UOL Notícias Internacional
 

14/08/2005

Oposição protege Lula do escândalo, até agora

The New York Times
LARRY ROHTER

No Rio de Janeiro
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    Seu principal assessor renunciou em desgraça, assim como três importantes líderes de seu partido, e vários congressistas estão agora enfrentando cassação. Mas enquanto o pior escândalo de corrupção na história do Brasil continua derrubando aqueles ao seu redor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece imune ao contágio.

    Mas ele deve tal boa fortuna, argumentam líderes políticos e comentaristas, menos a uma ausência de evidência e mais a frios cálculos políticos. Em vez de colocar em risco uma economia robusta na tentativa de afastar Lula do cargo, os líderes da oposição têm falado abertamente em "blindar" o presidente para que possa sobreviver, enfraquecido e com sua imagem severamente arranhada o suficiente para que possa ser derrotado na eleição presidencial que está a 14 meses de distância.

    "É conveniente para o país que o presidente pareça ser o bobo da corte, que não sabia de nada do que estava acontecendo", disse Hélio Jaguaribe, um importante cientista político, em uma entrevista aqui. "É uma mentira, mas é boa. Não há nenhuma vantagem em ter uma crise institucional agora, então é melhor deixá-lo fora disto."

    O escândalo começou três meses atrás, com a exibição de um vídeo mostrando um assessor político de médio escalão nos correios solicitando suborno em nome do líder de um partido aliado de Lula. De lá para cá, ele se expandiu tão rapidamente que transgressões estão sendo procuradas, e freqüentemente encontradas, em quase todos os cantos do governo Lula e de seu partido.

    As violações descobertas incluem a solicitação e gastos de contribuições ilegais de campanha e o pagamento de um "mensalão" de US$ 12.500 para membros dos partidos aliados, para obtenção de seu apoio no Congresso. Os líderes do Partido dos Trabalhadores de Lula também operaram uma fundo de caixa dois de US$ 30 milhões e aceitaram presentes como jipes de empresas interessadas em contratos com o governo.

    As crescentes transgressões estão colocando a postura de fazer vista grossa em relação a Lula sob duro teste. Na última quinta-feira (11/08), o responsável pela campanha do presidente reconheceu em depoimento no Congresso, transmitido pela televisão, que a pessoa acusada de administrar o caixa dois lhe pagou US$ 3,25 milhões não declarados, por meio de contas secretas no exterior, por seu trabalho na campanha eleitoral de 2002.

    Inicialmente, Lula, um ex-líder sindical cujas políticas econômicas conservadoras tranqüilizaram os medos do establishment empresarial quanto a seu passado esquerdista, desprezou a importância do escândalo e o impacto que teria em seu governo. "Olhe para minha cara e veja se estou preocupado", ele disse no final de maio, quando o Congresso autorizou a primeira de três comissões parlamentares de inquérito que agora dominam as manchetes aqui.

    Mas, nas últimas semanas, ele tem exibido sinais de tensão, com os colunistas Merval Pereira e Franklin Martins começando a falar sobre seu "comportamento errático". Freqüentemente emotivo em público, Lula tem chorado durante recentes discursos, incluindo um na quinta-feira e outro na semana passada, quando falou nostalgicamente sobre sua mãe e sua criação como garoto camponês.

    Em vez de permanecer em Brasília, Lula tem viajado pelo país --15 viagens nas últimas cinco semanas, segundo uma contagem-- reafirmando sua integridade pessoal para públicos escolhidos a dedo. Mas, com a renúncia de José Dirceu de Oliveira e Silva, seu chefe da Casa Civil e primeiro-ministro "de facto", ele não tem ninguém com quem contar para as tarefas diárias do governo, e queixas de que o país está à deriva estão crescendo.

    O presidente também tem sido criticado pela adoção da retórica populista beligerante de seu amigo Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, que jantou com Lula em Brasília, na quinta-feira, e emitiu uma forte declaração de apoio.

    À medida que evapora o apoio a Lula entre a classe média urbana, ele tem cada vez mais se voltado a apelos baseados em classe voltados para operários de fábrica e camponeses, que eram a base de apoio original de seu Partido dos Trabalhadores.

    "Eu sou filho de pai e mãe analfabetos", ele disse em um discurso no final do mês passado. "O único legado que deixaram (...) foi andar de cabeça erguida. E não vai ser a elite brasileira que vai fazer eu baixar a minha cabeça."

    Mas todas as indicações sugerem que a oposição política e os poderosos interesses empresariais em São Paulo estão fazendo tudo que podem para manter Lula no poder enquanto ele continuar seguindo as políticas econômicas conservadoras. Segundo relatos na imprensa, o ministro-chefe do Supremo tem particularmente buscado se encontrar com estes grupos para lembrá-los de que não é do interesse de ninguém ver a queda do presidente.

    Em 1992, um dos antecessores de Lula, Fernando Collor de Mello, renunciou após o Congresso ter dado início ao processo de impeachment contra ele. Mas tal renúncia, por causa de um escândalo de corrupção que parece pequeno diante da atual crise, foi um trauma nacional que poucos brasileiros parecem dispostos a repetir.

    Afastar Lula do cargo significaria transferir o poder para seu vice-presidente de 73 anos, José Alencar, um empresário nacionalista em desacordo com as medidas de aperto de cinto do governo. Ainda pior, poderia até mesmo significar a ascensão de Severino Cavalcanti, um político ainda mais velho, despudoradamente retrógrado, que se tornou presidente da Câmara dos Deputados em fevereiro.

    Com o crescimento econômico, as exportações em níveis recordes e tanto as taxas de juros quanto a inflação em queda, a elite tem motivos adicionais para temer a idéia de um longo e desgastante impeachment que poderia afugentar os investidores do Brasil.

    A solução tem sido retratar Lula como uma vítima inadvertida de uma vasta conspiração, apesar de Dirceu já ter dito que nunca agiu em qualquer assunto importante sem o conhecimento de seu chefe.

    Na semana passada, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, John W. Snow, em visita ao país, também deu um voto de confiança a Lula, minimizando o impacto da crise quando os repórteres lhe perguntaram a respeito.

    "A situação, independente de como você queira caracterizá-la, não teve um grande impacto na economia", que "tem lidado com ela com calma", disse ele. "Isto é um reflexo da confiança nas instituições básicas deste país." Meta é evitar que um impeachment afete economia em crescimento George El Khouri Andolfato
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