UOL Notícias Internacional
 

19/08/2005

Resistência diminui ritmo da desocupação da Faixa de Gaza, mas não consegue detê-la

The New York Times
Steven Erlanger e Greg Myre*

Em Kfar Darom, Faixa de Gaza
O exército e a polícia de Israel intervieram nesta quinta-feira (18/08) na Faixa de Gaza com o objetivo de desmantelar os focos de resistência à evacuação da área pelos colonos. As forças de segurança assumiram o controle de duas sinagogas onde centenas de manifestantes entre os mais fervorosos e agressivos estavam entrincheirados, após terem construído barricadas.

Rina Castelnuovo/The New York Times 
Coluna de militares israelenses invade sinagoga onde colonos judeus resistiam à ordem de abandonar a região
Esta colônia, uma das mais antigas na Faixa de Gaza e uma das mais engajadas politicamente, foi palco de cenas de violência e de revolta que o governo israelense vinha tentando evitar. A invasão da única sinagoga desta colônia foi coberta ao vivo pela televisão de Israel.

Cerca de 160 jovens manifestantes, que haviam se preparado para enfrentar a invasão contando com as orientações do coronel da reserva, Moshe Leshem, mantiveram os policiais desarmados em apuros por duas horas e meia, impedindo-os de penetrar na sinagoga. Pata tomar o controle do edifício, a polícia recorreu a um canhão de água, a extintores de incêndio, gruas, interruptores de energia e à intervenção de uma equipe das forças especiais.

Os manifestantes, que eram na sua maioria oriundos de regiões outras que a de Gaza, não se cansaram de insultar os soldados e os policiais ao longo do dia, arremessaram tinta e ovos contra eles e prosseguiram sua preparação para enfrentar o sítio, sabendo que este iria ocorrer a qualquer momento.

Eles trancaram e interditaram as portas da frente com correntes, espalharam petróleo e gordura pelos assoalhos e as escadas de modo a retardar o avanço das forças de segurança e armaram uma cerca com navalhas sobre o teto, onde eles se equiparam até mesmo com um banheiro portátil.

Eles dispunham de placas de metal para se proteger dos jatos arremessados pelos canhões de água, e de estacas compridas de madeira dotadas de forcas em forma de V nas extremidades para poder empurrar as escadas utilizadas pelas forças especiais de intervenção da polícia.

Eles ainda estavam armados com baldes repletos de petróleo e de um líquido cáustico, o qual, segundo informou a polícia, incluía um fluido utilizado na limpeza de armas, os quais eles pretendiam arremessar sobre os policiais, assim como grandes latas de spray que continham uma espuma isolante, com as quais eles pretendiam ofuscar a sua visão.

Os membros das forças especiais da polícia, trajando macacões de trabalho pretos, estavam equipados com capacetes dotados de viseiras e com escudos anti-motim, mas eles não levavam nenhuma arma, nem mesmo cassetetes.

Penetrar no térreo da sinagoga e remover as dezenas de manifestantes que lá se encontravam foi relativamente fácil. Mas a verdadeira dificuldade foi conseguir tomar conta do teto. A polícia lutou durante horas até que os seus integrantes consigam dominar o teto, tentando manobrar dois amplos contêineres de metal repletos de policias, erguidos por meio de cabos por duas gruas gigantescas, e que penaram muito até alcançar a posição certa.

Os contêineres, que haviam sido adaptados com portas de arame, eram alvos fáceis para os jatos de tinta e de outros líquidos, e os homens que se encontravam dentro deles tiveram a sua aparência rapidamente mudada, vendo seus macacões pretos no estilo ninja enlameados por um branco fantasmagórico. Os contêineres foram erguidos e trazidos de volta três vezes até conseguirem pousar sobre o teto na quarta tentativa.

Um outro contingente das forças da polícia foi repetidamente rechaçado ao tentar subir pelas escadas a partir do balcão do primeiro andar até o teto. Os manifestantes derramavam petróleo e um líquido ácido azul sobre eles e os alvejavam com lixo, ovos, tinta e espumar de barbear.

Praticamente todos os manifestantes eram oriundos de outras cidades de Israel e de colônias da Cisjordânia. Muitos se encontravam na região para visitar amigos e parentes e as suas autorizações de visitantes tinham seu prazo esgotado, enquanto outros haviam conseguido passar pelas barragens nas estradas escondidos em porta-malas de carros, dentro de caminhões ou caminhando por atalhos.

Quatro horas depois da primeira investida da polícia para controlar a sinagoga, às 21h, os policiais ainda estavam carregando manifestantes para fora do recinto e amontoando-os dentro de ônibus para serem levados para a prisão. Segundo informaram oficiais israelenses, 44 membros das forças de polícia e soldados foram feridos, quase todos sem maior gravidade.

"O que nós vimos aqui foi muito além dos limites e de tudo o que nós havíamos imaginado", disse o general em chefe Dan Harel, o principal comandante das forças israelenses em Gaza. "Todos aqueles que se encontravam agora sobre o teto serão presos e encarcerados".

Outras estratégias mais suaves deram certo na maior colônia de Gaza, Neve Dekalim, onde cerca de seiscentos manifestantes foram atraídos para fora da sinagoga após três dias de negociações.

Soldadas foram enviadas especialmente para lidar com as mulheres que estavam amarradas aos bancos da igreja, e conseguiram finalmente carregar algumas delas para fora do recinto; os homens também havia prendido seus braços com cadeados, o que dificultou bastante a sua remoção. Mas não houve nenhuma violência, e, ao anoitecer, a evacuação de Neve Dekalim estava praticamente concluída.

De um ponto de vista mais geral, apenas sete das 21 colônias de Gaza não eram consideradas oficialmente como evacuadas, conforme explicou um porta-voz do exército. Além disso, em três delas, no norte, os residentes haviam se retirado voluntariamente.

As principais dificuldades que as forças de segurança ainda tinham pela frente eram com as colônias de Netzarim, Atzmona, Katif e Gadid, acrescentou o porta-voz. Contudo, a operação será suspensa na noite desta sexta-feira (19) para o Sabá judaico. O porta-voz explicou que o exército não iniciaria nenhuma evacuação que não poderia ser concluída em tempo hábil.

Israel se deu um prazo de um mês para concluir o processo de evacuação de cerca de nove mil residentes de Gaza e de quatro pequenos assentamentos no norte da Cisjordânia. Mas, com o aumento das tensões políticas, que incluiu a demissão, no início da semana passada, de um membro importante do governo, Benjamin Netanyahu, o principal rival do primeiro-ministro Ariel Sharon no Likud [partido conservador de Israel], o ritmo das operações foi acelerado.

O assassinato de quatro palestinos na Cisjordânia, nesta quarta-feira (17), por um colono judeu, também contribuiu para o recrudescimento da tensão, sobretudo quando o homem que foi preso após a matança, Asher Weisgan, disse não ter nenhum remorso em relação ao ato que ele havia cometido. "Não sinto qualquer pena do que eu fiz", disse. Na quinta-feira, pouco antes de entrar num tribunal perto de Tel Aviv, ele acrescentou: "Eu espero que alguém também mate Sharon".

Depois das altercações de quinta-feira entre os colonos recalcitrantes e os oficiais de segurança, tudo indica que Gaza poderia estar esvaziada de toda a sua população civil israelense até o início da próxima semana. No entanto, os militares afirmam que eles precisarão de outras três semanas para retirar seus homens e seus equipamentos e para demolir as casas dos colonos.

Os palestinos só poderão tomar o controle da área um mês depois da evacuação dos civis, explicou o ministro da Defesa, Shaul Mofaz.

*Colaborou Dina Kraft. Israelenses atacam soldados do próprio país nos assentamentos Jean-Yves de Neufville

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