UOL Notícias Internacional
 

20/08/2005

Retirada de Gaza é mais rápida do que o previsto

The New York Times
Greg Myre

Na Cidade de Gaza
Soldados e policiais israelenses tiveram que passar por bloqueios em chamas na evacuação de parte do assentamento de Gadid, nesta sexta-feira (19/08). Depois de três dias de campanha de evacuação forçada, restam apenas cinco dos 21 assentamentos originais de Gaza. A operação correu muito mais rapidamente e com menos confusão do que se previa.

A poucos quilômetros de distância, no aeroporto interditado palestino no sul de Gaza, o líder palestino Mahmoud Abbas disse que a retirada israelense "era resultado de sacrifícios, paciência e sabedoria do nosso povo".

"O passo mais importante depois da retirada será como proteger, reconstruir", disse Abbas em seu primeiro discurso desde o início da retirada israelense, nesta semana. Israel interditou o aeroporto palestino depois do início do levante palestino há cinco anos. Os palestinos dizem que tem ser reaberto para permitir maior liberdade de movimento.

As forças israelenses evacuaram cerca de 300 pessoas, a maior parte manifestantes, mas também algumas poucas famílias, na tarde de sexta-feira.

Os soldados foram recebidos com fogueiras de destroços, inclusive duas caminhonetes em chamas, ao longo da entrada do assentamento. Os moradores e manifestantes, porém, estavam dentro das casas, o que dava ao assentamento uma sensação de cidade fantasma, mesmo antes de ser evacuado.

Alguns jovens manifestantes subiram nos telhados e gritaram enquanto as forças de segurança se aproximavam. "Isso é um pogrom, e vocês são cossacos", gritaram duas meninas, vermelhas de sol e raiva.

Os manifestantes tiveram que ser convencidos ou retirados à força dos telhados, onde alguns tinham jogado óleo para impedir o avanço dos soldados. Em um episódio, sete manifestantes fugiram de um ônibus lotado que estava sendo retirado de Gaza. Pouco tempo depois, foram encontrados escondidos em estufas, segundo os militares.

Dos quase 9.000 colonos em Gaza, talvez restem algumas centenas a evacuar, de acordo com o exército. Os militares já começaram a demolir algumas das casas e desmontaram bases em Gaza.

Não houve nenhum disparo. No confronto mais sério, mais de 100 manifestantes radicais fizeram uma barricada no telhado da sinagoga em Kfar Darom e combateram as forças de segurança por várias horas na quinta-feira. Mas este episódio foi uma exceção.

"Demos às pessoas a chance de saírem por si próprias antes de chegarmos. Conversamos longamente com as pessoas e deixamos claro que não íamos humilhá-las", disse o general Yisrael Zev, que estava monitorando a retirada de Gadid, na sexta-feira.

A violência entre colonos e as forças de segurança era uma possibilidade verdadeira, se a retirada fosse mal conduzida, disse o general. Ele citou dois atentados recentes por atiradores israelenses que atacaram árabes, inclusive um na quarta-feira, que matou quatro palestinos na Cisjordânia.

Em Gaza, as forças de segurança interromperam os trabalhos para o sabá, do pôr-do-sol na sexta-feira até o pôr-do-sol no sábado. As evacuações deverão recomeçar no domingo de manhã, e alguns oficiais militares acreditam que podem estar terminadas cedo na segunda-feira, a não ser que ocorram imprevistos.

A retirada de quatro pequenas colônias na Cisjordânia deve ocorrer na semana que vem. Operações de limpeza já estão sendo feitas. Trabalhadores estão encaixotando e carregando dezenas de caminhões em Neve Dekalim, a maior colônia da região. Os pertences que os colonos se recusaram a empacotar serão enviados para depósitos em Israel, onde eles poderão recuperá-los.

As famílias evacuadas que não decidiram para onde ir estão sendo levadas para hotéis, trailers e outros abrigos temporários. Em geral, as famílias estão recebendo compensações de US$ 200.000 a US$ 300.000 (entre R$ 480.000 e R$ 720.000) para que encontrem novas casas e para outras despesas.

Israel recusou-se a estabelecer uma data para entregar as colônias à Autoridade Palestina, mas aparentemente demorará várias semanas.

Então o que aconteceu à resistência dos colonos e o trauma nacional que alguns previram em Israel?

"Previ que seria relativamente fácil, e muitas pessoas riram de mim", disse Dan Schueftan, autor de um livro publicado em 1999, chamado "Disengagement", que sugeria que Israel se separasse unilateralmente dos palestinos, como está fazendo agora em Gaza.

O primeiro-ministro Ariel Sharon disse que não há um segundo estágio de retirada unilateral e que os palestinos devem deter a violência contra Israel para que os dois lados adotem o plano de paz chamado mapa da estrada.

Entretanto, Schueftan, vice-diretor de estudos de segurança nacional da Universidade de Haifa, disse que acreditava que o vencedor das próximas eleições israelenses, seja Sharon ou outra pessoa, desenvolveria um plano de retirada de assentamentos na Cisjordânia.

"O segundo estágio é inevitável, e os colonos já perderam a próxima batalha", disse Schueftan. "Se os colonos fizerem a mesma coisa que fizeram desta vez, o país saberá como lidar com eles. Se forem mais longe e usarem armas, estarão condenados."

"Estamos basicamente voltando lentamente para a cerca", disse Schueftan, referindo-se à barreira de separação de Israel na Cisjordânia, há três anos em construção.

Shlomo Avineri, professor de ciências políticas da Universidade Hebraica em Jerusalém, disse que a retirada de Gaza tinha demonstrado "uma solidariedade básica entre israelenses, que algumas vezes é afogada pelo 'toma lá, dá cá' de nossas políticas".

Ele citou diversas razões para explicar a razoável tranqüilidade da retirada.

Primeiro que as forças de segurança eram muito mais numerosas que os colonos --cerca de 50.000 soldados e policiais estão em Gaza para a operação. E ainda assim, as forças se contiveram no trato com os moradores, disse ele.

"Em geral, você não vê a polícia e o exército agindo com tamanha sensibilidade", disse Avineri. "Os colonos tentaram criar esse drama catastrófico, dando a impressão de grande trauma", disse ele. Mas o governo e as forças de segurança estavam preparados para possíveis problemas, e "a facilidade técnica relativa dessa operação certamente possibilitará outros desdobramentos" do mesmo tipo. A saída dos colonos judeus não chega a provocar o trauma temido Deborah Weinberg

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