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30/08/2005

Paulo Coelho - o escritor de linguagem universal

The New York Times
Alan Riding

Em St. Martin, França
Soltando um grito de prazer, Paulo Coelho chamou o visitante para ler uma mensagem eletrônica anunciando que as vendas em francês de seu mais recente romance tinham excedido 320.000 exemplares, desde sua publicação em maio.

Alan Riding/The New York Times 
O romancista brasileiro já vendeu cerca de 65 milhões de exemplares em 59 idiomas
"Ganhei o dia", disse ele. "Eu esperava que ultrapassassem 300.000."

Bem, por que não? Todo autor quer que seus livros vendam bem.

Mesmo assim, de alguma forma, Coelho é diferente da maioria.

Com 58 anos, o autor brasileiro vendeu, nos últimos 18 anos, mais de 65 milhões de cópias de seus livros, em 59 idiomas, tornando-o um dos autores populares de maior sucesso do mundo. Cada novo livro, que ele escreve em português, envolve uma operação extraordinária de tradução, impressão, distribuição e marketing.

Depois, ao que parece, Coelho relaxa e contabiliza as vendas. A chave que abriu esse mundo de sonho dos escritores foi "O Alquimista", uma fábula de inspiração sobre um pastor espanhol quando criança. Ele viaja para as pirâmides do Egito em busca de um tesouro e, em vez disso, encontra sua "lenda pessoal" ou destino. Coelho disse que até agora esse título, primeiramente publicado no Brasil em 1988, vendeu perto de 27 milhões de cópias em todo o mundo, inclusive 2,2 milhões nos EUA.

Atualmente, entretanto, a atenção de Coelho está voltada para seu novo romance semi-autobiográfico, "O Zahir", que já superou a lista dos mais vendidos em muitos países e será publicado nos EUA em setembro, pela HarperColins. Até agora, "O Alquimista" (HarperSanFrancisco, 1993) foi seu único sucesso nos EUA, e Coelho espera que "O Zahir" recupere sua posição no país.

"Nos EUA, não sou o mesmo que na França, Espanha ou Alemanha", disse ele em uma longa conversa na sala de jantar de vidro, que deixa ver o jardim de sua casa confortável, mas simples, nos Pireneus. "Nunca rompi a barreira da imprensa. Nos EUA, sou um grande sucesso, mas não uma celebridade."

Apesar de sua fama, Coelho, de porte esbelto e cavanhaque, não vive como uma celebridade. Ele passa a metade do ano no Rio de Janeiro, sua cidade natal, mas é nesta pequena aldeia que diz se sentir mais a vontade. Quando não está escrevendo, ele corta a grama, pratica arco e flecha, lê e se mantém em contato com o mundo eletronicamente.

"Tenho 500 canais de televisão e moro em uma aldeia que não tem padaria", disse ele rindo. O que o trouxe aqui, porém, não foi o apelo bucólico da França rural, mas sim o fato de St. Martin ficar a apenas 16 km do templo da Virgem Maria de Lurdes.

"Sou católico", disse ele, "não tão comprometido com a igreja, mas com a idéia da Virgem, a face feminina de Deus. Desde 1992 que passo todas as noites de Ano Novo em Lurdes. Também passo a hora do meu nascimento na caverna. É um lugar com significado para mim."

Não que Coelho seja um autor católico romano. De fato, com suas descrições de viagens interiores e buscas espirituais genéricas, muitos de seus livros tocaram leitores em países com culturas e crenças tão diferentes quanto Egito e Israel, Índia e Japão. Sua explicação?
"Sei que temos as mesmas perguntas", disse ele. "Mas não temos as mesmas respostas."

A jornada do próprio Coelho não foi sem incidentes. Sua adolescência rebelde levou seus pais a enviarem-no a um hospital psiquiátrico em três ocasiões. No início dos anos 70, vivia como hippie, dedicado ao "sexo, drogas e rock'n'roll", em suas próprias palavras. Então, escreveu letras de canções de protesto que levaram o governo militar a prendê-lo três vezes. Mais tarde, trabalhou na indústria fonográfica --até ser demitido.

Com 36 anos, decidiu seguir o caminho medieval dos peregrinos para Santiago de Compostela, no noroeste da Espanha. Isso resultou em seu primeiro livro, "O Diário de um Mago", que, apesar de mal ter sido notado no Brasil na época, persuadiu-o não só a se dedicar a escrever, mas também a buscar significado em sua vida. Seu segundo livro, "O Alquimista", também vendeu lentamente, até se tornar o sucesso de vendas na França no início dos anos 90 --e depois no mundo.

Coelho diz que a busca continua até hoje, porém.

"Cada livro é um pouco mais sobre mim", explica. "O que me surpreende é quando sou chamado de autor espiritual. Para mim, a busca pela felicidade é uma mentira, como se houvesse um ponto em que tudo mudasse, e você se tornasse sábio. Acredito que a iluminação e a revelação vêm na vida diária. Procuro alegria, a paz da ação. Precisamos de ação. Teria parado de escrever anos atrás se fosse pelo dinheiro."

No "Zahir", ele escreveu sobre um escritor, pois conhece o assunto, disse ele. Acontece que esse autor, que conta a história na primeira pessoa, também é imensamente bem sucedido; seus livros são sucessos mundiais e, como os livros de Coelho, são ocasionalmente destruídos por críticos literários, mas sustentados por leitores leais. A história, porém, não é a de Coelho.

Na narrativa, a mulher jornalista do autor, Esther, decide se tornar correspondente de guerra, depois desaparece misteriosamente. Eventualmente, ele encontra um jovem místico do Cazaquistão, chamado Mikhail, que parece conhecer o paradeiro de Esther, mas insiste que o autor precisa se conhecer melhor para se reunir a ela. Depois de uma série de aventuras e sinais, o autor vai para o Cazaquistão.

"O Zahir", conceito árabe emprestado de um conto de Jorge Luis Borges, é descrito por Coelho como um pensamento ou uma idéia que gradualmente se torna uma obsessão. No livro, o "Zahir" do narrador é a Esther desaparecida.

"Tem muito de mim no livro", disse Coelho, apesar de observar que está casado com a artista Christina Oiticica, há 26 anos. "Mas o personagem é mais egoísta. Também sou egoísta, mas não da mesma forma. Esse sujeito é bem sucedido, tem tudo, mas sua mulher o deixou. O valor mais importante --o amor-- está faltando. O que está errado com essa instituição chamada 'casamento'? O que está errado com essa instituição chamada 'busca pela felicidade'?"

Como acontece com os livros de Coelho freqüentemente, inclusive com outros sucessos de vendas como "Veronika Decide Morrer" e "Onze Minutos", as críticas de "O Zahir" vão da admiração ao insulto, sendo que as mais duras vêm dos que acreditam que Coelho posa de guru.

"Eu nunca digo que sou um guru", insistiu. "Essa pessoa não existe. Os leitores só querem saber se eu tenho as mesmas perguntas que eles. Mas se eu desse uma resposta, eles logo iam ver que era falsa. Muitos leitores me enviam mensagens dizendo que suas vidas mudaram. Mas eu não mudei essas pessoas. Tudo estava pronto. Talvez o livro as tenha mudado."

Quanto às críticas, ele diz ser estóico.

"Ninguém vai mudar a forma como escrevo", disse ele. "Borges disse que há apenas quatro histórias para se contar: uma história de amor entre duas pessoas, uma história de amor entre três pessoas, a luta pelo poder e a viagem. Todos nós autores escrevemos essas mesmas histórias ad infinitum."

"Mas a única coisa que não suporto", prosseguiu, "é a crítica ao leitor, que o leitor é burro. Você pode falar mal de mim, dos meus livros, mas não pode falar mal do leitor. É como dizer: 'Todo mundo é burro; menos o crítico'. Isso não é justo."

Outros destaques:

Autor brasileiro diz não tolerar que chamem seus leitores de burros Deborah Weinberg

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