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12/08/2005

Líder xiita exige a autonomia para o Sul do Iraque

The New York Times
Edward Wong*

Em Bagdá, Iraque
Um dos mais poderosos políticos xiitas apoiou fortemente nesta quinta-feira (11/08) as exigências de formação de uma região semi-independente no Sul rico em petróleo, adicionando ainda mais turbulência à elaboração da nova Constituição, à medida que o prazo para sua conclusão se aproxima.

O político, Abdul-Aziz Al Hakim, um religioso xiita com laços estreitos com o Irã, disse a uma grande aglomeração de pessoas na cidade sagrada de Najaf que é "necessário" que os árabes xiitas garantam amplos poderes de governo para o Sul, que é dominado pelos xiitas, que foram por muito tempo oprimidos pelo governo de Saddam Hussein.

Al Hakim tem mantido negociações diretas com outros líderes iraquianos em questões da nova Constituição, e seus comentários sinalizaram um acirramento da posição defendida por alguns xiitas, restando apenas quatro dias para o prazo de conclusão do esboço do documento.

A questão das regiões autônomas se tornou o ponto mais difícil nas negociações. Os líderes curdos, que desejam preservar os amplos poderes do Curdistão iraquiano no Norte, têm sido os maiores defensores da autonomia regional, enquanto os árabes sunitas, ex-governantes do país, temendo uma divisão injusta das reservas de petróleo, têm rejeitado veementemente a idéia.

Na quinta-feira, alguns líderes árabes sunitas condenaram imediatamente o pedido de Hakim de uma semi-independência para a região Sul, e disseram que agora será difícil concluir a Constituição a tempo.

"Eu não acho que chegaremos a um acordo em quatro dias", disse Fakhri Al Qaisi, um membro árabe sunita do comitê constitucional, composto de 71 membros. "Não há nenhum acordo entre qualquer um dos grupos. Todas as portas foram fechadas. Os curdos insistem em suas exigências. Os xiitas insistem em suas exigências."

Até agora, os líderes religiosos xiitas em Bagdá vinham falando em poderes regionais moderados. Os comentários de Al Hakim apóiam as exigências mais fortes de autonomia dos políticos xiitas mais seculares no Sul.

"Para manter o equilíbrio político do país, o Iraque deve ser governado por um sistema federal abaixo do governo central", disse Al Hakim para milhares de fiéis, muitos dos quais acenando bandeiras verdes, um símbolo do Islã xiita. "Nós achamos que é necessário formar uma região inteira no Sul."

Os comentários de Al Hakim ocorreram após uma reunião que ele teve em Najaf, na quarta-feira, com o grão-aiatolá Ali Al Sistani, o mais reverenciado clérigo xiita no Iraque. O aiatolá disse aos políticos xiitas, na semana passada, que apoiava o conceito de autonomia, apesar de não ter feito recomendações específicas.

Ao longo de todo o esboço da Constituição, os maiores grupos étnicos e sectários do país negociaram duramente uma série de assuntos, mas nenhuma questão inspirou mais frustração ou má vontade do que a definição de poderes regionais.

Os comentários de Al Hakim acentuaram a divisão poucos dias antes do prazo final de 15 de agosto, quando a Assembléia Nacional deveria aprovar o esboço da Constituição, preparando o caminho para o referendo popular do documento em outubro e eleições nacionais em dezembro.

O governo Bush tem feito forte pressão sobre os iraquianos para que cumpram o prazo, na esperança de que o processo ajude a remover parte da revolta na insurreição árabe sunita e melhore a opinião pública americana sobre a guerra no Iraque.

Al Qaisi, o líder sunita, disse que os árabes sunitas não podiam aprovar a criação de regiões autônomas, como em uma confederação, porque isto levaria a uma separatismo no Iraque. "Nós queremos a unidade do Iraque", disse ele, "e nós queremos preservar esta unidade".

A guerra de guerrilha continuou pelo país na quarta-feira, com autoridades iraquianas informando que pelo menos sete pessoas, incluindo três soldados iraquianos e um oficial de inteligência, foram mortas.

Oficiais americanos disseram que um marine morreu em uma explosão de bomba em estrada em Ramadi, na quarta-feira, e uma aeronave não tripulada caiu perto da cidade de Mosul, no Norte, na noite de quarta-feira.

Um funcionário iraquiano envolvido no julgamento de Saddam e seus auxiliares disse na quinta-feira que o tribunal estava perto de estabelecer uma data.

O tribunal deve dar aos advogados de Saddam uma data definitiva no final deste mês, e o funcionário disse que o julgamento quase certamente ocorrerá em meados de outubro. Assim que a data for estabelecida, os advogados de Saddam terão pelo menos 45 dias para se preparar, disse o funcionário, que falou sob a condição de anonimato porque funcionários do tribunal não devem dar declarações públicas.

O movimento pela autonomia do Sul apoiado por Al Hakim tem ganhado força ao longo do verão. Os políticos do Sul, particularmente na região de Basra, têm feito lobby junto aos autores da Constituição para assegurar o direito de as províncias do Iraque formarem regiões autônomas, semelhantes ao Curdistão iraquiano.

O Sul poderia lucrar enormemente com tal arranjo --ele conta com 80% a 90% das vastas reservas de petróleo do Iraque e com os únicos portos do país. Muitos sulistas se dizem frustrados pelo governo central, em Bagdá, não alocar mais receita do petróleo para sua região empobrecida.

Muitos dos políticos xiitas que há muito apóiam a idéia de autonomia do Sul são seculares. O mais poderoso defensor tem sido Ahmad Chalabi, um vice-primeiro-ministro e ex-favorito do Pentágono. Al Hakim é a primeira importante figura religiosa xiita a dar seu apoio de forma pública.

O partido de Al Hakim, o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, fundado no Irã nos anos 80, detém poder considerável em Basra e no restante do Sul. Ele comanda uma coalizão que tem a maioria das cadeiras no conselho de governo de Basra, e seu braço armado, a Organização Badr, controla muitos dos postos mais altos nas forças de segurança de Basra. Hábitos religiosos xiitas tomaram conta de Basra, e o retrato de Al Hakim está fixado nas ruas e barreiras policiais em toda a cidade.

Os comentários de Al Hakim na quinta-feira ocorreram em uma grande aglomeração pública em Najaf, marcando a morte de seu irmão mais velho, Muhammad Bakr Al Hakim, um clérigo muito amado que morreu na explosão de um carro em agosto de 2003.

Alguns xiitas têm apoiado a criação de uma região envolvendo a província de Al Basra e as províncias vizinhas, enquanto outros têm defendido uma região maior, que também englobaria as cidades sagradas de Najaf e Karbala.

Mas também há xiitas que se opõem veementemente a qualquer tentativa de autonomia. Muqtada Al Sadr, o jovem clérigo rebelde que liderou levantes contra os americanos no ano passado, e o aiatolá Muhammad Yacoubi, outro clérigo radical com ligações com Al Sadr, condenaram o movimento, dizendo que ele vai contra o conceito de um governo islâmico central.

O prazo de 15 de agosto para aprovação parlamentar da Constituição foi estabelecido pela autoridade americana de ocupação sob o comando de L. Paul Bremer.

Nos últimos dias, importantes autoridades iraquianas insinuaram que o comitê constitucional poderia simplesmente apresentar algumas partes da Constituição para a Assembléia Nacional dentro do prazo, e continuar negociando as questões mais difíceis, como a autonomia regional. Outras questões contenciosas incluem a divisão da receita do petróleo, o papel legal do Islã e a proteção dos direitos das mulheres.

*Abdul-Razzaq Al Saeidy contribuiu com reportagem em Bagdá e um funcionário iraquiano do The New York Times contribuiu em Najaf. Região concentra pelo menos 80% das reservas de petróleo do país George El Khouri Andolfato

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