UOL Notícias Internacional
 

17/08/2005

60 anos depois, Hong Kong esquece das atrocidades japonesas

The New York Times
Keith Bradsher
Em Hong Kong
Do domo gracioso do prédio do Conselho Legislativo até o espalhafatoso distrito de entretenimento de Wan Chai, passando pelo centro comercial de pequenas lojas em Stanley, Hong Kong parece uma cidade pacífica e próspera quanto qualquer outra na Ásia.

Mas 60 anos atrás, esta cidade sofreu algumas das piores devastações da Segunda Guerra Mundial. O prédio do Conselho Legislativo foi um centro de tortura dirigido pela polícia secreta japonesa. Bordéis dirigidos pelos militares foram criados em Wan Chai após numerosos estupros de civis locais por soldados japoneses. E Stanley tinha um campo de internamento para civis aliados, com aqueles que violavam as regras correndo risco de execução em uma praia próxima.

O que é notável é que apesar de todos os horrores do tempo de guerra -que reduziu a população da cidade de 1,6 milhão para 600 mil devido a fome, assassinatos e fuga para comunidades melhor alimentadas -a guerra é pouco lembrada aqui. O 60º aniversário do anúncio da rendição japonesa, na segunda-feira, foi observado apenas por algumas poucas reuniões: uma palestra de um veterano de guerra em um museu local; um protesto no domingo contra os crimes de guerra do Japão, que atraiu 400 pessoas segundo as contas dos organizadores e apenas 200 segundo a polícia.

Uma modesta cerimônia de colocação de uma coroa de flores no domingo, da qual participou o vice líder de Hong Kong, o secretário-chefe Rafael Hui, foi cuidadosamente coreografada para excluir qualquer menção específica ao Japão, apesar das homenagens aos prisioneiros de guerra sobreviventes e da lembrança dos mortos.

"Nós tentamos não usar o nome do Japão em lugar nenhum, ou de quem Hong Kong foi libertada, apesar de ser bem óbvio", disse Ronald Taylor, que organizou o evento para a Associação dos Prisioneiros de Guerra daqui e explicou que qualquer menção ao Japão seria "controversa demais".

Por outro lado, milhões na China e na Coréia do Sul assinaram petições na Internet ou participaram de manifestações de rua neste ano, para condenar a relutância do Japão em ensinar às suas crianças sobre as atrocidades que cometeu durante a guerra, ajudando a tornar a questão uma das mais contenciosas na Ásia. Muitos japoneses, por sua vez, têm defendido o histórico de guerra de seu país.

Mesmo enquanto o primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, emitia um pedido de desculpas histórico na segunda-feira, pelo que chamou de "tremendo dano e dor" causados por seu país, membros do Gabinete e dezenas de legisladores rezaram no Templo Yasukuni em homenagem aos criminosos de guerra japoneses, entre outros mortos. No mesmo dia, autoridades da Coréia do Sul e do Norte emitiram uma declaração conjunta pedindo ao governo japonês para que "pare de distorcer a história" e "pare de reverenciar criminosos de guerra".

Mas aqui em Hong Kong, os moradores têm exibido uma disposição surpreendente de deixar a guerra para trás. "Sessenta anos é um momento para lembrar, mas as pessoas prestam mais atenção no desenvolvimento econômico" atualmente, disse Ho Pui-yin, um historiador da Universidade Chinesa de Hong Kong.

Ho e outros historiadores citam vários fatores que contribuíram para a disposição da cidade em seguir em frente. A grande maioria dos 6,8 milhões de habitantes de Hong Kong não é descendente de sobreviventes da guerra, mas sim parte de famílias que deixaram a China continental posteriormente, fugindo da ascensão do comunismo.

Descobertas periódicas de armas químicas, depósitos de munição e outros materiais potencialmente perigosos do tempo da guerra na China, abandonados pelas forças japonesas, ajudaram a lembrar a população chinesa sobre a guerra. Mas ocorreram poucas destas descobertas aqui nos últimos anos, e a pesquisa histórica tem decaído, à medida que restam poucos combatentes a serem entrevistados.

A história da cidade durante a Segunda Guerra Mundial "é algo que já foi amplamente estudado, e há pouco mais a acrescentar", disse Jason Wordie, um historiador local, acrescentando que a ampla divulgação de documentos militares ainda lacrados no Japão é uma perspectiva improvável, dado o ambiente político tenso.

Hong Kong, como as Filipinas, também foi bem-sucedida em atrair investimento japonês. Apesar dos combates pesados e massacres em Manila terem resultado na morte de até 100 mil civis perto do final da Segunda Guerra Mundial, a presidente Gloria Macapagal Arroyo também não mencionou a guerra durante um discurso na segunda-feira.

Mas talvez o maior motivo para o quase silêncio aqui sobre a guerra está na forma como os britânicos excluíram a maioria da população chinesa da defesa do território em 1941, quando o exército japonês se reuniu perto dali, em uma área já conquistada da China. Muito poucos soldados veteranos de guerra em Hong Kong são chineses.

Como documentado em um recente livro, "The Fall of Hong Kong" (a queda de Hong Kong) de Philip Snow, a maioria dos chineses do território estava disposta a ajudar a enfrentar os japoneses, especialmente após ouvir as histórias de horror sobre os estupros em Nanjing, quatro anos antes. Mas os britânicos não estavam dispostos a armar a população local, lembrando de agitação anterior contra o governo colonial, especialmente durante os anos 20.

As defesas britânicas caíram rapidamente diante do ataque japonês, que começou horas depois do ataque a Pearl Harbor. Aniversário do fim da guerra é lembrado com reservas para não melindrar parceiro comercial George El Khouri Andolfato

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