UOL Notícias Internacional
 

30/08/2005

Katrina atinge Estados do Golfo e mata dezenas

The New York Times
Joseph B. Treaster e Kate Zernike*

Em Nova Orleans, Louisiana
O furacão Katrina atingiu a Costa do Golfo com força devastadora no amanhecer desta segunda-feira (29/08), poupando Nova Orleans do temido impacto catastrófico que teria, mas inundando partes da cidade e causando estrago no Estado vizinho do Mississippi, onde arremessou barcos, arrancou telhados e deixou muitas vias costeiras importantes intransitáveis.

Tracy Wilox/The Gainesville Sun 
Plataforma de petróleo fica presa sob ponte na costa do Alabama após passagem do Katrina

Com ventos de 233 km/h no momento em que entrou no continente, o Katrina deixou mais de um milhão de pessoas, em três Estados, sem energia elétrica e submergiu ruas e estradas a até centenas de quilômetros do centro da tempestade.

As autoridades informaram pelo menos 55 mortos, com 50 apenas em Harrison County, Mississippi, que inclui Gulfport e Biloxi. Equipes de resgate temem encontrar mais mortos entre as pessoas que acreditam que tenham ficado presas debaixo d'água e em prédios que desmoronaram.

Jim Pollard, um porta-voz do centro de operações de emergência de Harrison County, disse que 30 pessoas foram encontradas mortas em um complexo de apartamentos em Biloxi. Sete outras foram encontradas no Industrial Seaway, um canal que vai do Golfo até Back Bay.

Apesar do Katrina ter provado ser menos temível do que o previsto, ele ainda foi potente o suficiente para ficar entre um dos furacões mais destruidores que já atingiram os Estados Unidos. Especialistas em seguro disseram que os estragos poderão ultrapassar US$ 9 bilhões, o que a tornaria uma das tempestades mais caras já registradas.

Em Nova Orleans, a maioria das barragens suportou, mas uma foi danificada e a inundação chegou até os telhados em um bairro. Os ventos uivantes do Katrina arrancaram um pedaço do teto do Superdome, onde até 10 mil pessoas estavam refugiadas.

Alguns dos piores estragos ocorreram ao leste da cidade histórica de Nova Orleans, com cerca de 40 mil casas inundadas na Paróquia de Saint Bernard. Em Gulfport, Mississippi, a tempestade deixou três dos cinco hospitais sem unidades de emergência em funcionamento, casas à beira-mar destruídas e grandes trechos da estrada costeira do Mississippi inundadas e intransitáveis.

"Ela chegou ao Mississippi como uma tonelada de tijolos", disse o governador do Estado, o republicano Haley Barbour, em uma coletiva de imprensa ao meio-dia. "É uma tempestade terrível."

O presidente Bush prometeu ampla ajuda às vítimas do furacão e a Agência Federal de Administração de Emergência deverá trabalhar na região por meses, avaliando os danos a propriedades e destinando um montante de provavelmente bilhões de dólares em ajuda a proprietários de imóveis e empresas.

Nos Estados de Alabama, Louisiana e Mississippi, os governadores declararam a busca e resgate como sendo sua maior prioridade, mas disseram que as inundações e os fortes ventos têm impedido a tarefa, particularmente nas áreas mais atingidas.

Os governadores enviaram a polícia e a Guarda Nacional atrás das denúncias de saques, e as autoridades em algumas partes da Louisiana disseram que decretarão toque de recolher.

O Katrina caiu de uma tempestade categoria 5 --a pior tempestade possível-- para categoria 4 assim que chegou ao continente, no leste da Louisiana, pouco depois das 6h da manhã, e em Nova Orleans as autoridades disseram que o ligeiro desvio da tempestade para o leste a poupou de maiores estragos. A cidade está abaixo do nível do mar, e havia previsões de que o histórico bairro francês ficaria sob 5 ou 6 metros de água.

Mesmo assim, ninguém encontrou muito conforto aqui, com ventos de 160 km/h e as águas subindo até 4,5 metros. As autoridades disseram no inicio do dia que mais de 20 prédios ruíram. "Eu não posso dizer que escapamos do pior", disse a governadora Kathleen Babineaux Blanco, uma democrata. "Eu acho que ainda há muitos danos que podem ser causados à cidade. Nós ainda nem sabemos o que é o pior."

As estimativas preliminares dos estragos causados pelo Katrina --que varreu o Sul da Flórida na semana passada como um furacão categoria 1 antes de atingir as águas quentes do Golfo do México e seguir para a Costa do Golfo-- variavam de US$ 9 bilhões a US$ 16 bilhões.

Apenas o furacão Andrew, que varreu partes da Flórida, Louisiana e Mississippi em agosto de 1992, custou mais caro --com quase US$ 21 bilhões em perdas seguradas.

Além dos danos a propriedade causados pela inundação e ventos fortes, o Katrina também desferiu um golpe contra a indústria do petróleo e os lucrativos cassinos que têm sido o motor econômico da região.

Tanto a produção de petróleo em plataformas marítimas quanto o jogo em vários cassinos na costa do Mississippi ficaram fechados no domingo, à medida que a tempestade se aproximava. As evacuações cortaram a produção de petróleo em mais de 600 mil barris por dia. O fechamento dos cassinos na Costa do Golfo custou sozinho ao Estado entre US$ 400 mil e US$ 500 mil por dia em perda de receita de impostos. Barbour disse que as autoridades ainda não puderam avaliar a extensão dos danos aos cassinos.

"Fadiga do Furacão"

A tempestade castigou Nova Orleans por oito horas seguidas. A cheia sobrecarregou as barragens construídas para proteger a cidade do Rio Mississippi e do Lago Pontchartrain, despejando água lamacenta nas ruas estreitas do centro da cidade. Amplos trechos de terras baixas além da cidade foram transformados em lagos.

Janelas foram arrancadas de condomínios, hotéis, prédios de escritório e do Charity Hospital, lançando cacos de vidro nos ventos. Incêndios ocorreram apesar da chuva torrencial, alguns provocados, segundo as autoridades, por moradores que acenderam velas após a queda da eletricidade.

A tempestade derrubou o serviço de telefonia fixa e celular por vários trechos da região do Golfo, e as autoridades de Nova Orleans disseram que a cidade continuará sem energia por semanas.

Duas usinas nucleares próximas do caminho do Katrina parecem ter suportado a tempestade sem grandes danos, e uma terceira foi fechada no sábado, em antecipação ao furacão, segundo a Entergy Nuclear, que é dona de todas as três.

A extensão dos danos na usina que foi fechada, Waterford, a 32 quilômetros a oeste de Nova Orleans, ainda era desconhecida no fim da tarde de segunda-feira, porque o vento ainda estava forte demais para que funcionários pudessem verificá-la, disse Diane Park, uma porta-voz.

Enquanto isso, as paróquias mais esparsamente povoadas a leste daqui foram atingidas mais duramente do que qualquer um esperava.

Blanco disse que as paróquias de Plaquemines, Orleans, Saint Bernard, Jefferson e Saint Tammany foram "devastadas pelos ventos fortes e inundações". Em Saint Bernard, o centro de emergência ficou submerso e as autoridades estimam que 40 mil casas foram inundadas.

As autoridades locais disseram no início da tarde que muitos moradores se refugiaram em seus telhados.

As autoridades estimam que cerca de 80% dos moradores de Nova Orleans obedeceram à ordem de evacuação. Mas em áreas onde eram esperados menos danos, as autoridades estavam preocupadas --e incomodadas-- com o grande número de pessoas que tentou enfrentar a tempestade, sob grande risco.

Nas paróquias de Plaquemines e Terrebonne, as autoridades disseram que estavam particularmente preocupadas com os pescadores comerciais que decidiram permanecer em seus barcos.

"Minha maior preocupação é com a perda de vidas", disse o senador estadual Walter Boasso. "Nós temos muitas pessoas ali que se esconderam em seus sótãos, e não sei se conseguiremos chegar até elas rápido o bastante."

No Mississippi, Barbour disse que muitas pessoas sofriam do que chamou de "fadiga do furacão", optando por não evacuar desta vez após tê-lo feito no passado, apenas para serem poupadas.

"Nós rezamos para que tais pessoas estejam bem", disse ele. "Mas nós não sabemos."

Em Diamondhead, Mississippi, Don Haller e seu filho de 17 anos, Don Jr., estavam se agarrando aos escombros de sua casa quando uma onda de 7 metros a atingiu, flexionando o telhado como um maço de baralho.

Eles optaram por não evacuar, disse Haller, julgando a tempestade como sendo "apenas muita chuva". "Nós montamos na casa", disse Haller, deixando as águas daqui, com seu filho carregando o cão bassê deles, Kuddles.

Barbour disse que os cassinos ao longo da costa, perto de Biloxi e Gulfport, foram atingidos por ondas de mais de 6 metros. Mas os funcionários dos cassinos não puderam chegar até eles para avaliar os estragos, disse ele, porque a Rodovia 90 foi "basicamente destruída".

Ao longo da costa em Mobile, Alabama, a 210 quilômetros a leste de Nova Orleans, milhares de refugiados do Mississippi e da Louisiana lotavam os abrigos e hotéis que permaneciam abertos.

As áreas mais baixas dos condados de Mobile e Baldwin no Alabama foram evacuadas na noite de domingo. Ao meio-dia, as áreas ao sul da Interestadual 10 já estavam inundadas, e a tempestade estava levando as águas na direção da cidade de Mobile e Mobile Bay enquanto o furacão avançava.

O centro de Mobile, que fica bem na baía, foi severamente inundado na tarde de segunda-feira, com as águas avançando pelas ruas principais da cidade, ao redor do tribunal local, e batendo contra as portas protegidas com sacos de areia do Museu de Mobile. A água praticamente cobriu várias placas de ruas e parquímetros, e jardineiras grandes e pesadas e algumas caixas de jornais boiavam nas ruas.

Os principais hotéis da cidade ficavam a um quarteirão ou dois da área de pior inundação, provocando a preocupação de também terem sido inundados, pelo menos os andares mais baixos. E com a falta de energia elétrica e serviço telefônico, os refugiados estavam ficando intranqüilos.

Paul Weir disse que não deixava sua casa em Meraux, Louisiana, nos arredores de Nova Orleans, por causa de uma tempestade desde o furacão Betsy, em 1965, e que só partiu na manhã de domingo depois de ouvir que o Katrina era de categoria 5.

Ele partiu com sua esposa, filha e quatro amigos para Mobile; com as estradas congestionadas com outros moradores em fuga, a viagem de carro, que normalmente levaria três horas, levava 12. Na tarde de segunda-feira, a família estava preocupada com o que encontrará ao chegar em casa.

"Se eu estivesse em casa, eu certamente ficaria no telhado por dois dias como todo mundo", disse Susan Weir, a esposa de Paul. "Eu preferia estar naquela situação do que aqui, honestamente. Isto é caro e só tenho um cartão de crédito com limite de US$ 2 mil."

No Ramada Hotel no centro de Mobile, Edith Frieson estava sentada ansiosamente em um sala encharcada se perguntando o motivo do marido ainda não ter voltado. "Ele saiu há três horas para ver se conseguiu checar a casa", disse Freison, que mora em Dauphin Island, uma pequena ilha ao sul de Mobile. A ilha já tinha sido inundada na tarde de domingo.

Como a maioria dos furacões, o Katrina enfraqueceu assim que entrou no continente, e no início da noite, o Centro Nacional de Furacões reduziu sua classificação para tempestade tropical. O centro da tempestade deslocou suas chuvas pesadas para Jackson, Mississippi.

Mas as autoridades estaduais disseram que o furacão foi uma tempestade incomumente grande, deixando uma área extensa de danos, que esperam que precisarão de dias, talvez semanas, para lidar.

Na Louisiana, Blanco implorou aos moradores que partiram para não terem pressa para voltar. "As estradas estão inundadas, não há energia, os telefones estão inoperantes e não há água nem comida, e muitas árvores caíram."

"Onde quer que você more, ainda está perigoso demais para as pessoas voltarem para casa", disse ela. "Se você partiu e está em um abrigo, se você está com parentes e amigos, por favor, por favor, fique onde está. Permaneça em segurança."

Michael D. Brown, diretor da administração federal de emergência, lembrou às pessoas que a maioria dos ferimentos causados por furacões ocorre depois que a tempestade passa. "Tenham cuidado", disse ele, ao lado da governadora na coletiva de imprensa.

"Não entre na água. Cuidado com os cabos de força caídos. Se você for usar uma motosserra, saiba como usar uma motosserra. Se você vai usar um gerador, saiba como operar o gerador. Tenha muito, muito cuidado. A tempestade ainda não acabou."

Brown também desencorajou agências de emergência e dos bombeiros de áreas de fora da tempestade a enviarem equipes a menos que seja solicitado.

Mesmo antes de o furacão atingir a área de Nova Orleans, a Agência Federal de Administração de Emergência posicionou 23 de suas equipes de assistência médica a desastres e sete equipes de busca e resgate por toda a região. Ela também distribuiu geradores e estoques de água, gelo e refeições prontas. Ela até mesmo enviou duas equipes de veterinários, para prestar atendimento a animais de estimação feridos e outros animais.

Na manhã de segunda-feira, aproximadamente 52 mil pessoas estavam em 240 abrigos no Alabama, Mississippi, Louisiana, Flórida e Texas, com a maioria no Superdome em Nova Orleans.

*Kate Zernike contribuiu com reportagem em Montgomery, Alabama; Joseph B. Treaster em Nova Orleans; Abigail S. Goodnough em Mobile, Alabama; Michael M. Luo em Nova York; James C. Dao em Hattiesburg, Mississippi; Jeremy Alford em Baton Rouge, Louisiana; Ralph A. Blumenthal em Hammond, Louisiana; e Diane Allen em Diamondhead, Mississippi. Furacão obriga pelo menos 52 mil pessoas a fugirem de suas casas George El Khouri Andolfato

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