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19/08/2005

O que eles fizeram na votação do outono passado

The New York Times
Paul Krugman

Em Nova York
NYT Image

Paul Krugman é colunista
Ao concorrer para o Senado dos Estados Unidos, Katherine Harris, a ex-secretária de Estado da Flórida, trouxe de volta algumas lembranças ruins. E isto é bom, porque tais lembranças continuam relevantes. Ocorreram pelo menos tantas condutas ilegais eleitorais em 2004 quanto em 2000, apesar delas não terem mudado o resultado. E na próxima eleição poderá ser pior.

Em seu recente livro "Steal This Vote" (Roube Este Voto) --um trabalho muito judicioso, apesar de seu título-- Andrew Gumbel, um correspondente americano para o jornal britânico "The Independent", fornece a melhor visão que vi da eleição de 2000 na Flórida. E ele documenta a simples verdade: "Al Gore venceu a eleição presidencial de 2000".

Dois diferentes consórcios de notícias revisaram os votos da Flórida; ambos revelaram que uma recontagem manual plena teria dado a eleição para Gore. Isto ocorreu apesar da série de esforços por parte das autoridades estaduais e locais para suprimir prováveis votos de Gore, mais notadamente a "exclusão de réus", que impediu um grande número de eleitores aptos.

Mas poucos americanos tomaram conhecimento destes fatos. Talvez os jornalistas tenham sentido que causaria divisão lançar dúvida sobre a legitimidade do governo Bush. Se este foi o caso, a preocupação sensível deles pelos sentimentos da nação de nada valeu: os defensores de Cindy Sheehan estão acampados em Crawford, e os Estados Unidos estão mais amargamente divididos do que nunca.

Enquanto isso, o acobertamento do que aconteceu na Flórida em 2000 mostrou que a manipulação das eleições não resulta em pena, e os agentes políticos têm agido de acordo. Por exemplo, em 2002, o Partido Republicano no Estado de New Hampshire contratou uma empresa para deixar inoperantes os telefones democratas e dos sindicatos no dia da eleição.

E quanto a 2004?

Gumbel joga água fria naqueles que consideram a discrepância entre as pesquisas de boca-de-urna e o resultado final como evidência de uma eleição roubada. (Eu lhe disse que é um livro judicioso.) Ele também parece, em uma primeira leitura, minimizar o que aconteceu em Ohio. Mas o tema de seu livro é que os Estados Unidos têm uma longa história bipartidária de eleições sujas.

Ele me disse que não colocou de lado os problemas sérios de Ohio, mas que "é assim que a democracia americana geralmente se parece, especialmente em uma eleição presidencial em um Estado-chave, que é controlado basicamente por um partido".

E como a democracia americana se parece? Há dois relatórios democratas sobre Ohio em 2004, um encomendado pelo deputado John Conyers Jr. e outro pelo Comitê Nacional Democrata.

O relatório do Comitê Nacional Democrata é muito cauteloso: "O propósito desta investigação", ele declara, "não foi contestar ou questionar os resultados da eleição de forma alguma". Ele disse que não há evidência de que os votos para John Kerry foram mudados --mas sugere que muitos votos potenciais de Kerry foram suprimidos. Apesar do relatório de Conyers ser menos cauteloso, ele pára antes de alegar que o candidato errado recebeu os votos eleitorais de Ohio.

Mas ambos os relatórios mostram que os votos foram suprimidos por longas filas nos locais de votação --filas causadas por números inadequados de máquinas de votação-- e que tais filas ocorreram desproporcionalmente em áreas de provável voto democrata. Ambos os relatórios também apontam para problemas envolvendo eleitores que foram indevidamente forçados a dar votos provisórios, muitos dos quais foram descartados.

O relatório Conyers vai mais longe, acentuando o partidarismo ruidoso das autoridades eleitorais. Em particular, o comportamento do secretário de Estado de Ohio, Kenneth Blackwell --que supervisionou a eleição enquanto servia como co-presidente da campanha Bush-Cheney em Ohio-- fez com que as ações de Harris em 2000 parecessem leves em comparação.

E há as histórias da noite da eleição. Warren County trancou seu prédio da administração e impediu a presença de observadores públicos na contagem de votos, citando um alerta do FBI de ameaça terrorista. Mas o FBI negou posteriormente a emissão de tal alerta. Miami County informou que o comparecimento de eleitores foi de improváveis 98,55% dos eleitores registrados. E assim por diante.

Nós não vamos reviver novamente as últimas três eleições. Mas e quanto ao futuro?

Nossos atuais líderes políticos sofrerão enormemente se qualquer casa do Congresso mudar de mãos em 2006, ou se a presidência mudar de mãos em 2008. As tampas seriam retiradas de todos os escândalos ferventes, desde a venda da guerra no Iraque até os lucros obtidos por empresas com ligações políticas.

Os republicanos ficarão fortemente tentados a garantir a vitória nestas eleições por quaisquer meios necessários. E tudo o que já vimos diz que eles cederão a tal tentação. "Al Gore venceu a eleição presidencial de 2000", conclui jornalista George El Khouri Andolfato

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