UOL Notícias Internacional
 

25/08/2005

Celulares catapultam África rural para o século 21

The New York Times
Sharon LaFraniere

Em Yanguye, África do Sul
Neste seco topo de montanha, Bekowe Skhakhane, 36 anos, realiza até mesmo as tarefas mais simples do modo difícil. Baldear água do rio leva quatro horas por dia. Para cozinhar, ela reúne gravetos e acende o fogo. A luz vem de velas. Mas quando Skhakhane quer conversar com seu marido, que trabalha em uma siderúrgica a 400 quilômetros de Johannesburgo, ela faz o mesmo que muitas pessoas em regiões mais desenvolvidas: ela usa seu telefone celular.

Jeffrey Barbee/The New York Times 
Bekowe Skhakhane mostra seu celular, em Yanguye, África do Sul; celular muda vida de quem nunca conheceu o fixo
Pessoas como Skhakhane tornaram a África o mercado de telefones celulares que mais cresce no mundo. De 1999 até 2004, o número de assinantes de telefonia móvel na África saltou de 7,5 milhões para 76,8 milhões, com um aumento anual médio de 58%. A África do Sul, o país mais rico do continente, representou um quinto de tal crescimento. A Ásia, o segundo mercado em mais rápida expansão, cresceu a uma média anual de apenas 34% no mesmo período.

"É uma necessidade", disse Skhakhane, fazendo uma pausa na lavagem de roupa, em uma bacia plástica no chão de terra, para tirar seu Nokia azul do bolso de seu avental florido. "Comprar créditos faz parte da minha lista normal da mercearia." Ela gasta o equivalente a US$ 1,90 por mês para cinco minutos de ligação telefônica.

O boom da telefonia celular na África pegou a indústria de surpresa. Os africanos nunca foram ávidos usuários de telefone; até os mongóis possuem o dobro de linhas fixas por pessoa. E com a maioria dos africanos vivendo com US$ 2 por dia ou menos, eles supostamente deveriam ser pobres demais para justificar investimentos corporativos em redes de telefonia celular distantes das cidades mais prósperas.

Mas quando os países africanos começaram a privatizar seus monopólios de telefonia em meados dos anos 90, e operadoras altamente competitivas começaram a vender créditos em unidades menores, mais baratas, o uso de celulares explodiu. Aparelhos usados são vendidos por US$ 50 ou menos na África do Sul, um valor que até mesmo o marido de Skhakhane foi capaz de financiar com o pouco que economiza de seu salário de operário.

A verdade é que os africanos nunca foram grandes usuários de telefone porque ninguém nunca lhes deu a chance.

Um entre 11 africanos agora é assinante de celular. A demanda por créditos foi tão forte na Nigéria que do final de 2002 até o início de 2003 as operadoras foram forçadas a suspender a venda de cartões SIM (módulo de identidade do assinante) que ativam os aparelhos, enquanto reforçavam suas redes. Os aldeões de duas províncias na selva do Congo estão tão ávidos pelo serviço que construíram casas de árvore a 15 metros de altura para pegar o sinal das distantes torres de celulares.

"Um homem o usa como telefone público pago", disse Gilbert Nkuli, vice-diretor administrativo das operações no Congo do Vodacom Group, uma das maiores operadoras de telefonia celular da África. Aqueles que querem subir até sua plataforma e usar seu telefone lhe pagam pelo privilégio.

Em um continente onde algumas aldeias remotas ainda se comunicam por tambores, os celulares são uma revolução tecnológica semelhante à televisão nos anos 40 nos Estados Unidos. A África possui uma média de apenas uma linha fixa para cada 33 pessoas, mas os celulares estão permitindo a milhões de pessoas saltarem uma geração tecnológica e passar diretamente da redação de cartas para mensagens instantâneas.

Apesar de apenas cerca de 60% dos africanos estarem dentro do alcance de um sinal, o nível mais baixo de penetração no mundo, a tecnologia é para muitos uma dádiva divina econômica e social.

Um programa piloto permite que cerca de 100 agricultores no nordeste da África do Sul saibam as cotações dos preços dos produtos nos principais mercados, informação crucial nas negociações com intermediários.

Trabalhadores de saúde no sudeste rural chamam ambulâncias para clínicas distantes por celular.

Uma mulher vivendo no Rio Congo, incapaz até mesmo de escrever seu sobrenome, pede aos clientes que liguem para seu celular se quiserem comprar o peixe fresco que ela vende. "Ela não tem eletricidade, ela não pode colocar o peixe no freezer", disse Nkuli da Vodacom. "Então ela os mantém no rio", amarrados vivos em um barbante, até receber uma chamada. Então ela os retira e os prepara para venda.

William Pedro, 51 anos, que vende plantas para jardins e fazendas, disse que tentou por oito anos atrair clientes até seu viveiro em uma cidade pobre perto de George, uma cidade resort na costa sul da África do Sul. Apenas quando ele conseguiu um celular dois anos atrás, ele disse, seus negócios decolaram.

"Os brancos têm medo de vir ao meu viveiro na cidade para comprar plantas", disse Pedro, que é mestiço, enquanto permanecia do lado de fora de suas estufas improvisadas. "Agora eles podem fazer encomendas por telefone e posso entregá-las no mesmo dia."

Hamadoun Touré, diretor de desenvolvimento da União Internacional de Telecomunicação, disse que as bênçãos econômicas dos celulares foram ampliadas no mundo em desenvolvimento.

"Qual é a alternativa?" perguntou Touré, cuja agência foi fundada nos dias do telégrafo e agora faz parte da ONU. "Alguém teria que deixar o trabalho, viajar por dias, gastar muito mais dinheiro" apenas para transmitir uma mensagem.

Inicialmente, ele disse, as operadoras de celular basearam suas previsões para o uso de celulares no usuário típico de linhas fixas, alguém com conta bancária, emprego e endereço fixo. "A mulher que vende verduras na feira, com um bebê no colo e uma sombrinha, não se enquadrava no perfil do assinante normal", disse Touré. "Mas tais pessoas os usam."

As operadoras de telefonia móvel não conseguem erguer torres rápido o bastante, nem em mercados estabelecidos como a África do Sul, que já conta com cerca de um entre quatro assinantes africanos de telefonia celular, e nem em países que mal possuem eletricidade, muito menos redes de telefonia celular já existentes e prontas para expansão.

Há cinco anos, por exemplo, a África Sub-Saariana (excluindo a África do Sul) era responsável por um em cada cinco assinantes de telefonia móvel no continente. Tal proporção agora dobrou.

Os executivos do MTN Group, outra grande operadora de telefonia celular, disse que a rede nigeriana da empresa custa duas vezes e meia mais que sua rede sul-africana por falta de infra-estrutura. Mas a demanda é tanta que o MTN está adicionando centenas de novas estações base.

O Congo estava no meio de uma guerra civil quando Alieu Conteh, um empreendedor de telecomunicações, começou a construir uma rede de telefonia celular ali nos anos 90. Nenhum fabricante estrangeiro enviaria uma torre de celular para o aeroporto com rebeldes nas proximidades, de forma que Conteh teve que contratar pessoal local para coletar sucata e montar uma torre.

Agora a Vodacom, que formou um joint venture com ele em 2001, está lidando com outros problemas. Seus caminhões ficam atolados na lama. Um guindaste está fora de questão; são necessários 15 ou 20 homens para colocar no alto cada antena parabólica com cordas. Estações base são alimentadas por geradores. Toda manhã, executivos enviam mensagens instantâneas para os funcionários contendo a mais recente cotação da moeda local em desvalorização.

Apesar de tudo, a Vodacom Congo conta com 1,1 milhão de assinantes e está adicionando mais de 1.000 diariamente.

Não há planos para ampliação do serviço de linha fixa para as montanhas escarpadas onde Skhakhane vive, disseram autoridades do governo daqui. Mas isto pode não importar: há seis meses, a Vodacom levantou uma torre de celular cujo sinal pode ser captado nas colinas. Agora ela registra 10 mil ligações por dia.

Antes da torre ser erguida, Skhakhane se comunicava com seu marido por carta. Ela esperava semanas por uma resposta. O telefone público mais próximo, do lado de fora de uma pequena loja a mais de 16 quilômetros de distância, está quebrado desde março.

Skhakhane disse que considera US$ 1,90 por mês pelo cartão telefônico como sendo dinheiro bem gasto. "Eu não uso o telefone com freqüência", disse ela, "mas sempre que há algo que realmente preciso discutir, eu uso".

Mas ainda resta um problema na era de tecnologia celular de ponta: como uma família africana, em uma cabana iluminada por velas, carrega um telefone celular? Dizem que um carregador alimentado por bicicleta está no horizonte. Mas isto exigiria uma bicicleta, um bem raro em grande parte da África rural.

Em Yanguye, como em outras regiões, a solução geralmente é uma bateria de carro de propriedade de alguém que nem mesmo sonha em ter um carro. Ntombenhle Nsele mantém uma em sua casa, a poucos quilômetros da casa de Skhakhane. Ela a leva de ônibus até a cidade mais próxima, a 36 quilômetros, para recarregá-la em um posto de gasolina.

Por 80 centavos cada, Nsele, 25 anos, permite que os vizinhos recarreguem seus celulares na bateria. Ela tem pelo menos cinco clientes por semana.

"Oooh, é muita gente", disse ela, sorrindo. "Muita gente." O continente pula uma etapa da evolução das telecomunicações George El Khouri Andolfato

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