UOL Notícias Internacional
 

13/08/2005

Publicitário revela que a campanha do presidente Lula teve financiamento ilegal

The New York Times
LARRY ROHTER

No Rio de Janeiro
O crescente escândalo brasileiro de corrupção chegou mais perto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva depois que um assistente admitiu que pelos menos US$ 3,25 milhões movimentados por meio de contas secretas em bancos no exterior foram utilizados ilegalmente para financiar a campanha de 2002 do Partido dos Trabalhadores (PT), que está no poder.

O publicitário Duda Mendonça, um assistente de Lula para assuntos relativos à mídia, disse a investigadores parlamentares que não acredita que qualquer quantia tenha sido utilizada para financiar diretamente a campanha do presidente. Ele afirmou que foi pago pelo trabalho feito para outros candidatos do PT pelo mesmo homem que foi identificado como o operador de um fundo de um caixa dois partidário de US$ 30 milhões.

"Esse dinheiro era claramente de caixa dois. Nós sabíamos", disse Mendonça durante o interrogatório televisionado que terminou no final da noite de quinta-feira, e durante o qual ele apresentou cópias de transações bancárias. "Era óbvio que o dinheiro não fora oficialmente declarado, mas não tínhamos outra opção. Ou pegávamos ou não recebíamos".

Com a sua reputação em jogo, Lula foi à televisão nesta sexta-feira (12/08), antes de uma reunião do seu ministério para discutir as últimas revelações de um escândalo que começou três meses atrás. Ele pediu desculpas pelo comportamento do seu partido, mas negou conhecer qualquer uma das irregularidades que provocaram a renúncia dos três principais líderes do seu partido e do seu assessor mais próximo.

"Me sinto traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento", disse Lula, um ex-torneiro mecânico e sindicalista que assumiu a presidência em 2003 prometendo uma nova era de governo honesto e ético. "Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia, e que chocam o país".

Líderes de alguns partidos de oposição rejeitaram a explicação e voltaram a pedir que sejam tomadas medidas para o impeachment de Lula. Mas Severino Cavalcanti, presidente da Câmara dos Deputados e aliado do presidente, disse que é muito cedo para que se tomem tais medidas porque não há nenhuma evidência que incrimine diretamente Lula.

Porém, as afirmações do presidente de que ignorava o esquema ficaram abaladas na sexta-feira com a publicação de uma entrevista concedida a uma revista semanal pelo ex-presidente do Partido Liberal, um dos integrantes da coalizão governista.

O ex-presidente do partido, Valdemar da Costa Neto, disse na entrevista que o seu partido recebeu quase US$ 4 milhões não declarados em 2002 em troca de apoio a Lula, além de ter fornecido a este um companheiro de chapa. Ele disse ainda que Lula sabia da transação.

"O Lula estava na sala ao lado" quando o acordo foi feito, disse Costa Neto em uma entrevista à revista "Época". Costa Neto renunciou ao seu mandato de deputado no início deste mês para evitar que seu mandato fosse cassado devido ao papel que desempenhou no escândalo. "Ele sabia que estávamos negociando números", afirmou Costa Neto, acrescentando que Lula estava presente para "autorizar a operação".

As declarações de Costa Neto também implicam diretamente o vice-presidente José Alencar, que também é membro do Partido Liberal. Segundo o ex-deputado, Alencar, que seria o próximo na linha de sucessão caso Lula renunciasse ou sofresse um impeachment, queria que o dinheiro fosse pago de maneira legal, mas teve a sua vontade vencida pelos outros líderes políticos envolvidos no esquema.

Eleito em 2002, com 53 milhões de votos, Lula vê agora a sua base de apoio popular diminuir como resultado do escândalo. Uma pesquisa publicada na sexta-feira indicou pela primeira vez que ele poderia ser derrotado em uma campanha pela reeleição.

Segundo a pesquisa do Instituto Datafolha, José Serra, o candidato derrotado na última eleição presidencial, e atualmente prefeito de São Paulo, derrotaria Lula por uma diferença de nove pontos percentuais caso a eleição fosse realizada hoje.

O fato de Duda Mendonça ter admitido que recebeu doação ilegal de dinheiro cuja origem ainda não foi explicada é potencialmente mais danoso para o partido que Lula fundou há 25 anos.

Segundo a legislação brasileira, isso pode resultar no cancelamento do registro oficial do PT, o que faria com que Lula concorresse à reeleição como um candidato sem partido. Crise começa a abalar a popularidade do governante, diz pesquisa Danilo Fonseca

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