UOL Notícias Internacional
 

18/08/2005

Família israelense resiste até o fim à retirada de Gaza

The New York Times
Greg Myre
em Morag, na Faixa de Gaza
Um sério capitão do exército israelense tentou, sem sucesso, persuadir Yuval Unterman a abandonar a sua casa de estuque marrom. Depois, foi a vez de um major de fala mansa tentar, seguido de um coronel lisonjeador.
Depois de três horas de cansativas negociações, um general enfático colocou o braço sobre o ombro de Unterman e explicou que aquela era a sua última chance de dizer adeus à sua casa de dois andares em Morag, um dos assentamentos mais religiosos e ideologizados da Faixa de Gaza.

Momentos depois, Michal, a mulher de Unterman, aos prantos, e os seus seis filhos foram escoltados para fora de casa, e finalmente cinco policiais empurraram o forte e barbudo Unterman, 30, para fora, pela porta da frente, enquanto este gritava: "Morag! Morag!". Ele foi levado até o seu Subaru station wagon cinza, onde o resto da família o aguardava.

"Estou aqui há dez anos, e nem os terroristas nem os foguetes me expulsaram. Mas agora vocês estão me colocando para fora", disse Unterman aos soldados.

As meticulosas conversações com Unterman, um líder comunitário em Morag, são um exemplo da abordagem dosada utilizada pelas forças de segurança de Israel enquanto persuadiam - e freqüentemente arrastavam - centenas de colonos e os manifestantes que os apóiam a deixar os assentamentos na quarta-feira (17/08), o primeiro dia da evacuação forçada na Faixa de Gaza. Primeiro conversar com os colonos como cidadãos camaradas. Deixar que desabafem. Demonstrar simpatia e oferecer assistência. E, a seguir, removê-los caso eles não saiam por conta própria.

Segundo as forças armadas, cerca de metade dos quase 9.000 colonos deixou os assentamentos nas últimas semanas, incluindo na segunda e na terça-feira, os dois dias de tolerância. Mas os Unterman estavam entre aqueles que protestaram até o fim. Primeiro, Michal Unterman, 29, confrontou os soldados na entrada da frente da sua casa, enquanto segurava o filho de dois meses, Maoz, cujo nome significa fortaleza.
"Vocês sofreram uma lavagem cerebral", disse ela aos soldados. "Olhem nos meus olhos e lembrem-se pelo resto de suas vidas que vocês me colocaram para fora da minha casa", acrescentou. A seguir, ela entregou o bebê a um dos soldados. O bebê começou a chorar, e Michal Unterman também.

Finalmente, os soldados entraram na pequena sala de estar, decorada com imagens religiosas judaicas, e os soldados e os Unterman passaram quase uma hora falando sobre os seus passados.
"Queremos cumprir esta missão da maneira mais respeitável", disse um dos soldados.

"Não há forma respeitosa de expulsar judeus de suas casas", retrucou Unterman.

A sua mulher pegou uma câmara e tirou fotos dos soldados. "Os nossos filhos verão essas fotos suas todos os dias", disse ela. A seguir, as crianças também protestaram. "Vocês podem se recusar a cumprir essas ordens", disse um dos garotos aos soldados. "Vários soldados estão fazendo isso. Se vocês morassem aqui, também não iriam querer partir".
As forças de segurança estavam preparadas para passarem um longo dia em Morag, onde moram 40 famílias, ou cerca de 200 pessoas, todas elas contrárias à decisão do primeiro-ministro Ariel Sharon pela retirada da Faixa de Gaza. Os moradores disseram que 20 famílias deixaram o assentamento na terça-feira.

Vários manifestantes que vieram de fora da Faixa de Gaza se instalaram aqui nas últimas semanas, e os seus focos de resistência incluem a sinagoga e o espaço nos sótãos das casas de dois andares dos colonos, de onde protestaram contra os soldados durante todo o dia. "Vocês deveriam nos proteger, e não nos expulsar", gritavam eles.

"Este é um dia muito difícil para os soldados. Dá para ver isso nas suas faces", disse o coronel Haim Moriya, um dos comandantes. "Houve muito choro, mas nenhum episódio de violência".

Os militares removeram cerca de 200 manifestantes e moradores, vários deles refugiados na sinagoga, que fica atrás da casa dos Unterman. Mas embora os soldados tivessem retornado à casa da família várias vezes, não foram capazes de persuadir os Unterman a partir. Nada dentro da casa fora embalado, e as bicicletas das crianças estavam espalhadas pelo jardim.

"Eu votei em Sharon, e ele nos traiu", disse Unterman. "Gostaria de ter votado em Mitzna", acrescentou ele em uma observação sarcástica, referindo-se a Amram Mitzna, o candidato pacifista do Partido Trabalhista, que propôs uma retirada unilateral da Faixa de Gaza na campanha eleitoral de 2003. Mitzna foi esmagado pelo direitista Partido Likud, de Sharon.

Por ironia do destino, Mitzna estava em frente à casa dos Unterman três horas depois, quando a família foi expulsa pela polícia.
"Este não é um dia de felicidade, ainda que essa seja uma política que defendi", afirmou Mitzna. "Vim aqui para ser uma testemunha, e espero que este seja o primeiro passo de uma estratégia mais ampla para que nos separemos dos palestinos". Descoupação envolve lágrimas, revolta e resignação Danilo Fonseca

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