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23/08/2005

Polícia londrina é acuada pela morte de brasileiro

The New York Times
Alan Cowell

Em Londres
Apesar do apoio político de alto escalão, o chefe da polícia de Londres, Ian Blair, enfrentou forte pressão nesta segunda-feira (22/08) para apresentar uma maior explicação para o motivo de seus policiais terem matado a tiros um brasileiro de 27 anos, que aparentemente confundiram com um homem-bomba suicida, após a segunda série de ataques ocorridos aqui no mês passado.

O homem, Jean Charles de Menezes, morreu em 22 de julho, um dia depois do ataque terrorista fracassado aos trens do metrô e um ônibus. Policiais à paisana dispararam vários tiros contra a cabeça dele diante de passageiros horrorizados a bordo de um trem do metrô, na estação Stockwell, no sul de Londres.

Desde então, o relato oficial da morte e os esforços de Blair para defender seus policiais têm colidido com uma série de revelações que contradizem a afirmação inicial da polícia de que Menezes se comportou de forma suspeita. A polícia também é acusada de tentar impedir uma investigação independente.

Na segunda-feira, dois representantes do governo brasileiro chegaram em Londres para "ver como está transcorrendo a investigação", disse um deles, Márcio Pereira Pinto Garcia, do Ministério da Justiça, aos repórteres no aeroporto Heathrow. O outro representante é Wagner Gonçalves, da Procuradoria Geral da República.

Advogados da família Menezes entregaram uma carta ao gabinete do primeiro-ministro Tony Blair exigindo uma investigação pública plena da morte. Um grupo de manifestantes levantou placas em apoio à família.

Alessandro Pereira, um primo de Jean Charles, disse aos repórteres que sua família quer que o primeiro-ministro "garanta que os responsáveis pelo assassinato de Jean sejam levados à Justiça".

"Todo dia nós descobrimos mais e mais mentiras", ele acrescentou. "Nós já ouvimos demais. Nós simplesmente exigimos verdade e justiça."

Não se sabe se o primeiro-ministro estava presente para receber a carta. Por motivos de segurança, seu paradeiro --incluindo seu destino de férias-- tem sido mantido em segredo. Seu gabinete reconheceu na segunda-feira pela primeira vez que Blair esteve em férias em Barbados, mas se recusou a dizer quando ele voltará a Londres.

Em uma entrevista para a rádio BBC, a mãe de Jean, Maria de Menezes, disse que sua família quer que os policiais que mataram seu filho sejam punidos. "Eles não acabaram apenas com a vida do meu filho, mas com a minha também", disse ela.

A polícia de Londres enviou uma carta para a família Menezes oferecendo o equivalente a US$ 27 mil "como compensação" por sua morte. A oferta "não impede que tomem medidas legais contra a polícia no futuro se assim decidirem", dizia a carta. "Se uma reivindicação for impetrada no futuro, então a soma oferecida hoje será deduzida o valor de quaisquer outros pagamentos."

Alguns membros do governo consideraram a carta insensível.

Após os ataques terroristas em Londres, em 7 e 27 de julho, Ian Blair, o comandante da polícia, obteve comentários geralmente favoráveis pela forma como lidou com a crise. Nas últimas 24 horas o primeiro-ministro se juntou a outros importantes membros do governo na manifestação de apoio ao comandante da polícia, que disse que não deixará o cargo.

Mas alguns jornais começaram a questionar na segunda-feira o seu comportamento.

"Ao se agarrar ao cargo após tamanho catálogo de falhas e prioridades distorcidas, sir Ian imita os políticos cujos favores ele tem tão assiduamente requisitado", escreveu um colunista, Simon Heffer, no antigoverno "Daily Mail". Um editorial no mesmo jornal disse: "Novas dúvidas perturbadoras estão sendo apresentadas quase diariamente, e o cheio de acobertamento se torna cada vez mais forte".

Outros jornais questionaram se as gravações de circuito fechado de televisão da estação de Stockwell foram apagadas pela polícia após o incidente.

Desviando o foco

Ian Blair ganhou na segunda-feira uma espécie de apoio da irmã de uma das 52 vítimas do ataque de 7 de julho, no qual os quatro homens supostamente responsáveis também morreram. Diana Gorodi, cuja irmã, Michelle Otto, foi morta à bordo de um trem do metrô, disse que o debate em torno da morte de Menezes tem desviado a atenção das mortes de 7 de julho.

"Eu estou muito incomodada com isto", ela disse à BBC. "As 52 pessoas que morreram no atentado foram totalmente esquecidas. É claro, lamento pela família deste jovem. Eu sinto por sua revolta e pesar. Foi um erro terrível. Mas este erro foi publicamente reconhecido pela polícia. Eu acho que crucificar a polícia ou crucificar o chefe de polícia não levará a nada."

Desde os atentados a bomba de julho, as autoridades britânicas ameaçaram uma série de novas medidas duras de contraterrorismo voltadas em parte contra os clérigos muçulmanos agitadores.

O ministro do Interior, Charles Clarke, que está encarregado da manutenção da lei, disse na segunda-feira que publicará nesta semana, e depois agirá de acordo, "novas formas de lidar com os pregadores do ódio e da intolerância e extremistas que tentam explorar a abertura de nossa sociedade para oprimir outros". Ele não deu maiores detalhes.

Enquanto alguns no governo estarem propondo novas medidas para limitar os direitos civis, uma pesquisa publicada no "The Guardian", na segunda-feira, mostrou que 73% dos entrevistados estavam preparados para abrir mão de parte de sua liberdade em troca de uma maior segurança. Autoridades ofereceram US$ 27 mil para a família de Jean Charles George El Khouri Andolfato

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