UOL Notícias Internacional
 

11/08/2005

Vitória da oposição democrata-cristã na Alemanha ainda não pode ser dada como certa

The New York Times
Richard Bernstein
Em Berlim
Um fato bem estabelecido na política é que ser tido como um perdedor certo tem as suas vantagens. Ou pelo menos essa regra parece valer na Alemanha. O suposto perdedor certo do país, o chanceler Gerhard Schröder, que enfrentará eleições daqui a pouco mais de cinco semanas, de repente não está mais sendo considerado como irremediavelmente derrotado.

E, é claro, isso significa que a suposta ganhadora certa, a líder da União Democrata Cristã (CDU), Angela Merkel, tem vacilado. A eleição nacional de 18 de setembro, tida até duas semanas atrás como um passeio rumo ao poder para Merkel, está, segundo proclamou nesta semana a revista "Der Spiegel", "subita e novamente em aberto".

Bem, talvez não exatamente totalmente em aberto. Os números das pesquisas ainda indicam que o Partido Social-Democrata de Gerhard Schröeder está 13 ou 14 pontos percentuais atrás dos democrata-cristãos, e que, conforme disse Richard Hilmer, diretor da empresa de pesquisas Infratest, "isso é realmente uma grande diferença". Pesquisas anteriores revelaram uma diferença maior.

Schröder pode ter falado confiantemente quando relembrou recentemente que os democrata-cristãos "abriram o champanhe cedo demais" na última eleição, há três anos, apenas para observarem como ele orquestrou uma vitória a partir da retaguarda. Mas os principais fatores responsáveis por aquela vitória --as enchentes no leste da Alemanha e o debate sobre a guerra no Iraque-- não estão presentes no quadro atual.

Além disso, Merkel tem titubeado, mas ela poderá muito bem se recuperar, se beneficiando das mesmas baixas expectativas que estão ajudando Schröder neste momento.

Gary Smith, diretor da Academia Americana em Berlim, um centro de estudos avançados politicamente independente e financiado pela iniciativa privada, compara Merkel --muitas vezes tida como um pouco tola quando comparada a Schröder-- a George W. Bush antes do primeiro debate com Al Gore. Um debate que Bush, que todos esperavam que demonstraria ser inepto, desinformado e desarticulado, venceu simplesmente porque foi além dessas expectativas.

Mas, ainda assim, pelo menos até o momento, algo se modificou no estado de espírito popular na Alemanha, e certamente há uma possibilidade bem real de que a coalizão liderada por Merkel não consiga obter uma maioria nítida, obrigando-a a formar uma nebulosa "grande coalizão" com os social-democratas.

Dois meses atrás, após as grandes derrotas sofridas pelos social-democratas nas eleições estaduais na Renânia do Norte-Vestfália, Merkel parecia praticamente indômita, chegando a superar Schröeder na disputa por popularidade pessoal --em contraste com a concorrência entre os partidos, na qual os democrata-cristãos sempre levaram uma grande vantagem sobre os social-democratas.

Mas agora, as mesmas pesquisas que indicam que o partido de Schröeder perderá em setembro demonstram que se a disputa pela chancelaria pudesse ser travada entre candidatos, Schröder versus Merkel, o chanceler obteria 48% dos votos, contra 39% de Merkel. Uma outra pesquisa recente, realizada pelo Forsa Group, revela que 51% dos alemães não desejam uma mudança de governo, em relação a 44% dois meses atrás.

O que está acontecendo?

Em parte, existe aquilo que vários jornais descreveram como um desempenho opaco da campanha de Merkel, um desempenho inserido no contexto da sua reputação de vencedora certa. E há uma tendência para que se perdoe menos os erros cometidos por um vencedor certo do que os de um candidato que é tido como derrotado.

E houve ainda a sua gafe, cometida duas vezes em rápida sucessão, na qual ela pareceu ter confundido as rendas brutas e líquidas dos trabalhadores, o que, por si só, pode não ser algo terrivelmente sério, mas que foi esquisito para alguém cuja principal plataforma de campanha giraria em torno da sua compreensão do triste cenário econômico alemão.

Outros gestos que custaram apoio a Merkel incluem o seu anúncio anterior de que favoreceria um aumento de 2% no imposto de 16% sobre as compras feitas na Alemanha. Por si só, a idéia tem como objetivo reduzir os custos da mão-de-obra alemã, que não são competitivos, e em um discurso na Câmara de Comércio Americana, na noite de quarta-feira (10/08), Merkel ofereceu várias outras medidas com o objetivo de atingir o mesmo resultado.

Mas, conforme disse Hilmer: "A CDU sempre foi o partido contrário ao aumento de impostos, e a primeira coisa que eles anunciaram foi esse aumento". Os comentaristas políticos argumentaram que esse foi um gesto honesto de Merkel, e que ela merece crédito por dito sem rodeios o que pretende fazer caso se torne chanceler. Mas, por ora, o anúncio não teve boa repercussão.

Pode-se dizer que Merkel tem passado a impressão de ser mais uma especialista em detalhes do que uma líder carismática no estilo de uma Thatcher, que anunciaria uma grande visão alternativa. Mas, pelo menos há algumas semanas, isso não impediu que ela parecesse estar extremamente forte politicamente. Merkel pode, é claro, transmitir novamente a impressão de força, especialmente no caso de se sair bem no debate televisado que terá com Schröder em 4 de setembro.

A natureza imprevisível do estado de espírito alemão pode ter menos a ver com essa ou aquela gafe merkeliana, e mais com os próprios alemães, talvez se constituindo até em uma fratura na consciência coletiva do povo.

Os alemães parecem saber que a coalizão formada pelos social-democratas e pelos verdes não conseguiu reduzir o desemprego e reativar a economia, e, portanto, eles estariam prontos para recorrer a Merkel.

Eles também parecem sentir que as reformas são necessárias, mas tais reformas também os deixam profundamente ansiosos, e quando estão ansiosos, eles costumam ansiar pelo candidato que conhecem.

E, assim, durante meses os alemães têm expressado o seu descontentamento com Schröder e a coalizão governista. E agora que Schröder se tornou um derrotado certo, eles parecem estar experimentando uma espécie de nostalgia antecipatória pelo chanceler, juntamente com uma desilusão também antecipatória com relação à sua provável sucessora, que, segundo as pesquisas, elegerão, ainda que gostem menos dela.

Isso faz com que surja a possibilidade de que a opinião pública se recuse a apoiar qualquer governo ou programa, tanto se estes forem empurrados por uma vitoriosa coalizão liderada pelos democrata-cristãos, como se, caso o eleitorado fragmentado assim o decretar, forem defendidos por uma coalizão com os social-democratas.

A insatisfação pública crônica tem flagelado Schröder durante grande parte do seu segundo mandato, de forma que os analistas políticos acreditam que sob qualquer circunstância em que Merkel se torne chanceler, ela necessitará de um mandato claro para revitalizar a saúde econômica da Alemanha.

Mas a questão é: a Alemanha está preparada para lhe conceder tal mandato? Desempenho pessoal de Schröder reduz a vantagem de Merkel Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h29

    -0,25
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h38

    -0,04
    75.959,84
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host