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16/08/2005

Ficou sabendo? Estudo revela utilidade da fofoca

The New York Times
Benedict Carey

Em Nova York
As fofocas suculentas viajam tão rápido -ele fez o quê? Ela tem fotos?- que as pessoas nem têm tempo de tapar os ouvidos, mesmo que queiram. "Ouvia muita fofoca pelos corredores, a caminho da aula", contou Mady Miraglia, 35, professora de história em Los Gatos, Califórnia, sobre seu emprego anterior. Os comentários eram sobre os pecados sexuais e as dificuldades em sala de seus colegas professores.

Ilustrações de Brian Rea/The New York Times 
Censuras à vida alheia fortalecem os padrões sociais e a coesão das comunidades, concluem pesquisadores
"Para ser franca, me sentia melhor como professora quando ouvia falar mal dos outros", disse ela. "Eu estava lá sozinha, não tinha noção de como estava me saindo em sala de aula, e a fofoca me dava alguma base. Além disso, sentia que ganhava algum prestígio pelo fato de saber, de estar por dentro de tudo".

A fofoca há era desprezada pelos pesquisadores como pouco mais do que barulho de fundo, tolices sem função útil. Atualmente, porém, eles dizem que é parte central de qualquer estudo de interação do grupo.

As pessoas acham a fofoca irresistível por uma boa razão: não só ela ajuda a esclarecer e reforçar as regras que mantêm as pessoas trabalhando juntas, mas circula informações cruciais sobre comportamentos, que não podem ser publicadas em um manual do departamento.

Segundo os psicólogos, a fofoca tanto pode manchar reputações quanto oferecer uma porta de entrada aos grupos e uma rede de segurança para os membros que se sentem ameaçados.

"Havia uma tendência em depreciar a fofoca como informação pouco confiável" e que não merecia estudo sério. "No entanto, a fofoca parece ser uma interação sofisticada e exercer várias funções. Ela é importante para policiar comportamentos e definir quais são os membros aceitos de um grupo", disse David Sloan Wilson, professor de biologia e antropologia da Universidade Estadual de Nova York em Binghamton e autor de "Darwin's Cathedral", um livro sobre a evolução e o comportamento grupal.

Quando duas ou mais pessoas se juntam para compartilhar informações privilegiadas sobre uma terceira pessoa ausente, freqüentemente estão espalhando notícias importantes e estabelecendo um ritual mutuamente protetor, que pode ter evoluído dos comportamentos grupais ancestrais, argumentam alguns biólogos.

Estudos de longo prazo com crianças de diversos pontos do planeta, como México, Newfoundland e ilhas do Pacífico, confirmaram que o conteúdo e a freqüência da fofoca são universais: as pessoas dedicam entre um quinto a dois terços de sua conversa diária à fofoca, e os homens parecem tão dedicados à prática quanto as mulheres.

O material mais saboroso são traições entre amigos e conhecidos, mentiras e trapaças. A maior parte das pessoas passa suas melhores histórias a pelo menos duas outras pessoas, dizem as pesquisas.

Isso se ramifica por quase todos os grupos sociais e funciona, em parte, para evitar que as pessoas se afastem demais das regras do grupo, escritas ou não, dizem cientistas sociais.

Em um experimento recente, Wilson chefiou uma equipe de pesquisadores que pediu a um grupo de 195 homens e mulheres para aprovar ou reprovar várias situações em que as pessoas falavam por trás de um vizinho. Em uma das situações, um fazendeiro reclamou que o vizinho não tinha consertado a cerca, permitindo que o gado entrasse em seus pastos. O relato estava correto, e os estudantes não reprovaram a fofoca.

Os homens, em particular, disseram que o fazendeiro estava fazendo o que era certo.

"Pura e simplesmente ele devia ter falado sobre o problema para advertir os outros fazendeiros", escreveu um participante, explicando que, neste caso, se não divulgasse a informação, colocaria o grupo em risco.

"As pessoas dizem que não se deve fofocar, que pega mal, mas neste contexto isso é esperado da pessoa: ela é obrigada e dizer, como uma versão informal do código de honra nas academias militares", disse Wilson.

Fofoca e auto-estima

Essa dinâmica não é de maneira alguma confinada ao laboratório. Por 18 meses, Kevin Kniffin, antropólogo da Universidade de Wisconsin, acompanhou as interações sociais de uma equipe universitária de cerca de 50 homens e mulheres que remavam juntos em grupos de quatro ou oito.

Kniffin disse que os níveis de fofoca chegaram ao máximo quando um rapaz menos assíduo entrou na equipe. Ele faltava às práticas ou chegava atrasado. Pelas suas costas, os colegas faziam piadas sobre sua vida sexual e sobre sua personalidade, em parte porque as falhas do rapaz refletiam mal em toda a equipe.

"Assim que o sujeito deixou o grupo, as pessoas voltaram a falar de rádio, comida, política, tempo, esse tipo de coisa", disse Kniffin. "Havia pouca fofoca negativa."

Dada a proteção que exerce, fofocar pouco pode ser tão arriscado quanto fofocar muito, dizem alguns psicólogos. Afinal, a fofoca é a moeda social mais valorizada. Humor e histórias podem animar qualquer ocasião, mas uma boa fofoca se espalha pela sala como uma droga ilícita e irresistível, passada entre acenos e sorrisos, na varanda, no corredor, no banheiro.

Saber que seu chefe está traindo a mulher, que sua cunhada é alcoólatra ou que um rival se beneficiou de um fundo secreto pode ser muito importante, e em muitos casos pode mudar o comportamento de uma pessoa para melhor.

"Todos conhecemos pessoas que não são calibradas para o mundo social que, se participassem de sessões de mexericos, aprenderiam muitas coisas que precisam saber e não podem aprender em outro lugar, como quanto se pode confiar nas pessoas. Evitar fofocas, em certo nível pode ser anormal e pouco saudável", disse Sarah Wert, psicóloga em Yale.

Conversas extra-curriculares também podem ajudar contra a depressão. Em um estudo recente, Wert pediu a 84 universitários que escrevessem sobre um momento em suas vidas que se sentiram particularmente alienados socialmente, e também sobre um momento em que foram calorosamente aceitos.

Depois de terminar, Wert pediu aos participantes que fofocassem com um amigo sobre um conhecido mútuo, enquanto filmava as conversas. Os que tinham boa auto-estima apresentaram um padrão claro: espalhavam boas fofocas quando se sentiam aceitos e mais boatos mais maldosos quando se sentiam marginalizados.

A fofoca pode envolver falar mal de alguém para se sentir melhor por comparação. Ou pode simplesmente ser uma forma de se conectar com outra pessoa e compartilhar inseguranças. Mas o resultado final, disse ela, muitas vezes é um alívio saudável de ansiedade social e profissional.

Miraglia, a professora escolar, disse que achava especialmente confortante ouvir sobre a dificuldade dos professores mais antigos em controlar os alunos difíceis. "Era meu primeiro emprego e era muito difícil. Ouvir alguém dizer sobre outro professor: 'Aquela turma está descontrolada', ajudava a reforçar minha auto-confiança", disse ela.

Ela também ouviu falar de professores que fizeram comentários sexuais não apropriados para os alunos, em clara violação da política da escola e dos padrões profissionais.

Os fofoqueiros em geral percebem que tipo de conversa será aceita por cada grupo. Por exemplo, uma empresa com valores claros, que preza quem trabalha até tarde, tenderá a aceitar uma pessoa que denuncie um colega que sai cedo e a evitar aquele que reclama de trabalhar a noite.

Por outro lado, uma equipe de vendedores independentes aceita mais fofocas sobre os colegas, permitindo aos membros que trabalhem do jeito que queiram, disse Eric K. Foster, acadêmico do Instituto de Pesquisa da Universidade Temple na Filadélfia, que recentemente publicou uma análise de pesquisas de fofocas.

É mais difícil avaliar como a fofoca vai atravessar grupos divididos em facções, como empresas com divisões inteiramente independentes, disse Foster. "Nessas situações, é a pessoa que tende a uma posição intermediária, fazendo conexões entre várias facções, que controla o fluxo das fofocas e detém muito poder", disse ele.

Tais pessoas podem mascarar intenções dúbias, espalhar falsos rumores e manipular outros por anos, como sabe qualquer um que já trabalhou em uma organização por muito tempo. A fofoca saudável, porém, também vai expor os trapaceiros e traidores. Qualquer fofoca particularmente maldosa tem um autor ou autores, e as redes de fofoca têm memória.

Em um estudo de 2004, psicólogos pediram que universitários em Ohio preenchessem formulários, perguntando sobre a melhor fofoca que tinham ouvido na última semana, no último mês e no último ano. Os estudantes então explicaram por escrito o que tinham aprendido ouvindo as histórias. Eles citaram lições de vida:

"Algumas vezes, as pessoas realmente criam profecias que se cumprem"; "pessoas alegres não são necessariamente felizes" e "só porque alguém diz que tem fotos ou alguma coisa não quer dizer que têm."

Nada disso foi aprendido em sala de aula. Os homens parecem tão dedicados ao mexerico quanto as mulheres Deborah Weinberg

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