UOL Notícias Internacional
 

28/08/2005

Língua nascida do colonialismo prospera novamente na Amazônia

The New York Times
Larry Rohter

Em São Gabriel da Cachoeira, Brasil
Quando os portugueses chegaram ao Brasil cinco séculos atrás, eles
encontraram um problema fundamental: os povos indígenas que conquistaram falavam mais de 700 línguas. Diante do desafio, os padres jesuítas que os acompanhavam elaboraram uma mistura de palavras indígenas, portuguesas e africanas que chamaram de "língua geral", e a impuseram sobre os súditos coloniais.

Em toda parte no Brasil, a língua geral como língua viva, falada, morreu há muito tempo. Mas neste canto remoto e esquecido da Amazônia, onde o Brasil, a Colômbia e a Venezuela se encontram, a língua não apenas conseguiu sobreviver como também fez um notável retorno nos último anos.

"Os lingüistas falam de línguas moribundas que vão morrer, mas esta é uma que está sendo revitalizada por sangue novo", disse José Ribamar Bessa Freire, autor de "Rio Babel: a história das línguas na Amazônia" e natural da região. "Apesar de ter sido trazida para a Amazônia para tornar viável o processo de colonização, tribos que perderam sua língua original agora estão se refugiando na língua geral e a tornando um elemento de sua identidade", disse ele.

Há dois anos, de fato, o nheengatú, como as cerca de 30 mil pessoas que
falam a língua geral a chamam, atingiu um marco. Por votação da câmera dos vereadores local, São Gabriel da Cachoeira se tornou o único município do Brasil a reconhecer outra língua que não o português como oficial, conferindo tal status à língua geral e duas línguas indígenas locais.

Como resultado, o nheengatú, que significa "língua boa", agora é uma língua autorizada a ser ensinada nas escolas locais, falada nos tribunais e usada em documentos do governo. As pessoas que sabem falar a língua geral viram seu valor subir no mercado de trabalho e agora estão sendo contratadas como intérpretes, professores e funcionários de saúde.

Em seu auge colonial, a língua geral era falada não apenas na Amazônia, mas até a bacia do Rio Paraná, a mais de 3.200 quilômetros aos sul daqui. Os padres interpretados por Jeremy Irons e Robert de Niro no filme "A Missão", por exemplo, se comunicavam com seus paroquianos indígenas em uma versão da língua.

Mas em meados do século 18, o governo português ordenou a saída dos jesuítas do Brasil, e teve início o longo declínio da língua. Ela resistiu na Amazônia após o Brasil conquistar sua independência em 1822, mas foi enfraquecida por décadas de migração de camponeses do Nordeste do Brasil para trabalhar nas plantações de juta e seringais e outros empreendimentos comerciais.

A sobrevivência do nheengatú aqui tem sido ajudada pela profusão de línguas na região, o que complica a comunicação entre as tribos; é um hábito antigo de algumas tribos exigir que membros se casem fora de seu próprio grupo de língua. Segundo cálculo de lingüistas, 23 línguas, pertencentes a seis famílias, são faladas aqui no Alto Rio Negro.

"Esta é a região mais plurilíngüe de todas as Américas", disse Gilvan Muller de Oliveira, diretor do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Lingüística, um grupo privado e sem fins lucrativos que tem um escritório aqui. "Nem mesmo Oaxaca, no México, consegue oferecer tamanha diversidade."

Mas a persistência e evolução do nheengatú é marcada por contradições. Por um lado, nenhum dos grupos indígenas que correspondem a mais de 90% da população local pertence ao grupo tupi que forneceu à língua geral a maioria de seu vocabulário e gramática original.

"O nheengatú veio até nós como a língua do conquistador", explicou Renato da Silva Matos, um líder da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. "Ela matou as línguas originais" porque os padres e as autoridades do governo puniam aqueles que falavam qualquer língua que não fosse o português ou o nheengatú.

Mas nos tempos modernos, a língua adquiriu um significado muito diferente. Enquanto avançava o domínio do português e aqueles que originalmente impuseram a língua buscavam sua extinção, o nheengatú se tornou "um mecanismo de resistência étnica, cultural e lingüística", disse Pérsida Miki, uma professora de educação da Universidade Federal do Amazonas.

Mesmo os jovens que falam a língua geral conseguem se lembrar dos esforços em sua infância para eliminar a língua. Até o final dos anos 80, os pais indígenas que queriam uma educação para seus filhos freqüentemente os enviavam para internatos dirigidos pelos padres e freiras salesianos, que eram particularmente duros com os alunos que mostravam sinais de se agarrar à sua língua de origem.

"Nossos pais podiam nos visitar uma vez por mês, e se não falássemos com eles em português, nós éramos punidos ficando sem almoço ou colocados de castigo em um canto", disse Edilson Kadawawari Martins, 36 anos, um líder da tribo Baniwa que passou oito anos no internato. "Na sala de aula era a mesma coisa: se você falasse nheengatú apanhava de palmatória ou era ordenado a ficar de joelhos de frente para a classe por 15 minutos."

Celina Menezes da Cruz, uma índia Baré de 48 anos tem lembrança semelhante, mas nos últimos dois anos, ela tem lecionado nheengatú para alunos de meia dúzia de tribos na escola primária Dom Miguel Alagna daqui.

"Eu me sinto bem fazendo isto, especialmente quando penso no que tive que passar quando tinha a idade dos meus alunos", disse ela. "É importante não deixar morrer a língua de nossos pais."

Para ajudar a aliviar a escassez de professoras qualificados de língua
geral, um curso de treinamento para 54 instrutores teve início no mês
passado. A Unicef está fornecendo dinheiro para discutir outras formas para cumprir a lei que torna a língua oficial, e defensores esperam abrir uma Universidade Indígena aqui em breve, com cursos em nheengatú.

E apesar da língua geral ter sido criada por padres católicos romanos, as
seitas evangélicas protestantes modernas foram rápidas em abraçá-la como forma de promover sua fé. Em uma missa de uma igreja da Assembléia de Deus, em uma abafada noite de domingo neste mês, povos indígenas de meia dúzia de tribos cantavam e rezavam na língua geral enquanto seu pastor, que falava apenas português, olhava com aprovação e exclamava "Aleluia!"

Mas alguns poucos aqui não ficaram satisfeitos em ver o ressurgimento da
língua geral. Depois que uma emissora de rádio local começou a transmitir
programas na língua, alguns oficiais da guarnição militar local, responsável pelo policiamento de centenas de quilômetros de fronteira permeável, fizeram objeção com base em uma lei brasileira que proíbe transmissões em línguas "estrangeiras".

"Os militares, com sua noção datada de segurança nacional, tendem a ver a língua geral como uma ameaça à segurança nacional", disse Muller de
Oliveira. "A língua geral pode ser uma língua em declínio, mas a idéia de
que ela de alguma forma ameaça o domínio do português e conseqüentemente a unidade da nação ainda persiste e é respeitada entre alguns segmentos das forças armadas." George El Khouri Andolfato

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