me sinto fantástico", disse o diretor do programa, Bill Parsons, em uma coletiva de imprensa pós-pouso, na Flórida. "Esta é uma missão amplamente bem-sucedida em muitas formas."

O pouso estava originalmente planejado para o lar dos ônibus espaciais, o Centro Espacial Kennedy na Flórida. Mas o tempo imprevisível ao longo da Costa Espacial levou os diretores da missão a "cancelar" quatro oportunidades de pouso na Flórida em dois dias, e finalmente optar por uma mudança de planos.

Apesar de o céu sobre o local de pouso na Flórida estar limpo, nuvens ameaçavam nas proximidades. Mas o céu sobre o Mojave estava bem claro, com as estrelas brilhando e o ar fresco.

"O que você acha de uma clara e bela noite com brisa na pista no alto deserto da Califórnia?" perguntou Karen Ham, uma astronauta no controle da missão, que se comunicava com o ônibus espacial.

A comandante do ônibus espacial, a coronel Eileen Collins, respondeu: "Nós estamos prontos para seja lá o que precisarmos fazer".

O tempo para o pouso do ônibus espacial precisa estar extremamente claro, sem nuvens de chuva em uma distância de 48 quilômetros do local de pouso, já que a decisão de pousar ocorre mais de uma hora antes do pouso da nave.

Boa visibilidade é importante, já que o ônibus espacial plana para pousar; o piloto não pode subir de novo e contornar para uma segunda tentativa. E na velocidade em que o ônibus espacial voa, a chuva pode danificar os ladrilhos.

O ônibus espacial começou a concluir sua missão às 7h06 da manhã, ao acionar os motores sobre o Oceano Índico por mais de dois minutos, no que é conhecido como "de-orbit burn".

Cerca de 30 minutos depois, a uma altitude de 122 quilômetros, o ônibus espacial entrou na atmosfera em uma velocidade máxima de mais de 25.700 quilômetros por hora, guiado inicialmente por seus jatos de manobra e posteriormente, à medida que a atmosfera se tornava mais densa, pelos flapes das asas e pela direção.

Durante a descida controlada por computador, o Discovery se livrou do excesso de energia e reduziu sua velocidade realizando uma série de quatro curvas. O ônibus atravessou a costa da Califórnia vindo do sudoeste, voando para o norte de Los Angeles em um curso que o levou para entre Oxnard e Ventura. Um característico boom sônico duplo pôde ser ouvido sobre Edwards enquanto a nave passava acima.

Assim que a velocidade da Discovery caiu para abaixo da velocidade do som, a coronel Collins assumiu os controles e trouxe a espaçonave --naquele momento, basicamente, um tijolo com asas-- para a aproximação de pouso.

Ela executou uma curva de 196 graus para se alinhar com a pista de concreto de 4.500 metros. O trem de pouso principal tocou a pista e os pára-quedas foram acionados; o trem de pouso do nariz tocou a pista imediatamente em seguida, às 8h11 da manhã, horário da Costa Leste, um minuto antes do previsto.

"O Discovery está em casa", disse James Hartsfield, um porta-voz da Nasa que narrou o retorno. Enquanto o ônibus espacial percorria a pista para parar, Ham disse: "Parabéns pelo vôo teste realmente espetacular", e acrescentou, "bem-vindos ao lar, amigos".

"Nós estamos felizes em estar de volta", disse a coronel Collins. "Nós parabenizamos toda a equipe pelo trabalho bem feito."

A missão foi uma mistura de sucesso, frustração e preocupação. O lançamento foi adiado repetidas vezes, e um problema com o sensor de combustível forçou os controladores da missão a cancelar o lançamento de 13 de julho, restando apenas duas horas e meia para a decolagem.

Os sete astronautas --a coronel Collins, a comandante; o tenente-coronel James M. Kelly da Força Aérea, o piloto; o dr. Stephen K. Robinson; a capitã Wendy B. Lawrence da Marinha; e o dr. Charles J. Camarda, todos dos Estados Unidos; o dr. Andrew S.W. Thomas, da Austrália; e Soichi Noguchi, do Japão-- transferiram os suprimentos necessários para a Estação Espacial Internacional, que perdeu a capacidade do ônibus espacial de transportar cargas pesadas ao espaço. E eles encheram o módulo de carga com lixo da estação para trazer de volta à Terra.

Robinson e Noguchi substituíram um giroscópio quebrado, que ajuda a estação a controlar sua direção, e recuperaram outro que falhou.

O tanque externo do ônibus espacial, redesenhado para minimizar o desprendimento de destroços que condenou o Columbia, produziu bem menos destroços do que antes. Mas vários pedaços que se desprenderam do tanque durante o lançamento --incluindo um pedaço de 400 gramas que se soltou de uma área chamada rampa PAL-- eram grandes o suficiente para terem causado um dano catastrófico se tivessem se desprendido no pior momento e atingido a nave. Em resposta, os diretores da Nasa anunciaram que os vôos dos ônibus espaciais estão suspensos até que o problema da espuma esteja realmente resolvido.

Em uma coletiva de imprensa após o pouso, o dr. Griffin, o administrador da Nasa, disse que o novo tanque externo forneceu dados valiosos para os engenheiros, que agora poderão tratar do problema após este "vôo teste".

"Não é um tanque perfeito, mas agora eles têm alguns dados", ele disse.

Duas horas após o pouso, após exames médicos preliminares, os astronautas fizeram uma inspeção visual do ônibus espacial que foi seu lar em órbita por 14 dias.

Em seguida, a coronel Collins disse: "Ele perece fantástico". Ela agradeceu aos funcionários que tornaram a missão possível. "Para muitos de nós, foram quatro anos desde que treinamos para a STS-114", o nome oficial da missão, ela disse. "Este é um momento maravilhoso que nós todos vivenciamos."

A série de câmeras e sensores projetados para encontrar danos durante a missão operou impecavelmente. A maior capacidade de visualizar a condição da nave no espaço fez com que um número relativamente pequeno de fendas e estrias ficassem à mostra e exigissem análise.

Diane Vaughan, uma professora de sociologia da Universidade de Colúmbia que serviu como consultora da junta de investigação do acidente do Columbia, disse que o resultado foi uma enxurrada de notícias alarmistas.

"Uma das ironias da situação da Nasa é que agora, finalmente, ela tem boas câmeras pela primeira vez, de forma que cada coisinha que se desprende é visível", disse ela. "Assim, para o público, parece espuma descontrolada, quando na verdade é menos --apenas parece mais."

O dano exigiu análise; sem um registro histórico detalhado de danos em órbita, era difícil dizer se uma mancha poderia se desenvolver em algo capaz de ameaçar a nave. Isto, por sua vez, fez a Nasa parecer temerosa em relação aos danos, e pessoas que fizeram parte dos primórdios do programa reclamaram que os atuais diretores tinham perdido a coragem.

A análise levou à primeira caminhada no espaço até a barriga do ônibus espacial, feita pelo dr. Robinson, que puxou duas tiras salientes do tecido que preenche as fendas sob a nave. Eles ameaçavam provocar um aquecimento desigual durante a reentrada. Os diretores da missão rejeitaram outra possível caminhada no espaço, para lidar com o problema de uma manta isolante danificada no topo da fuselagem.

Os administradores da Nasa disseram que pretendem submeter o ônibus espacial a "um pente fino", para determinar a extensão dos danos.

A missão deveria durar 12 dias e meio, mas os diretores acrescentaram um dia para transferência de mais suprimentos para a estação, já que não sabem quando os ônibus espaciais farão uma nova viagem, e então um segundo após o cancelamento das duas primeiras tentativas de pouso, na segunda-feira.

Edwards era o ponto original de pouso para os ônibus espaciais, e agora as naves encerraram suas jornadas espaciais aqui em 50 das 114 missões.

Em mais de duas décadas de vôo, os ônibus pousaram 61 vezes no Centro Kennedy, que foi designado como o local principal de pouso em 1991. No início do programa, as naves pousavam em Edwards se qualquer coisa desencorajasse o pouso na Costa Leste. O último pouso em Edwards foi uma missão com o ônibus espacial Endeavor, em junho de 2002.

Apenas um vôo, uma missão de 1982 do Columbia, pousou em White Sands, a última opção da Nasa. Os ventos fortes encheram a nave de tanta areia e pó que foram necessárias semanas para os trabalhadores a limparem.

O Centro Espacial Kennedy se tornou o local favorito com o tempo, já que a Nasa prepara os ônibus espaciais para vôo lá e o pouso na Flórida economiza para a agência espacial pelo menos 1 milhão de dólares e pelo menos uma semana de tempo de procedimento.

Quando o ônibus espacial pousa em Edwards, ele precisa ser transportado de volta à Flórida no topo de um dos dois Boeing 747 especialmente adaptados da Nasa.

Assim, a decisão de pousar em Edwards significa que será impossível para a Nasa lançar o ônibus espacial Atlantis em setembro, como planejava, já que o Discovery terá que ser preparada para serviço como possível veículo de resgate. Tal lançamento exigiria o que o dr. Griffin, o administrador da Nasa, chamou de "momento eureka" que leve a um rápido conserto do problema da espuma.

Mas sejam quais forem as chances de isto acontecer, com o pouso na Califórnia e a viagem para casa, o Discovery e o Atlantis não poderão ser preparadas para vôo a tempo. A próxima janela abre em novembro.

Jon Clark, cuja esposa, Laurel Clark, morreu no acidente da Columbia, voou para a Flórida para assistir ao retorno do ônibus espacial, e soou aliviado com o retorno do Discovery. "É ótimo ouvir suas vozes", disse ele, "e saber que estão em segurança em casa".

Na coletiva matinal, o dr. Griffin disse: "Nós nos esforçaremos o máximo que pudermos para voltar ao espaço neste ano", já que a estação espacial precisa ser completada e a frota de ônibus espaciais será aposentada em 2010. Aterrissagem na Califórnia inviabiliza o vôo do Atlantis em setembro George El Khouri Andolfato

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