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28/08/2005

Conheça o novo chefe

The New York Times
Lola Ogunnaike

Em Nova York
Jay-Z, o rapper veterano que se tornou presidente do selo Def Jam Recordings, estava sentado em seu escritório esparsamente decorado em Manhattan em uma abafada tarde de agosto. Ele estava olhando atentamente para Tru Life, um rapper promissor do Lower East Side. Buscando desesperadamente fechar um contrato com gravadora, Tru Life, com sua conversa às vezes comovente e às vezes cômica, estava fazendo o melhor que podia para convencer Jay-Z e os demais executivos na sala de que valia a pena ser contratado.

"Yo, Jay", disse ele, "isto tem que dar certo! Eu tenho problema nas costas! Não posso ficar carregando caixas no Home Depot!"

"O cara que me der o caminho certo não vai se dar mal!" ele continuou.

"Eu já levei tiro", ele disse, "já fui declarado morto em Bellevue e tudo mais, mas não gosto de falar disso para não rolar um 50", se referindo ao rapper 50 Cent. "Todo mundo pode conseguir um contrato com gravadora, mas não dá para comprar estrela, não dá para comprar carisma, e eu tenho isso." E assim prosseguiu um animado Tru Life fazendo seu discurso por mais de 10 minutos. Esgotado, ele finalmente recostou em sua cadeira.

Jaz-Z se reclinou para frente na sua. "Alguém coloque este garoto na frente das câmeras!" ele declarou com encanto exacerbado. A sala caiu na gargalhada. Tru Life assinou um contrato de seis dígitos naquela noite.

"É estranho", disse Jay-Z no dia seguinte, durante um jantar no 40/40 Club, o bar de esportes em Chelsea do qual ele é dono. "Porque já estive lá. Eu já estive no lugar dele e agora eu sou aquele que torna os sonhos realidade."

Faz mais de sete meses desde que Jay-Z, 35 anos, nascido Shawn Carter, aceitou a oferta da Vivendi Universal, a maior gravadora do mundo, para assumir a presidência da Def Jam, seu selo seminal de rap. Ele foi o primeiro a admitir que passar de superastro internacional para executivo de cadeira giratória não foi fácil.

Apesar de ter comandado com sucesso o selo Roc-A-Fella Records com seus ex-sócios Damon Dash e Kareem (Biggs) Burke, dirigir uma empresa como a Def Jam é um desafio totalmente diferente. Ele teve que aprender rapidamente que seu sucesso neste novo empreendimento dependeria mais de sua habilidade como caçador de talentos, negociante e político de escritório do que seu sucesso anterior.

Inicialmente, ele disse, ele relutou em aceitar o emprego. "Eu sabia que a Def Jam estava em um período de transição", ele explicou. "Os artistas que elevaram o selo já estavam no mercado há um bom tempo. Era hora de colocar sangue novo no prédio e eu sabia que isso seria rápido, mas também sabia que as pessoas esperavam o meu sucesso para amanhã. 'Você está aqui. Vamos emplacar um sucesso.' As pessoas não são realistas." De fato, ele fez um rap sobre o problema no remix de "Diamonds Are Forever" de Kanye West, um dos maiores astros da empresa: "I'm not a businessman/ I'm a business, man/ So let me handle my business, damn!" (não sou empresário/sou um negócio, cara/então me deixa fazer meu trabalho, droga!)

A esta altura no ano passado, Jay-Z estava sofrendo no meio de uma grande guerra de ofertas. Lyor Cohen, o executivo-chefe da Island/Def Jam, trocou a gravadora pela Warner Music. O presidente da Def Jam, Kevin Liles, entrou em choque com Antonio Reid, que substituiu Cohen como seu chefe, e pediu demissão. Isto deixou uma vaga aberta no comando da Def Jam --e também deixou Cohen e Reid, dois grandes rivais corporativos, em busca do mesmo homem. A Warner ofereceu a Jay-Z uma participação acionária na empresa, mas a Universal prevaleceu, com um acordo que dizem incluir um contrato de três anos e a propriedade de suas gravações daqui aproximadamente 10 anos.

No final, ele disse, ele aceitou o emprego porque estava buscando um desafio. Começando com o clássico "Reasonable Doubt", Jay-Z, em menos de uma década, lançou 10 álbuns, que venderam mais de 33 milhões de cópias, o tirando dos Marcy Projects, no Brooklyn, onde já vendeu drogas, para se tornar um dos artistas mais respeitados e prolíficos da música.

"Eu estive na minha zona confortável por algum tempo" foi como ele descreveu. "Eu estava entediado. Eu não queria fazer rap apenas por fazer: oh, é novembro de novo. É hora de lançar outro álbum." Ele disse que estava disposto a provar que pode haver vida depois do rap, que os artistas podem fazer mais do que estrelar os especiais "Por onde anda...?" A escassez de executivos afro-americanos na indústria fonográfica também era uma preocupação, ele disse, apontando para uma revista "Billboard" em sua mesa. A chamada dizia: "Onde estão os executivos negros?" "Vê o que estou dizendo?" disse ele com um sorriso torto.

Pode ser cedo demais para determinar se Jay-Z vai vingar ou fracassar como executivo de um grande selo, mas muitos estão torcendo para que ele tenha sucesso. "Se ele se sair bem, ele será o pirateiro moderno que virou presidente, que está saindo com uma estrela de cinema", disse Andre Harrell, um executivo veterano do mundo da música e fundador da empresa de marketing Nu America. "Ele é o sonho americano."

Reid, presidente do Island Def Jam Music Group, disse que a aposta em Jay-Z já se pagou. "Ele é simplesmente a pessoa mais talentosa que conheço", disse Reid com entusiasmo. "Ele entende a música, ele entende a cultura, ele entende os artistas. Quando olho para Jay-Z eu vejo um gênio."

Mas quando Jay-Z olha para si mesmo, ele vê alguém que está se saindo apenas de forma razoável. Quando perguntado sobre que nota ele daria aos seus próprios esforços, em um raro momento de humildade, ele disse uma nota C.

É verdade que ele teve um sucesso modesto com artistas como o cantor de R&B Bobby Valentino e com as ingênuas Rhianna, cujo single "Pon de Replay" foi um dos sucessos do verão, e Teairra Mari. Ele também está orgulhoso do gangster rapper Young Jeezy, um fenômeno de Atlanta cujo álbum de estréia, "Let's Get It: Thug Motivation 101", estreou no segundo lugar na parada da Billboard no início deste mês, vendendo 176 mil cópias na primeira semana.

Mas Jay-Z culpa a si mesmo pelas vendas decepcionantes dos novos álbuns de Memphis Bleek e Young Gunz, ambos contratados da Roc-A-Fella, que a Universal comprou quando contratou Jay-Z em dezembro passado.

"Logicamente, eu não devia tê-los lançado porque os números- -as execuções em vídeo e rádio-- não indicavam que estavam prontos para sair", disse ele. "Mas apostando no selo, eu imaginei que assim mesmo venderiam 100 mil, mas não venderam. Então foi um erro."

Outra de suas grandes contratações, Foxy Brown, uma rapper combativa cuja carreira parece estar perdendo força, também poderá provar ser um erro. "Este será seu grande desafio", disse Elliott Wilson, editor da revista de música urbana "XXL". "Ele terá que começar do zero a apresentá-la para um novo público."

E há o problema de sua celebridade ofuscando os artistas que ele foi contratado para guiar. "Ele transformou em hábito fazer rap nas gravações de seus artistas na esperança de impulsionar suas carreiras -e isto atrai atenção imediata- mas é apenas um atalho", disse Eric Parker, editor de música da revista "Vibe". "Ele precisará desenvolver realmente a carreira dos artistas para assegurar que eles de fato tenha carreiras duradouras."

Jay-Z não parecia um jovem executivo ansioso certo dia deste mês, quando foi caminhando para trabalho --pouco antes das 13 horas-- vestindo bermuda jeans, uma camiseta pólo listrada e um tênis branco reluzente de sua própria linha da Reebok, a S Carter. Em seu braço estava Beyonce Knowles, a diva pop que é sua namorada há quase dois anos.

Resplandecente em um short cáqui, uma blusa creme e uma pulseira de diamantes, Beyoncé passou parte da tarde descansando em um sofá no escritório de seu namorado, folheando revistas preguiçosamente e recebendo calorosamente quem quer que entrasse na sala --resumindo, fazendo o papel de primeira-dama.

Enquanto isso Jay-Z assistia o vídeo do segundo single de Teairra Mari, "No Daddy", um pseudo-anúncio de utilidade pública sobre os riscos de filhas crescerem sem o pai. Por não ter gostado da primeira versão do vídeo, ele ordenou que fosse refilmado. Desta vez ele estava satisfeito.

"Eu gosto da energia", disse ele enquanto balançava a cabeça acompanhando o ritmo.

Por volta das 14 horas, Ghostface Killer, um membro fundador do finado Wu-Tang Clan, apareceu para uma reunião. "E aí, família?", Jay-Z disse com um forte aperto de mão e um rápido abraço.

"Eu quero despejar uma quente em você", respondeu Ghostface. "Já tá gorda, mas quero que você acrescente seu extra." (Tradução: eu tenho uma ótima música nova que eu gostaria que você ouvisse e gostaria de suas sugestões.) Jay-Z soltou sua risada característica, aguda e feito metralhadora, "Heh, heh, heh, heh, heh".

"Tá", ele disse, sorrindo. "Eu vou botar o coentro."

Na hora seguinte, Jay-Z escutou quase 20 canções, sobre assuntos que variavam da vida no mundo das drogas até um dia na barbearia. Quando a música acabou, Ghostface começou com as perguntas.

Quem você vê nesta última gravação? Uma garota ou alguém como Pharrell devia cantar o refrão? Dá para lançar em setembro? Nesta última pergunta, a postura de Jay-Z mudou. "Não vai funcionar", ele disse ao seu contratado, que parecia cabisbaixo. "Você precisa do preparativo apropriado. Você não vai querer lançar de qualquer jeito."

Ele sugeriu uma redução no número de faixas. "Em um bom negócio", ele explicou, "você é pago por 12 faixas. Isto significa que todos --produtores, compositores, etc.-- todos comem da mesma torta. Se você soltar 18 canções e tiver 18 produtores e compositores, em vez de 12 pessoas dividindo a torta, 18 pessoas vão comer sua fatia." É um fato que poucos artistas sabem e ainda menos executivos informam, disse Jay-Z, mas por estar no outro lado da mesa há menos de um ano, ele sente que precisa esclarecer para aqueles que supervisiona.

"Jeezy chegou aqui com 23 canções e eu disse, o que você está fazendo?" ele lembrou. "Guarde metade destas canções e solte outro álbum."

Ao longo do curso da tarde, Teairra Mari apareceu, assim como os rappers Memphis Bleek, Freeway e Young Gunz. A certa altura, a sala parecia menos um escritório e mais como uma sala VIP do 40/40 Club, sem o champanhe. "Ele quer que o local tenha um ambiente familiar", disse Jay Brown, um executivo da Def Jam.

Apesar do clima sociável, os negócios continuavam sendo conduzidos de alguma forma. David Miller, diretor de marketing internacional, precisava que Jay-Z arrumasse outra faixa bônus de Kanye West para o lançamento japonês de seu álbum, "Late Registration". "Vou ver o que posso fazer", disse Jay-Z. Uma mulher do departamento de marketing perguntou se ele tinha interesse em uma nova série de vídeos que a MTV estava começando. "Eles vão pegar todos seus vídeos e editá-los, lançá-los em DVD e nós dividiremos os lucros", ela disse. "Você gostou do conceito?" Ele rejeitou. Em seguida, sua assessora de imprensa interna, Jana Fleishman, queria saber se ele apareceria na capa de uma revista de moda do centro. Folheando as páginas da revista, ele disse: "Eu vou perguntar primeiro aos meus amigos e depois lhe dou um retorno".

Às 17 horas era hora de falar de números com Tru Life e seu advogado, que estavam esperando no corredor. "Eu estou superconfortável com quatro" --US$ 400 mil-- disse Jay-Z ao seu vice-presidente sênior de finanças, Joe Borrino. "Mas fico menos à vontade com cinco. Mais que isto, eu não quero estar neste negócio, especialmente no momento. Apenas seis lançamentos de hip-hop fizeram mais que 150 mil neste ano."

"Então vou dizer que não podemos passar de cinco", disse Borrino.

"Não, porque se eu ouvisse você dizer isto, então eu pediria cinco porque significa que posso conseguir cinco", explicou Jay-Z. "Diga a ele que um contrato típico de artista iniciante fica entre 400 e 450."

"Ok", disse Borrino, parecendo inseguro.

"Tenha confiança, homem", disse Jay-Z, notando a testa franzida de Borrino. "Se tiver algum problema, venha falar comigo, ok?"

Não houve problema.

As coisas tendem a correr rapidamente em seu escritório. "Quando cheguei aqui", lembrou Tru Life, "eles me disseram que se Jay gostasse de mim, eu não ia sair do prédio. Eu achei que era brincadeira. Eu cheguei aqui às 3 da tarde e fui embora 10 horas depois."

Quando perguntado sobre sua abordagem agressiva, Jay-Z disse: "É um negócio competitivo. Quando você acha que alguém tem potencial, você precisa agarrá-lo. Eu vivo segundo meu instinto".

Seu dia começa às 8 da manhã, com café da manhã e exercício. Ele costuma estar no escritório às 11 horas, disse ele, "e eu fico lá até ter terminado ou ficar cansado". Às 19 horas ele estava esticado na sala de estar privada do 40/40, com o programa "Punk'd" da MTV passando ao fundo. "Eu sei que as pessoas acham que este é um emprego de vaidade ou que sou o sujeito que apenas traz os talentos e que fico longe do escritório três meses por ano, que só apareço de vez em quando, sabe como é, como o verdadeiro presidente --imitando a tacada de golfe de Bush-- "mas sim, eu realmente estou lá".

Exceto, é claro, quando ele está representando a Dej Jam em eventos públicos ao redor do país. Várias semanas atrás, no bar vazio sob o piso principal do Key Club de Hollywood, os novos artistas do selo --Teairra Mari, Rihanna e Ne-Yo-- se revezavam diante das câmeras e do "Access Hollywood" antes de um concerto promovido pela revista "Teen People".

Mas a forma como os cameraman se amontoaram quando o chefe deles entrou no bar, logo após o show, deixou claro quem era a principal atração do evento. E ele posteriormente reconheceu que pode usar sua celebridade para promover novos artistas de uma forma que poucos executivos, se é que algum, podem. Em um momento, ele estava tranqüilizando Teairra Mari sobre uma pequena disputa de elenco em seu novo vídeo. No seguinte, as pessoas davam cópias do DVD de show dele, "Fade to Black", para ele autografar.

Seu carisma tem um grande papel no escritório. Quando ele chegou em janeiro, ele lembrou: "Eu me sentei em duas reuniões e parecia uma máquina. A paixão tinha desaparecido. Ninguém realmente dizia nada. Não havia idéias". Então ele buscou melhorar a moral. Ele organizou vários retiros e exercícios de formação de equipe inspirados no programa "O Aprendiz" de Donald Trump, no qual várias equipes disputam um prêmio de US$ 50 mil. A tarefa deles? Fechar um contrato com um artista fictício. Ele também promoveu uma noite de boliche e uma noite de cinema no Soho House, um clube privado de Manhattan. E como não há nada como champanhe para unir as pessoas, taças são servidas no escritório nas tardes de sexta-feira.

Ele disse que ainda acha desconfortável se dirigir à sua equipe. "Quando você está no palco é: 'E aí, Cleveland? Levantem as mãos e digam ho'. Mas ficar diante de um grupo de pessoas e fazer um discurso falando das coisas que está tentando fazer, não é fácil."

Mas a cada discurso e cada dia que passa, o trabalho parece estar ficando mais fácil. Jay-Z já tem sua atenção voltada para o futuro, que inclui se acertar com Beyoncé e começar uma família nos próximo anos. "Eu sinto que tal hora está chegando", disse ele. Depois disto? "Talvez eu abra um cassino." Um trabalho perfeito para um homem que não tem medo de apostar. George El Khouri Andolfato

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