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31/08/2005

Documentário de Scorsese mostra Bob Dylan como o astro que confundiu uma geração

The New York Times
Jon Pareles

Em Nova York
Já houve algum astro do rock tão contrário quanto Bob Dylan? Quando considerado um cantor folk, um intérprete de canções tradicionais, ele começou a compor suas próprias.

Quando considerado um compositor de canções de protesto, zelosamente colocando sua música em prol de mensagens partidárias, e elogiado como o porta-voz de uma geração, ele se tornou um poeta visionário, ambíguo. E quando considerado um trovador que supostamente deveria se agarrar aos antigos e virtuosos sons rurais, ele plugou sua guitarra, contratou uma banda e cantou com escárnio blues elétricos oraculares.

Esta é a história contada em dois projetos que se completam: o CD duplo "No Direction Home: The Soundtrack - The Bootleg Series Vol. 7" (Columbia/Legacy), lançado nesta terça-feira (30/08), e "No Direction Home", um documentário dirigido por Martin Scorsese que será lançado em DVD duplo em 20 de setembro e será exibido como parte da série "American Masters" da PBS, em 26 e 27 de setembro. (Apesar de o CD ser chamado de trilha sonora, versões de algumas canções diferem no álbum e no filme.)

Os CDs e o documentário acompanham Dylan desde seus primeiros anos até seu acidente de moto em julho 1966, e ambos se concentram em duas de suas metamorfoses no início dos anos 60: de violeiro do Meio-Oeste a ídolo folk de Greenwich Village, e então, de forma bem mais contenciosa, de cantor folk a roqueiro.

Nem o álbum e nem o documentário revisam significativamente a história de Dylan. O fundo como sempre é a turbulência dos anos 60.

Aqui, novamente, estão os fervorosos, bem-intencionados e musicalmente puritanos folkies de Greenwich Village: apaixonados pelas canções e sons tradicionais que acreditavam piamente no casamento de canções folk e propaganda política, sempre se engalfinhando com a autenticidade e tentando ser populistas apesar de desdenhar a música e a cultura pop.

E lá está novamente Dylan: descartando repetidamente seu passado, misturando canções e estilos, trocando mensagens simples por oblíquas, surrupiando e transformando.

No filme, ele acertadamente chama a si mesmo de "expedicionário musical". Tony Glover, que gravou o jovem Dylan em Minnesota, também está certo ao chamá-lo de "uma esponja". Há crueldade na forma como Dylan encontra fontes, as utiliza e segue em frente: a crueldade do melhor instinto do artista.

O documentário usa extensas entrevistas com Dylan --falando tão francamente e de guarda baixa como nunca, com pitadas de humor-- e com testemunhas da época que nem sempre concordam. Ele também desenterra imagens não utilizadas de cineastas que estavam presentes nas aparições de Dylan nos Newport Folk Festivals, solo e elétrico, e em suas turnês pela Europa.

Em 1965, ele era um violeiro solo (que já tinha gravado "Maggie's Farm" e "Subterranean Homesick Blues") documentado como um jovem astro arrogante em "Don't Look Back" de D.A. Pennebaker, insistindo veementemente que não era um cantor folk. Em 1966, ele voltou à Europa acompanhado pelos Hawks (que se tornariam The Band) e foi enormemente vaiado.

Um filme de arte, filmado de forma difusa, "Eat the Document", foi feito na turnê de 1966, editado de forma incoerente com participação de Dylan e rejeitado pela rede de TV ABC; ele tem sido exibido em raras ocasiões (e pirateado) desde 1972.

Mas na segunda metade de "No Direction Home", Scorsese usa as filmagens de 1966 para concentrar a tensão e o absurdo da turnê, na qual Dylan enfrentou uma mistura acalorada de amor e ódio que nenhum outro músico poderia provocar.

É um período que Dylan pula totalmente em seu livro de memórias de 2004, "Crônicas, Volume 1", e um que produziu, em um turbilhão de gravações e turnês, seus três álbuns mais cruciais: "Bringing It All Back Home", "Highway 61 Revisited" e "Blonde on Blonde".

O documentário de Scorsese acompanha Dylan como artista de palco, oferecendo às platéias (e jornalistas pasmos) uma grandeza incompreendida. O álbum passa para dentro do estúdio, com nove "outtakes" de canções clássicas juntamente com três versões ao vivo. (A apresentação incendiária de Dylan e dos Hawks em 1966, no Manchester Town Hall, foi lançada como parte da Bootleg Series em 1998.)

Há alguma evidência adicional de que Dylan sempre foi, por falta de uma palavra melhor, um impurista. O álbum inclui sua gravação mais antiga conhecida: "When I Got Troubles" de 1959, com um Bobby Zimmerman de 17 anos e seu violão registrados por um gravador de um amigo de colégio.

A canção é um blues que aconselha, "sacuda para fora seus problemas", mas seu verso folk leva a uma parada tirada direto de Elvis Presley. No documentário, um vislumbre do anuário da escola mostra sua ambição declarada: acompanhar Little Richard.

Então ele foi arrebatado pela estranheza das canções folk, pela poesia dos beats e pela convicção sem rodeios de Woody Guthrie, e pegou carona até Nova York.

Em Greenwich Village, ele era uma pessoa que aprendia rápido e, a princípio, o protegido de todos: Guthrie, Pete Seeger, Odetta, Dave Van Ronk, Joan Baez. O primeiro CD, com versões ao vivo e alternativas dos anos folk de Dylan, está cheio de canções sobre seguir em frente: "Rambler, Gambler", "I Was Young When I Left Home" e a sua própria "Don't Think Twice, It's All Right" (uma versão demo, já completada, gravada para a editora da canção).

Do repertório de canções dos cantores folk, "This Land Is Your Land" é tratada como uma reflexão de viajante em vez de um cantarolar, e ele grunhe "Dink's Song" (registrada meio século antes pelo folclorista John A. Lomax) como se o sofrimento do narrador fosse o seu próprio. Comparado a alguns dos cantores folks cheios de floreios exibidos no documentário, ele passa a imagem de naturalidade.

Então, repentinamente, ele não precisa de mentores. "O que fiz para escapar foi pegar variações folk simples e colocar novas imagens e atitudes nelas, usar frases de efeito e metáforas combinadas com um novo conjunto de práticas que evoluíram em algo diferente e que não tinha sido ouvido antes", ele escreveu em "Crônicas".

Canções de protesto

No álbum, o apontar de dedo e as reflexões morais de "Blowin' in the Wind" e "Masters of War", cantadas com honestidade nas apresentações no Town Hall em Manhattan, dão espaço à cascata de imagens de "A Hard Rain's A-Gonna Fall" e "Chimes of Freedom".

Dylan já estava confundindo as expectativas: o documentário o mostra em uma "oficina de canção de protesto" no Newport Folk Festival tocando "Tambourine Man", quando parte da platéia parece se perguntar contra o que exatamente a canção supostamente está protestando.

Em outros clipes, Dylan diz aos entrevistadores que não é um compositor de canções de protesto. Ao aceitar um prêmio de liberdades civis em 1963, ele chamou a política de "trivial".

Não havia confrontos enquanto ele tocava violão. Mas na famosa apresentação de 1965 no Newport Folk Festival, ele trouxe consigo ao palco a Paul Butterfield Blues Band e causou pandemônio. Os folkies entrevistados no documentário ainda não sabem o que os atropelou; eles reclamam de que não conseguiam entender as letras, ou que era barulhento demais, ou era distorcido, e lembram de Pete Seeger ter tentado ou não cortar o cabo de som. (Ele diz que não.)

Dylan deve ter previsto tudo: a canção que ele escolheu foi "Maggie's Farm": "Eu tento ao máximo ser apenas como sou/ Mas todos querem que você seja como eles". Tal apresentação está no álbum, em uma mixagem de mesa de som que limpa toda a rebarba sonora e, sem o barulho do público, provavelmente soa mais claro do que qualquer um possa ter ouvido na época.

Os outtakes de estúdio do álbum de "Bringing It All Back Home", "Highway 61 Revisited" e "Blonde on Blonde" são bons, com a banda já no ponto e Dylan ainda brincando com as letras. Bons mas não ótimos: é fascinante ouvi-lo se aproximando do que deseja. Os takes finais são melhores, apesar da versão alternativa de "She Belongs to Me" --mais suave e mais afetuosa-- chegar bem perto.

As versões dos álbuns originais tinham mais camadas de ironia e emoção e, especialmente, humor; elas também adicionam roll ao rock da música. "It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry" passaria de um blues para cima (em "No Direction Home") para um blues arrastado e estranhamente cômico (em "Highway 61 Revisited"). "Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again" é resoluta, pressagiando canções do The Band como "The Weight"; ela ganharia animação com uma cadência mais marota.

"Desolation Row" ganharia mais gravidade e amargura; em "Tombstone Blues" a versão alternativa experimentou uma harmonia vocal country.

"Visions of Johanna"ganharia uma batida mais simples que abriria espaço para mais nuance vocal, enquanto "Leopard-Skin Pill-Box Hat" aceleraria e ganharia animação. "Highway 61 Revisited" já tinha seus floreios de piano elétrico, mas a versão final adicionaria o histérico apito de sirene.

O filme mostra o que aconteceu com as canções e o compositor na estrada.

Entre 1965 e 1966, a última gordura de bebê de Dylan desapareceu. Em parte devido às anfetaminas que o documentário não menciona, ele estava magro, com suas roupas Mod e penteado explosivo. Ele parecia um ícone puro, ornado com uma auréola de contraluz. A turnê de 1966, como Scorsese a reconstrói, foi um borrão de adulação de astro pop, platéias polarizadas e coletivas de imprensa vazias: "Todas as minhas canções são canções de protesto, cada uma delas", zombava Dylan.

Um músico lembra que as platéias cantavam junto o sucesso de Dylan, "Like a Rolling Stone", e então voltavam a vaiar suas outras canções elétricas. Fora do palco, Dylan diz sarcasticamente: "Não me vaiem mais; eu não agüento!" e então se perguntava: "Garotos, como eles conseguem comprar os ingressos tão rápido?"

As vaias não o detinham, apesar de ele gradativamente ficar visivelmente esgotado. No álbum, Dylan e os Hawks --cujos pequenos acréscimos entre os vocais são tão engraçados quanto as letras-- apresentam interpretações corrosivas de "Ballad of a Thin Man" e uma mordaz e apoteótica "Like a Rolling Stone", após um fã gritar "Judas!" (Esta também está presente em um álbum anterior da Bootleg Series.)

Diferente da grande maioria dos entertainers, Dylan não se dedicava a agradar o público. Ele não lhes dava o que queriam: ele lhes dava algo melhor. Tudo teria conseqüências sobre ele, e rapidamente, então quando o acidente de moto lhe deu um motivo para se retirar, ele aproveitou. Mas "No Direction Home" pára aí. Diferente de Dylan, naqueles breves e notáveis anos, o negativismo o ajudou a superar. Filme prova que o talento do cantor não cabe em rótulos musicais George El Khouri Andolfato

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