UOL Notícias Internacional
 

30/08/2005

Demanda estrangeira e contrabando podem levar o pau-rosa do Brasil à extinção

The New York Times
LARRY ROHTER

Em Silves (AM)
Até o dia em que o perfume Chanel Nº 5 chegou às lojas, em 1921, o pau-rosa, conhecido nos Estados Unidos como Brazilian rosewood, era apenas mais uma árvore abundante na Amazônia. Mas a popularidade persistente da fragrância, da qual o óleo de pau-rosa é um dos principais ingredientes, deu início a um processo que levou ao comércio ilegal do óleo, e a árvore passou a ser designada como espécie ameaçada.

Joao SIlva/The New York Times 
Membro do grupo Avive, que explora o pau-rosa sem destruir árvores, embala sabonetes
Em todo o mundo, a demanda por perfumes, sabonetes, bálsamos e velas aromáticas disparou nos últimos anos, devido ao aumento do poder aquisitivo feminino e ao surgimento de tendências New Age, como a aromaterapia.

Devido ao toque de classe do pau-rosa, a demanda pelo óleo supera em muito a oferta legal do produto, e alguns fabricantes da fragrância pagam praticamente qualquer preço para obtê-lo.

"Esse aroma é incomparável, e faz com que as pessoas ajam de maneira estranha", diz Paulo Tarso de Sampaio, co-autor do livro "Biodiversidade na Amazônia" e cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus. "A exploração intensa significa que todas as áreas nas quais o acesso ao pau-rosa era fácil foram devastadas, mas a demanda continua crescendo".

As companhias européias, em sua maioria francesas, que dominam a indústria de fragrâncias, a princípio obtinham os seus suprimentos de óleo de pau-rosa na Guiana Francesa, 800 quilômetros a nordeste daqui. Mas quando a exploração se tornou tão intensa que a árvore foi praticamente extinta naquela região, os fabricantes se voltaram para a Amazônia brasileira.

No final da década de 80, as reservas de pau-rosa na Amazônia Oriental brasileira também haviam sido destruídas. Alarmada, a agência brasileira de proteção ambiental respondeu à situação acrescentando o pau-rosa à sua lista de espécies ameaçadas.

A medida tinha como objetivo evitar a pilhagem da madeira. Mas como a agência é incapaz de fazer valer a proibição, grande parte do comércio de pau-rosa passou a ser feita ilegalmente, fazendo com que os preços aumentassem e obrigando companhias como a Phebo, a mais antiga fabricante brasileira de sabonetes, a procurar substitutos sintéticos mais baratos, que são importados de países como a China.

"O sabonete de pau-rosa continua respondendo por metade das nossas vendas, mas deixamos de usar a essência real por volta de 1990", explica Roberto Lima, gerente da fábrica em Belém, na foz do Rio Amazonas. "Hoje vendemos uma quantidade de sabonetes quase quatro vezes maior do que naquela época, mas a escassez do extrato natural fez com que o seu preço chegasse a um patamar tão elevado que só as grandes companhias estrangeiras são capazes de adquiri-lo".

Nem sempre fica claro o que ocorre depois que os tambores de óleo aromático deixam as instalações amazônicas nas quais o produto é extraído e seguem para o mercado importador. Grupos ambientalistas dizem que grande parte do óleo é destinada a um punhado de intermediários, a maioria localizada na área de Nova York. Mas esses intermediários relutam em dizer como obtêm o produto e como fazem para atender às rígidas exigências do governo brasileiro.

Segundo estudos acadêmicos e empresariais, atualmente a produção legal de óleo de pau-rosa no Brasil é de apenas um décimo do que foi no ápice da atividade, no final dos anos 60, quando a extração anual era de 300 toneladas.

O número de fábricas registradas, que transformam troncos de pau-rosa em óleo por meio de um processo ineficiente que parece devorar as árvores, também diminuiu drasticamente, de mais de 50 na década de 40 para as menos de oito atuais.

No entanto, há aproximadamente seis anos, um grupo comunitário nesta pequena ilha no meio do Rio Amazonas deu início a uma tentativa de ressuscitar a indústria, desta vez com base sustentável. Em vez de simplesmente cortar as árvores e retirar os troncos da floresta, o grupo, chamado Avive, decidiu podar ramos e folhas a cada cinco anos, estendendo, desta forma, a vida útil de cada árvore de pau-rosa por décadas.

Atualmente os integrantes do projeto, em sua maioria mulheres camponesas, plantam e cuidam de mais de três mil mudas de pau-rosa no coração da floresta. Eles também extraem o óleo do pau-rosa e fabricam cerca de mil sabonetes por mês em uma pequena fábrica local.

"O meu marido trabalhava em uma das grandes fábricas. Eles cortavam a árvore e não deixavam nada no lugar", conta Anete de Souza Canto, líder do grupo. "Mas nós não fazemos isso. Tenho 47 anos e cinco filhas, de forma que estou pensando no futuro".

O grupo começou também a colher outras fragrâncias exóticas de árvores para a fabricação de sabonetes e pomadas, tomando sempre o cuidado de repor aquilo que retira da floresta. "Estamos plantando tudo que é perfumado", afirma com orgulho Márcio João Neves Batista, 25, que opera a destilaria que ferve as folhas e os galhos, transformando-os em óleo.

Mas a tarefa da Avive não tem sido fácil. As áreas de floresta colocada à disposição do grupo pelo governo para que fossem preservadas têm sido devastadas. Os invasores simplesmente derrubam árvores maduras de até 30 metros de altura e retiram os troncos da floresta.

Segundo Sampaio, a concentração de óleo nas folhas do pau-rosa chega ao dobro daquela encontrada no tronco da árvore. Mas são necessárias grandes quantidades de ramos e folhas para a produção da mesma quantidade de óleo e, como isso exige trabalho extra, é mais conveniente e rentável para madeireiros ilegais e operadores de fábricas clandestinas se apegar ao sistema antigo e predatório.

Os altos custos da mão-de-obra e da produção também significam um preço mais elevado do produto final. Os intermediários têm se recusado a pagar o preço extra enquanto as reservas ilegais ainda estão disponíveis, mas alguns usuários dizem que comprariam com satisfação o óleo de pau-rosa obtido de forma ecologicamente correta caso tivessem acesso a esse produto.

"O ideal seria usar o óleo natural obtido de ramos e folhas, porque isso é bom para a natureza e para o consumidor", afirma Lima, gerente da fábrica de sabonetes. "Além da vantagem de marketing característica de um produto ecologicamente correto, se pudéssemos obter um fornecimento constante do óleo natural, não precisaríamos importar a essência do exterior, algo que apenas eleva os nossos custos e não traz benefícios para a nossa região". Consumo predatório estimula a derrubada das árvores na Amazônia Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,31
    3,266
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,60
    62.662,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host