UOL Notícias Internacional
 

24/08/2005

Israel conclui retirada antes do previsto e em paz

The New York Times
Steven Erlanger*

Em Sanur, Cisjordânia
Completando uma retirada carregada de emoção, e que não foi prejudicada por episódios sérios de violência, soldados e policiais israelenses finalizaram nesta terça-feira (23/08) a evacuação de 25 assentamentos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, e disseram que todas as casas dos colonos serão reduzidas a destroços dentro de dez dias.

Ruth Fremson/The New York Times 
Asaf Zoldan segura o filho enquanto militares chegam para forçá-lo a sair de sua casa, em colônia judia na Cisjordânia
Autoridades e comandantes israelenses insistiram que a evacuação de quase 10 mil israelenses de toda a Faixa de Gaza e de quatro assentamentos na Cisjordânia consiste em dar "uma mão a um irmão", e não em uma operação militar.

Mas a rápida conclusão do processo em seis dias, após previsões de que este poderia demorar mais de três semanas, pegou Israel de surpresa e pareceu uma versão mais suave da Guerra dos Seis Dias de junho de 1967, quando Israel obteve uma vitória-relâmpago sobre os seus inimigos árabes.

Foi naquela guerra que Israel conquistou Jerusalém Oriental, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, e começou a construir assentamentos por razões estratégicas, religiosas e econômicas.

Esta é a primeira vez que Israel retira os seus cidadãos de partes da terra bíblica de Israel, áreas que serão a pedra fundamental de qualquer Estado palestino independente.

Embora Israel tenha repudiado as previsões de uma guerra civil, a retirada foi dolorosa e traumática, repleta de cenas e de emoções tão abrasadoras quanto o sol de verão de Gaza.

Em Sanur, doze alunos de um ieshivá (instituto rabínico), pertencentes ao grupo Chabad, cantaram, dançaram e oraram febrilmente, balançando os corpos, golpeando mesas e pedindo ao Messias que os acudisse. Os estudantes religiosos insistiram em que os soldados e policiais orassem e bebessem vinho com eles antes que fossem levados para fora do local.

Durante quase uma hora os estudantes, que ocuparam uma velha mesquita, falaram com as forças de segurança e abraçaram e abençoaram os soldados, enquanto os comandantes negociavam com o rabino Haim Smotrich, que trouxe os seus alunos para aqui em abril, vindos de um outro assentamento, Qiryat Arba.

De repente, o rabino Smotrich disse: "Não vou sair daqui", e os estudantes se aglomeraram em um canto, obrigando a polícia e os soldados a pegá-los à força e a carregá-los para fora.

Mas foi o rabino Smotrich que ajudou a negociar a remoção relativamente pacífica dos manifestantes de linha dura que estavam em frente a Sanur, e que haviam se refugiado no telhado de uma fortaleza bem construída com pedras, feita originalmente pelos otomanos para ser um posto policial e uma prisão.

Embora os policiais temessem atos de violência por parte daqueles que estavam no telhado, e que haviam se preparado com arame farpado, óleo, pedras, tinta e lanças para repelir as forças especiais da polícia, no final a tomada do prédio acabou tendo um caráter quase simbólico.

Os manifestantes quiseram ser removidos por contêineres colocados sobre o telhado por grandes guindastes, em uma repetição daquilo que ocorreu na semana passada no mais violento incidente, a tomada da sinagoga de Kfar Darom, em Gaza.

Os episódios ocorridos naquele local, com manifestantes lançando tinta e um líquido cáustico sobre os soldados, e tentando golpeá-los com bastões, ofenderam muitos israelenses e prejudicaram a reputação do protesto contra a retirada e dos líderes dos colonos.

No final, a polícia concordou em permitir que os manifestantes saíssem da maneira dramática que desejavam, em troca da promessa de que não haveria violência.

Em uma imagem chocante, um indivíduo magro e de cabelos brancos conteve um manifestante que tentou usar a sua lança de madeira para ferir os bombeiros que levavam uma mangueira de água. O rabino tirou a lança das mãos do manifestante. Estes aguardaram um pouco, e a seguir retomaram a arma, somente para serem recebidos com um jato de água.

Em Homesh, a polícia entrou a força na casa de Asaf Zoldan, que se recusou a sair. Os policiais utilizaram uma serra e um pé-de-cabra para remover a porta externa, e depois tiveram que arrombar uma outra porta que havia atrás da primeira. Dentro, Zoldan, o seu filho Aaron, de seis anos, o pai, Nachman, e duas vizinhas adolescentes, Rachel e Malki Antman, cantavam e dançavam em círculos ao som de música alta.

Os soldados ficaram de pé, embasbacados, durante quase dez minutos, e depois disseram que sairiam e retornariam dez minutos mais tarde caso a família não deixasse a casa voluntariamente.

A seguir Zoldan mudou a música para cânticos de lamentações. Todos se sentaram à mesa de jantar orando, balançando-se e chorando. Quando os soldados retornaram, Nachman Zoldan finalmente concordou em retirar Aaron. Mas Asaf Zoldan, chorando, agarrou o filho, puxou-o para o colo e gritou: "Lembre-se, você é um herói! Aqui você é um herói! Não se esqueça de que é um herói de Homesh!".

Quando os policiais voltaram para pegá-lo, Zoldan escapou dos braços das autoridades e se escondeu debaixo da mesa, agarrando-se com todas as forças a uma perna do móvel. Os soldados finalmente conseguiram retirar o homem histérico.

Também em Homesh, um grupo de 80 mulheres jovens se refugiou em uma casa abandonada pelos moradores, e a maioria teve que ser retirada por policiais femininas. Outras 20 mulheres jovens se amarraram juntas e jogaram sacos de óleo, vinagre, ovos e dejetos humanos contra as policiais. Uma outra jovem esfaqueou uma policial e foi presa e algemada. A policial não sofreu ferimentos graves.

Embora a operação de retirada em quatro assentamentos da Cisjordânia na terça-feira tenha removido moradores judeus de uma área que é quase o dobro da Faixa de Gaza, próxima às grandes cidades palestinas de Nablus e Jenin, as tropas israelenses continuarão patrulhando a região, deixando a responsabilidade para assuntos civis e criminais nas mãos da Autoridade Palestina.

Na Faixa de Gaza as forças armadas precisarão de pelo menos mais duas semanas para desmantelarem as suas próprias instalações, disse o general Dan Haluz, e os palestinos serão autorizados a entrar mais tarde, em uma data a ser negociada. Israel pretende retirar todas as suas forças militares da Faixa de Gaza, incluindo a zona ao longo da fronteira com o Egito, até o final do ano, provavelmente no final de outubro.

Existem mais de 116 assentamentos remanescentes na Cisjordânia -- incluindo os grandes blocos de assentamentos como Gush Etzion, Ariel, próximo a Tel Aviv, e Maale Adumim, próximo a Jerusalém-- que o primeiro-ministro Ariel Sharon disse que Israel pretende manter em qualquer tratado final.

Grande parte da comunidade internacional considera os assentamentos israelenses ilegais. Os Estados Unidos os classificam como "um obstáculo para a paz" e exigiram que Israel acabe com o processo de expansão desses núcleos, uma demanda que Sharon rejeitou de forma direta.

Na verdade, a retirada relativamente fácil na semana passada pode tornar mais difícil para Sharon suportar a pressão por novas retiradas negociadas da Cisjordânia, ainda que ele insista que não haverá mais recuos unilaterais do gênero.

Na vila palestina de Deir Sharaf, próxima a Sanur, o proprietário do supermercado Musa e os seus clientes contaram como os assentamentos israelenses e soldados israelenses, encarregados de proteger os colonos, criavam constantes empecilhos à sua capacidade de viajar livremente.

Abed Hussein Musa disse que durante a maior parte dos cinco últimos anos as forças armadas mantiveram uma barreira de controle na rua em frente ao seu estabelecimento, muitas vezes deixando o tráfego congestionado. "Estamos felizes com o fato de os israelenses estarem removendo os assentamentos, mas já foi feito muito estrago", disse Musa, apontando para uma rua silenciosa e quase deserta.

Um dos seus filhos, Hussein Musa, 43, disse que teve que caminhar por quase cinco quilômetros de estradas de terra na terça-feira porque os soldados israelenses não permitiram que qualquer veículo deixasse Nablus em direção à área onde ocorreram as evacuações.

Mas ele diz que há também restrições em períodos normais. "Nunca fui preso pelos israelenses", contou ele. "Não sou membro de nenhum partido político e só quero ganhar a minha vida em paz. Mas com freqüência é impossível viajar de uma cidade palestina para outra".

Ele manifestou esperança de que a retirada israelense facilite a locomoção entre Nablus e Jenin.

*Greg Myre contribuiu em Deir Sharaf e Dina Kraft em Sanur. Desocupação relativamente simples pode ser problema para Sharon Danilo Fonseca

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