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17/08/2005

A história em quadrinho escapa dos limites do papel

The New York Times
Sarah Boxer
The New York Times
Há poucos anos, Scott McCloud, conhecido no mundo das histórias em quadrinho por seu livro teórico de "HQ about HQ; Understanding Comics" (Quadrinhos sobre Quadrinhos; Compreendendo as HQ), escreveu outra história em quadrinho, "Reinventing Comics" (Reinventando HQ), no qual argumenta que o futuro dessa arte está na Web.

"A história em quadrinho é uma idéia poderosa, mas foi desgastada, ignorada e mal compreendida por gerações", escreveu McCloud. "Nenhuma forma de arte viveu dentro de limites tão pequenos como a HQ nos últimos 100 anos. É hora da HQ crescer e encontrar a arte subjacente. É hora de equilibrar a balança, ver o mundo e ampliar os horizontes", acrescentou. É hora da HQ se digitalizar.

A revolução digital, argumenta, aproximaria a HQ de suas raízes: as pinturas nas cavernas. Sim, pinturas nas cavernas. "Os ancestrais da HQ desenhavam, pintavam e esculpiam seus caminhos do início ao fim, sem interrupção", escreveu McCloud. Com a ajuda da tecnologia digital, sugeriu, os cômicos podem sair das páginas limitadas e voltar ao que ele chamou de "tela infinita".

Pouco depois de "Reinventing Comics" ser publicado em 2000, Gary Groth, que fundou a editora de HQ Fantagraphics, criticou McCloud nas páginas de sua revista, The Comics Journal. Ali Groth sugeriu que o otimismo de McCloud com a HQ na Web escondia um desprezo pelo formato original: "Está claro que McCloud odeia essas 'caixas minúsculas', ao menos se estiverem confinadas a uma página finita." Groth argumentou que McCloud queria algo mais parecido com filme ou animação.

Bem, McCloud conseguiu. A HQ entrou na era digital. Mas ele não conseguiu tudo.

Há muitos sites onde você pode encontrar HQ on-line, antigos e novos. Algumas das histórias também estão disponíveis em papel, mas por causa da Web, muitos artistas podem agora mostrar seu trabalho e encontrar seu público.

E há concursos também. O quinto concurso anual Web Cartoonists Choice Awards foi realizado no mês passado em www.ccawards.com/2005ceremony. O mestre de cerimônia online foi um personagem da Web, assim como todos os apresentadores. Fora isso, parecia a cerimônia do Oscar. Tinha categorias demais (26), intervalos comerciais e todos os vencedores receberam o equivalente da Web para a fama de Hollywood: um link ao vivo para seus sites.

Quanto ao conteúdo das histórias da Web, porém, Groth estava certo. As HQs que usam a tecnologia digital para romper seus limites parecem mais cartuns animados. E as que não fazem isso são iguais às antigas, pré-digitais, sem o charme da página impressa e com algumas dores de cabeça a mais para o leitor e para o criador.

"Copper", por exemplo, é uma HQ animal belamente desenhada que venceu o prêmio de melhor arte no Web Cartoonists Choice Awards. Para ver a página inteira composta por Kazu Kibuishi, você tem que subir e descer o botão de rolagem. É quase a mesma situação com "Digger", uma HQ graficamente poderosa, cujo personagem principal é um marsupial australiano, de Ursula Vernon. A coisa toda se encaixa em uma janela inteira, mas a tela horizontal certamente não é o melhor formato para ela.

Há outro problema: a leitura. O prêmio para melhor texto foi para "Narbonics", de Shaenon Garrity, que acompanha "a rotina do Narbonics Labs, onde Artie, um roedor superinteligente, de alguma forma reverteu à forma humana". O problema da Narbonics é que as palavras quase que expulsam os desenhos e é muito mais cansativo para os olhos ler na tela do que na revista. E mais, você não pode ler histórias antigas sem se inscrever em algo chamado "Modern Tales" (histórias modernas).

Isso levanta outro problema da HQ na Web: como fazer dinheiro. Alguns artistas resolveram a questão entrando em uma espécie de sindicato on-line pelo qual o leitor tem que assinar ao serviço para ver as histórias. Outros resolveram pedir a cada leitor que fizesse o que McCloud chamou de "micropagamento", digamos de US$ 0,25 (cerca de R$ 0,60) por edição. Outros ainda simplesmente não fazem dinheiro algum. Estão sempre implorando por verbas pelo PayPal.

Alguns artistas, porém encontraram formas criativas de usar a Web. "Alpha Shade", de Christopher Brudlos e Joseph Brudlos, vencedora do prêmio de história longa, tem 107 páginas. É uma HQ com visual retrô, com uma ótima ferramenta para virar as páginas, um botão de zoom e um instrumento de navegação simples. O problema é que ainda é difícil ter a sensação da página, muito menos de toda a história.

Onde está a grande tela infinita de que falava McCloud?

O vencedor da categoria "tela infinita" foi para "Pup", de Drew Weing. A parte que eu vi mostrava Pup espetando um peixe até ele fazer "Squik". Bem desenhado e engraçado. Mas infinito? Não exatamente. Somente três quadros estavam disponíveis. Para ver mais, você tinha que se associar ao Serializer.net.

"The Perry Bible Fellowship", de Nicholas Gurewitch, vencedor do prêmio "história cômica", começa com o infinito. Abre com um retrato colorido de um arco-íris, sol, macaco, urso, pássaro e dinossauro. Se você clica em qualquer uma dessas criaturas e ela abre os olhos, você pode ler uma outra história separada sobre ela. Bem legal.

As melhores HQ para a Web, em geral, caem em duas categorias: A primeira inclui as pequenas e doces, como "Count Your Sheep". Essa história, sobre uma menina e o carneiro que ela conta toda noite para dormir, se encaixa bem na tela do computador. Não tem grandes mistérios. No final de cada tirinha, o artista, Adrian Ramos, diz o que acha dela (um bom toque da Web) e termina com a mesma frase: "Agora vai para a cama, adis!"

Depois tem as histórias que realmente tentam usar a tecnologia digital. O prêmio na categoria "uso extraordinário de flash" foi dividido. Um prêmio foi para "Alpha Shade" (aquele com a ferramenta ótima de virar a página). Outro foi para "The Discovery of Spoons", de Alexander Danner e John Barber. Esse conto, sobre um homem que embrulha colheres com pequenos poemas e as joga na água, é contado em páginas que se dissolvem nas seguintes, quando você clica nelas. É um grande uso da Web. Mas é quase animação.

"Quanto maior o uso da tecnologia, mais perto chegamos do filme", escreve Groth da grande visão de McCloud. E ele estava certo. Se a HQ quer explorar a Web sem se perder, parece que estará andando por um caminho muito estreito. É desenhada, é escrita, mas será história em quadrinho o que se produz na Internet? Deborah Weinberg

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