UOL Notícias Internacional
 

15/08/2005

Milhares de colonos judeus ignoram prazo para retirada e permanecem em Gaza

The New York Times
Greg Myre*

Em Jerusalém
Milhares de colonos judeus desafiaram uma ordem do governo israelense para deixar a Faixa de Gaza até a meia-noite deste domingo (14/08), e as forças de segurança de Israel se preparam para evacuar os colonos e os seus aliados em uma grande operação que dividiu profundamente a nação.

Ruth Fremson/The New York Times 
Colonos judeus e manifestantes põem-se à frente de jipe israelense em Gaza nesta segunda

A retirada ocorre um ano e meio após o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, que durante décadas defendeu a construção dos assentamentos, ter declarado a sua intenção de retirar os israelenses da Faixa de Gaza. Sharon argumentou que Israel não é mais capaz de arcar com os custos da manutenção de 21 assentamentos judaicos altamente fortificados nesta região litorânea, e que a segurança israelense será fortalecida com a remoção.

Após quase cinco anos de confrontos sangrentos entre israelenses e palestinos, a iniciativa de Sharon representa o desdobramento político mais importante dos últimos anos, e com certeza modelará as futuras relações entre as duas partes.

Se a retirada israelense transcorrer de forma relativamente suave, e se a liderança palestina for capaz de estabelecer ordem na Faixa de Gaza, aumentarão as chances de um retorno à mesa de negociação. Mas se a retirada, ou o período que a ela se seguir, levar a novos conflitos, a questão de Gaza poderá representar um impedimento a quaisquer futuras iniciativas de paz.

Uma sólida maioria dos israelenses apóia a retirada, segundo dezenas de pesquisas de opinião realizadas nos últimos 18 meses. "Não faz sentido nenhum permanecer lá", disse no domingo aos repórteres o vice-primeiro-ministro Shimon Peres, durante uma visita a soldados e policiais que estão de prontidão na fronteira com a Faixa de Gaza, fazendo os preparativos finais para a evacuação. "Os assentamentos precisam ser evacuados".

Mas uma expressiva minoria protestou energicamente contra a retirada, e milhares de israelenses se infiltram nos assentamentos judeus da Faixa de Gaza a fim de procurar impedir a retirada.

Dos quase 9.000 colonos que deveriam sair da Faixa de Gaza antes da meia-noite de domingo, pelo menos a metade permaneceu, segundo várias estimativas. E essa avaliação não inclui os infiltrados, cujo número gira em torno de 5.000, segundo as forças armadas.

As forças de segurança de Israel instalaram barreiras rodoviárias no sul de Israel a fim de impedir que mais manifestantes entrem na Faixa de Gaza, e, à meia-noite, fecharam a passagem Kissufim, a principal entrada para os assentamentos da região.

Uma barreira foi colocada sobre a estrada, e uma placa em hebraico e em inglês dizia: "Pare. A entrada na Faixa de Gaza e a presença na região são proibidas pela lei!".

Em Neve Dekalim, um assentamento próximo, várias centenas de jovens se aglomeravam na entrada com a intenção de bloquearem os militares. Eles acenderam pequenas fogueiras e furaram os pneus de um veículo militar, segundo jornalistas que estavam presentes no local.

No assentamento Rafiah Yam, no sul da Faixa de Gaza, um morador colocou foi na sua casa, em um micro-ônibus e em um armazém, anunciou a Reuters. "Não quero deixar nada para os palestinos", disse o morador, Yaakov Mazal-Tari. "Eles não merecem. Vou queimar tudo, e o que não puder queimar, destruirei".

Em outros locais da Faixa de Gaza, os colonos diziam esperar por um milagre. "Não é tarde demais, senhor primeiro-ministro. Você pode parar o trem suicida no último minuto, antes que destrua a nação judaica", disse Hana Barat, que mora em Kfar Darom, um assentamento de colonos de linha dura, na região central da Faixa de Gaza, onde os moradores se recusaram a partir.

Barat se locomove por meio de uma cadeira de rodas. Ela ficou paralisada há mais de três anos, em um ataque palestino ao seu carro. "Ainda que eles nos arranquem de nossas casas, nós vencemos", garantiu ela. "Após anos de guerra psicológica, de foguetes e morteiros, após termos perdidos os nossos amigos queridos, depois de tudo isso permanecemos juntos, unidos e unidos em nossos espíritos".

Embora a resistência à evacuação seja certa, não está claro o grau de intensidade e perseverança da oposição. Os colonos da Faixa de Gaza são em sua maioria membros de famílias de classe média com filhos, e acredita-se que a sua resistência seja mais passiva. Talvez os soldados e policiais tenham que arrastá-los de suas casas, mas é improvável que haja confrontos violentos.

Mas alguns colonos poderão resistir de forma mais ativa. E os infiltrados, vários deles adolescentes e jovens profundamente religiosos da Cisjordânia, são vistos como uma incógnita e poderão ser mais agressivos no confronto com as forças de segurança.

Os colonos têm um período de tolerância de dois dias --segunda e terça-feira--, depois do qual os soldados e policiais baterão nas portas e lhes dirão que a partir de então será proibido permanecer na Faixa de Gaza. As forças de segurança ajudarão os colonos a se mudarem nesses dois dias.

Na quarta-feira (17), as forças de segurança, compostas de mais de 50 mil indivíduos, começarão a remover os colonos e outros israelenses, por meio da força, se isso for necessário.

As forças de segurança têm até um mês para remover os colonos, embora esperem que terminem a tarefa de forma bem mais rápida. Depois que os colonos partirem, os militares destruirão as mais de 1.500 casas deixadas pelos ex-moradores. Os palestinos apóiam a demolição, afirmando que as casas para uma só família não atendem às suas necessidades. Eles dizem que as substituirão por prédios residenciais.

Sharon descreve a retirada como uma ação unilateral israelense, e se recusou a negociar com Iasser Arafat, o líder palestino que morreu em novembro do ano passado. Mas os contatos entre autoridades israelenses e palestinas aumentaram nos últimos meses.

Autoridades de segurança israelenses e palestinas se reuniram no domingo na passagem de Erez, na fronteira norte da Faixa de Gaza, na esperança de evitar ataques e confrontos durante a retirada. Os palestinos estão enviando 7.500 policiais à região para impedir ataques por facções palestinas armadas.

A Faixa de Gaza tem estado calma nos últimos dias. Mas no domingo um palestino disparou tiros contra um posto militar israelenses no assentamento Kfar Darom antes do amanhecer. Um tanque israelense respondeu ao ataque, mas inadvertidamente atingiu um veículo blindado de transporte de pessoal, ferindo cinco soldados.

Os líderes israelenses e palestinos estão esperando que a retirada seja tranqüila. Sharon quer evitar a impressão de que Israel está se retirando sob fogo inimigo, enquanto o líder palestino, Mahmoud Abbas, quer demonstrar que a Autoridade Palestina é capaz de manter a ordem nas terras recém-recebidas.

Os 1,3 milhão de palestinos que vivem na Faixa de Gaza correspondem a mais de 99% dos moradores da região, enquanto os colonos judeus são menos de 1%. Israel, que ocupa a Faixa de Gaza desde que a capturou na guerra de 1967, controla cerca de um quarto desse território.

Israel adiou a retirada por três semanas, de forma que ela não ocorresse durante o período anual de luto judeu de três semanas que comemora a destruição dos dois templos bíblicos em Jerusalém. O feriado Tisha b'Av, que marca o fim do período de luto, terminou na noite de domingo. Os judeus religiosos fizeram jejum da tarde de sexta-feira à tarde de sábado, e milhares oraram no Muro das Lamentações em Jerusalém, parte da muralha que cercava o segundo templo.

A retirada israelense não é sem precedentes. Israel removeu vários milhares de colonos de Yamit, na península do Sinai, em 1982, após a assinatura de um tratado de paz com o Egito. Sharon supervisionou aquela operação como ministro da Defesa.

Mas a retirada de Gaza criou uma oposição doméstica bem mais forte, e esta é a primeira vez que os israelenses se retiram de terras desejadas pelos palestinos para a criação de um futuro Estado.

Não existe um acordo de paz com os palestinos, e críticos israelenses dizem que facções armadas palestinas terão a partir de agora uma facilidade bem maior para lançarem foguetes contra cidades israelenses fora da cerca que circunda a Faixa de Gaza.

*Steven Erlanger contribuiu do assentamento Kfar Darom, e Dina Kraft do Neve Dekalim, ambos na Faixa de Gaza. Governo poderá usar força para expulsá-los a partir de quarta-feira Danilo Fonseca

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