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16/08/2005

Crescimento na Espanha ameaça uma jóia do Islã

The New York Times
Renwick McLean

Em Medina Azahara, Espanha
Segundo historiadores, esta cidade enterrada a cinco quilômetros a oeste de Córdoba era a Versalhes da Idade Média, uma coleção de propriedades e palácios repletos de tesouros que deslumbravam o viajante mais experiente ou aristocrata farto do mundo.

Denis Doyle/The New York Times 
As cidades na região de Córdoba ameaçam os vestígios do esplendor do domínio dos muçulmanos na Espanha
Piscinas de mercúrio podiam ser agitadas para refletir raios de luz solar nas paredes de mármore e tetos de ouro, segundo registros contemporâneos.

As portas entalhadas em marfim e ébano levavam a amplos jardins cheios de animais exóticos e esculturas feitas de pérolas e âmbar.

"Os viajantes de terras distantes, homens de todas as classes e profissões na vida, seguindo várias religiões, príncipes, embaixadores, mercadores, peregrinos, teólogos e poetas, todos concordavam que nunca tinham visto ao longo de suas viagens algo que pudesse ser comparado a ela", escreveu o historiador do século 19, Stanley Lane-Poole, em seu livro "A História dos Mouros na Espanha".

Os arqueólogos são mais hesitantes, dizendo que apesar de muitas destas maravilhas poderem ter existido, evidência física delas ainda não foi encontrada. Mas eles também são cheios de superlativos.

"Esta foi a maior cidade já construída da estaca zero na Europa Ocidental", cobrindo quase 115 hectares, disse Antonio Vallejo, o arqueólogo chefe daqui, em uma entrevista. "A maioria das grandes cidades ocidentais cresceu com o tempo. Esta foi construída em um único esforço, a partir de um único projeto."

Medina Azahara, também conhecida como Medinat Al Zahra, foi uma metrópole islâmica construída no século 10 como testamento da proclamação da Espanha, em 929, de que era um verdadeiro califado do mundo muçulmano.

A construção da cidade, que teve início por volta de 940, foi um momento singular na história, quando a força intelectual e cultural mais vibrante na Europa era baseada no Islã, e quando o coração do Islã estava de muitas formas enraizado na Europa.

Mas por volta de 1010, Medina Azahara foi saqueada por puristas islâmicos do Norte da África, que consideravam a cultura muçulmana que ela representava liberal demais em sua interpretação do Alcorão. A pilhagem eliminou a cidade dos mapas por um milênio.

Agora, a menos de uma centena de anos após suas ruínas terem sido identificadas e sua localização ressuscitada nos mapas modernos, surgiu uma nova ameaça. Construtoras estão construindo casas no sítio da cidade, 90% da qual permanece não escavada.

Vallejo disse que tem enfrentado muitos obstáculos nos 20 anos que tem estudado e trabalhado para preservar o sítio --desde financiamento inadequado até erosão. "Mas o maior problema que temos tido é a construção destes imóveis ilegais", disse ele.

O governo local em Córdoba, ele disse, tem fracassado em aplicar a lei aprovada 10 anos atrás, que expandiu as proteções ao sítio contra o desenvolvimento.

Um porta-voz do governo, que observou o protocolo espanhol ao pedir anonimato para evitar passar por cima de seus superiores, disse que as construções praticamente pararam, e que de qualquer forma a maioria das casas construídas fica nas margens do sítio.

Mas Vallejo disse que cerca de 250 casas estavam em área protegida e que o governo não tomou nenhuma medida firme contra futuras construções.

O valor histórico do sítio é díficil de exagerar, disseram ele e outros estudiosos. Medina Azahara representou uma sociedade que, apesar de sua localização em um continente predominantemente cristão, se tornou de muitas formas a personificação do mundo islâmico em seu auge, quando os feitos muçulmanos em campos como ciência, filosofia e matemática superavam virtualmente todos os outros.

Tal sociedade foi chamada Al Andalus, o nome árabe para a Península Ibérica quando estava sob controle muçulmano, um período que durou quase 800 anos e que chegou ao fim em 1492, com a rendição da última fortaleza muçulmana em Granada.

O apogeu de Córdoba

Maria Rosa Menocal, uma professora de espanhol em Yale e autora de "O Ornamento do Mundo", um livro sobre a Espanha muçulmana, disse que Al Andalus e sua capital, Córdoba, eram provavelmente consideradas com justiça o centro do universo conhecido quando Medina Azahara foi construída.

"Não havia nenhuma comparação entre Córdoba e qualquer outra coisa na Europa no século 10 --como Nova York em comparação a, digamos, uma aldeia rural do México, disse ela em uma entrevista por e-mail.

Córdoba tinha água corrente, ruas pavimentadas e iluminadas e, quando grandes coleções de livros eram raras na Europa, cerca de 70 bibliotecas, a maior contendo 400 mil volumes, segundo alguns relatos.

Al Andalus apresentou à Europa Ocidental o papel, a álgebra, técnicas avançadas de irrigação e traduções latinas de muitos das obras clássicas de filosofia grega.

A confluência das heranças islâmica e européia é um capítulo crucial na história do mundo ao qual freqüentemente não é dada a devida atenção, argumentam os estudiosos, e talvez seu maior símbolo seja a cidade em ruínas que Vallejo está lutando para preservar.

Medina Azahara "nunca simbolizou nada na história européia porque virtualmente ninguém que não fazia parte da órbita da Espanha islâmica sabe/sabia algo sobre ela", escreveu Menocal.

Abd Al Rahman III, que fundou a cidade, a imaginou como uma vitrine das virtudes de Al Andalus e como uma afirmação de sua alegação de que era um verdadeiro califa do mundo muçulmano. Como soberano daquela que era na época uma das civilizações mais ricas do mundo, Rahman não apenas encheu o principal palácio da cidade de luxos, mas também o transformou em um empório agitado de músicos, astrônomos, poetas, médicos, botânicos e matemáticos, disseram historiadores.

Sua destruição sinalizou o início do fim da única cultura muçulmana a florescer na Europa Ocidental, e levou à dizimação de uma ramo único do Islã, que se enraizou em um continente distante das influências dos centros islâmicos do Oriente Médio.

Vallejo disse que a escavação plena da cidade, um trabalho que teve início logo após as ruínas terem sido identificadas em 1911, levará pelo menos outra centena de anos. "Este é um trabalho para gerações", disse ele.

Enquanto olhava por sobre as fileiras de arcos de ferradura, pilares de mármore e laranjeiras replantadas no terreno do palácio parcialmente escavado, ele apontou para um grupo de casas construídas a oeste.

"Elas estão bem em cima de nós", disse ele. "Nós nunca poderemos entender realmente esta cidade se algo não for feito em relação a aquelas casas." Cosntrutoras erguem casas em sítio arqueológico da era muçulmana George El Khouri Andolfato

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