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25/08/2005

Demolição de prédio comunista causa protestos

The New York Times
Geeta Dayal

Em Berlim
Autoridades alemãs revelaram nesta quarta-feira (24/08) os resultados de um estudo de viabilidade da construção de uma réplica de um palácio prussiano, no lugar do antigo prédio do parlamento da Alemanha Oriental. O castelo abrigaria um hotel de cinco estrelas e um grande museu. O anúncio foi feito dias antes do final de uma gigantesca mostra de protesto na ruína do antigo parlamento.

Mark Simon/The New York Times 
Artistas instalaram "A Montanha" no prédio do parlamento da antiga Alemanha Oriental para ele não ser demolido
A ministra da cultura alemã, Christina Weiss, disse que o governo espera começar a construção em 2007, e que deve custar entre US$ 650 milhões e US$ 950 milhões (entre 1,5 bilhão e R$ 2,2 bilhões).

Nos últimos meses, defensores do projeto tentaram mostrar que o castelo seria uma contrapartida cultural e arquitetônica ao Louvre, de Paris. A construção é uma imitação de um castelo que ficava no local da famosa avenida Unter den Linden.

"Este é um dos mais famosos conjuntos históricos do centro de Berlim, com a universidade, a ópera e a catedral", disse em entrevista na segunda-feira Wilhelm von Boddien, diretor do lobby para reconstrução do antigo castelo. "O Palácio da República está atrapalhando o conjunto", disse ele.

O prédio decadente, uma estrutura quadrada alaranjada de 1972, é um choque em meio ao cinza e à arquitetura neoclássica grandiosa da avenida. No entanto, há vozes que discordam. Argumentando que o prédio deve ser preservado como memória da história do pós-guerra, cerca de 160 artistas e arquitetos de todo o mundo se uniram neste mês para criar uma montanha dentro do Palácio da República.

Eles criaram uma montanha ("Der Berg") fantástica, de fibra de vidro e aço, de 44m de altura, que transborda de pinturas, peças de teatro, instalações de vídeo, comédias, modelos arquitetônicos e esculturas.

A idéia da montanha foi escolhida como declaração conceitual --uma forma de ancorar o prédio para torná-lo aparentemente imóvel-- por Benjamin Foerster-Baldenius, 37, organizador que se descreve como "arquiteto performático".

"Nunca será um castelo", disse ele. "Nunca haverá um rei, ou uma rainha." O propósito da montanha, disse ele, é alimentar o prédio e "sugar o simbolismo".

Os artistas e arquitetos dizem que vêem valor no degradado Palácio da República. Hoje restam apenas suas paredes externas, depois da obra para remoção do asbesto nos anos 90. Para eles, sua fachada espelhada dourada --manchada, rachada e pichada-- sobrevive como um reflexo literalmente distorcido dos sonhos e promessas vazias do regime comunista do pós-guerra.

Muitos argumentam que derrubar o prédio para construir uma réplica dispendiosa de um castelo seria uma forma absurda de negar o passado recente. O arquiteto holandês Rem Koolhaas, que vem acompanhando o destino do prédio com interesse, disse sobre o projeto do castelo: "Acho que essa é a parte dolorosa --que será realizado às custas da história".

Remover o parlamento "parece tremendamente anti-histórico". A demolição está programada para o final do ano.

"Der Berg" foi erguida em apenas oitos semanas, a um custo total de US$ 550.000 (em torno de R$ 1,3 milhão). Desse montante, o projeto recebeu US$ 305.000 (aproximadamente R$ 730.000) em fundos de artes do governo alemão, disse outra organizadora, a dramaturga Amelie Deuflhard. Fato curioso e paradoxal, considerando que o projeto é, afinal, uma declaração contra ações do governo.

Os artistas, porém, começaram sem permissão oficial.

"Conseguimos permissão três dias antes da inauguração", disse Deuflhard. Visitantes da "Der Berg" foram convidados a escolher um de três caminhos para escalar a montanha --o caminho do filósofo, do peregrino ou do montanhista. "São três grupos de pessoas que têm boa razão para subir uma montanha", explicou Foerster-Baldenius.

Sob a montanha há uma frase escrita em letras grandes e delicadas, presas ao concreto. Elas dizem "Ceci n'est pas une montagne" ("Esta não é uma montanha") --uma alusão ao trabalho surrealista de Magritte "Ceci n'est pas une pipe."

Uma suave colagem de áudio permeia o ar: o arquiteto original do Palácio, Manfred Prasser, explicando como o espaço foi construído, canções da inauguração do palácio em 1972, música da Alemanha Oriental e citações de quando o prédio foi fechado para remoção do asbesto.

A montanha deve ser desmantelada no final de semana. Ela recebe centenas de visitantes por cada dia --alemães mais velhos, que se lembram de estar no prédio nos anos 70, adolescentes, turistas.

"Quando as pessoas entram, trazem idéias, lembranças --às vezes ideologia", disse Deufhard.

Alguns dos maiores fãs do projeto --e do prédio-- são jovens que não se lembram do parlamento antes de se tornar uma ruína. "Eles não têm memórias deste lugar cheio de lâmpadas e sofás", disse Foerster-Baldenius. "É apenas um espaço bacana marginal. Você pode se imaginar andando de skate aqui dentro, tendo todo tipo de eventos musicais. Ele diz para você: 'Piche minhas paredes, pinte algo em meu chão.'"

Lars Ramberg, em projeto de arte recente "Palast des Zweifels" (palácio da dúvida), colocou a palavra "Zweifel" (dúvida) em letras de néon gigantescas no topo do Palácio da República. Ele também elogiou o interior do prédio.

"Sou artista e também engenheiro e fiquei impressionado de como foi bem construído por dentro", disse Ramberg. "Parece um lugar pronto para coisas novas".

Para todos envolvidos, está claro que essa é uma guerra de símbolos, uma viagem ao coração da identidade germânica moderna. O que torna a questão delicada é que o Palácio da República não é apenas um símbolo do comunismo.

"O fato é que o prédio ficou abandonado por mais tempo do que ficou em funcionamento", disse Ramberg. "Então a história do prédio não é apenas da Alemanha Oriental. A história do prédio é de uma ruína e da identidade de uma ruína". Ele e outros argumentam que seria melhor se Berlim pudesse ser apenas Berlim, com seus erros do passado expostos.

"Por que Berlim ia querer ser uma Paris de imitação?" perguntou Ramberg, referindo-se às observações do coordenador do projeto do castelo. "Paris nunca ia querer ser uma falsa Berlim".

Ele acrescentou: "As pessoas vão para Berlim ver traços da história do Ocidente, em todos seus aspectos." Artistas reagem à destruição da sede do parlamento alemão oriental Deborah Weinberg

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