UOL Notícias Internacional
 

31/08/2005

Furacão Katrina acrescentou o medo à frivolidade e ao fatalismo de Nova Orleans

The New York Times
Peter Applebome

Em Nova Orleans, Louisiana
Após o furacão Andrew ter ameaçado a cidade em 1992 e, depois, de alguma maneira, ter se desviado, daquele jeito que parece típico das tempestades, a gerente de uma confeitaria no French Quarter refletiu sobre a mistura de fatalismo e de bravata que sempre esteve presente no coração de Nova Orleans.

Vincent Laforet/The New York Times 
Águas do rio Mississippi rompem dique e avançam rapidamente na cidade de Nova Orleans

"Vivemos na crença de que algum dia o grande furacão vai nos pegar", disse Patricia McDonald Gómez, gerente da confeitaria Aunt Sally's Original Creole Pralines, quando a festa recomeçou, como sempre acontece na Rua Bourbon.

"Somos quase fatalistas, o que é parte do motivo pelo qual Nova Orleans possui aquela mistura de frivolidade e fatalismo. É o que o fato de morar em uma tigela de sopa faz com as pessoas, assim como ocorria com os romanos, que dançavam enquanto Nero tocava harpa e a cidade ardia".

Mas agora parece que, após incontáveis alarmes falsos, o grande furacão atingiu a cidade, deixando os moradores de Nova Orleans apavorados, atônitos, arfantes e mudos.

Com ondas se quebrando na Rua Canal, a água fluindo através de diques rompidos e 80% da cidade sob as águas, a sobrevivência, e não a reconstrução, é agora a ordem do dia. Mas no fundo de suas mentes, as pessoas que amam Nova Orleans se perguntam o que restará física e psicologicamente daquela que talvez seja a cidade mais diferenciada dos Estados Unidos quando a água finalmente baixar e --daqui a dias, semanas, meses-- alguma aparência de vida normal se esforçar para ressurgir.

Assim, o ex-prefeito Marc Morial, atualmente diretor da Liga Urbana e morador de Nova York, interrompe a todo momento uma conversa telefônica e respira profundamente, sem poder acreditar nas imagens da inundação mostradas pela TV, para depois fazer o possível para se concentrar na tarefa que há pela frente.

"É claro que vamos reconstruir", afirma. "Mas o que faz de Nova Orleans uma cidade única é a sua natureza poliglota, a tapeçaria, o mosaico o gumbo. Por isso, o French Quarter é alvo da maior parte da atenção, mas o Quarter é alimentado pelas artérias dos bairros vizinhos".

Ele faz uma pausa e, novamente, respira profundamente, quando a tela mostra imagens da inundação do bairro pobre 9th Ward. "Ah, meu Deus. Ah, meu Deus. Estamos presenciando o pior desastre natural na história norte-americana".

Não ficou sem resposta a questão de como reconstruir o French Quarter. Mas não se sabe como reconstruir Stella, Blanche e Stanley, a cidade que, segundo William Faulkner, era "o labirinto maciço de oleandros e jasmins, lantanas e mimosas", um local que, segundo um admirador, "poderia destruir o seu fígado e envenenar o seu sangue", a cidade das mansões italianizadas do Distrito dos Jardins e dos abundantes projetos habitacionais, como aquele onde hoje em dia chega o bonde chamado Desejo.

Uma região que deu aos Estados Unidos a maior parte da sua música, grande parcela de sua literatura, uma visão de espelho quebrado da faceta exótica norte-americana e uma substancial porção da alma do país.

"A Grande Babilônia surgiu à minha frente", disse, trêmula, Rachel, a mulher de Andrew Jackson [presidente americano entre 1829 e 1836], ao se deparar com Nova Orleans um século e meio atrás. "Ah, a malícia, a idolatria deste lugar".

Na verdade, a malícia há muito está bastante domesticada, conforme atestam a magia negra teatral, as garotas dos clubes universitários mostrando rapidamente os seios nas varandas e as stripteasers de olhar triste assediadas pelos bêbados dos bares decrépitos da Rua Bourbon.

E as pessoas têm previsto a lenta e inevitável desbabilonização de Nova Orleans durante décadas, concluindo ser inevitável que a cidade se transforme em um local como qualquer outro.

Mas tal transformação nunca aconteceu de fato. Morial diz que isso é, em parte, uma conseqüência da identidade de Nova Orleans como uma cidade de nativos, que compõem 70% ou 80% da população total. E é também em parte função do seu clima empresarial atávico; de gente que olha para os recém-chegados com suspeição.

O gene do espírito agressivo que definiu cidades como Dallas ou Atlanta passou por Nova Orleans quando a cidade estava no seu apogeu, sem, entretanto, fincar raízes na cidade. E isso se deve, também, à geografia, à orgulhosa cultura insular resultante daquilo que o acadêmico Pierce Lewis descreveu como sendo "uma cidade inevitável em um sítio impossível".

Assim, tanto quanto as ostras do Felix's ou as dançarinas de rua da Jackson Square, o que definiu Nova Orleans foi a natureza --a camada sufocante de ar úmido, as chuvas torrenciais. O humorista Roy Blount Jr. escreveu certa vez: "A gente espera ver jacarés saltando pelas ruas". E, acima de tudo, a massa d'água de dimensões quase oceânicas, do Rio Mississipi e do Lago Pontchartrain, que cobre 1.550 km².

Tal localização se constituiu em ponto natural para o assentamento humano, um lugar que atraiu colonos de todas as culturas, que passaram pela cidade, e a deixaram em um local tão precário que o desastre desta semana sempre pareceu ser quase inevitável.

Morial diz que os planejadores da cidade dispensaram toda a atenção possível ao problema dos furacões e cita como as autoridades mudaram a maneira de lidar com tais catástrofes, trocando os abrigos pelos planos de evacuação, algo que, segundo ele, pode ter desempenhado um papel incalculável na redução das fatalidades causadas pela tempestade.

Quanto à negação psicológica, ele observa que outros locais enfrentam terremotos e inundações, e o povo de Nova Orleans sempre avaliou as probabilidades e concluiu que morar à mercê da natureza em uma cidade tão encantadora compensava o risco.

"As pessoas sempre pensaram na possibilidade de serem atingidas por um grande furacão, mas não sabiam se as chances eram de uma em cem, uma em mil, uma em dez mil ou uma em cem mil", explica. "Elas aprenderam a conviver com essa incerteza e agora estão tendo que lidar com o problema".

Até mesmo aqueles que sobreviveram à tempestade com prejuízos administráveis estão se perguntando o que acontecerá a seguir.

Henry Armand Austan, um fotógrafo de 61 anos, disse que escolheu a sua casa no bairro de Carrolton porque aquela é uma das regiões mais elevadas da cidade.

Na noite de terça-feira ele estava sem energia elétrica, mas tinha gás e água encanados. As bananeiras do seu quintal foram derrubadas. Um grupo de gatos famintos rondava a moradia. E, perto dali, ele podia ver saqueadores levando as mercadorias de uma loja. A sua noiva, cujo telefone celular ficou sem bateria, está ilhada no estádio Louisiana Superdome. Os mais de 30 centímetros de água que havia em frente à sua casa um dia atrás foram drenados para as galerias pluviais em pontos mais baixos.

"Tínhamos uma boa temporada turística em andamento, mas se este lugar ficar fechado por seis meses, pode abandonar qualquer esperança", afirma ele. "Se eles não voltarem, não sei o que vai acontecer. Esta é uma cidade pobre, cujo sistema educacional é ruim. A face empresarial dos Estados Unidos não quer instalar seus negócios em um local que pode ficar inundado com tanta freqüência. Acho que não contamos com muitas recomendações favoráveis".

Alguns temem que a cidade que emergir da enchente será finalmente transformada em um parque temático --com o brilho da Rua Bourbon, mas sem o caráter forte que atualmente a rodeia.

Mas há uma sensação de que, como o rio, existe algo de imutável em Nova Orleans. Como disse certa vez o patriarca do jazz Ellis Marsalis: "Vocês sabem, não creio que Nova Orleans jamais mudará, porque não acredito que, no esquema do mundo, ela esteja destinada a mudar".

Essa previsão será testada agora mais do que nunca, mas Morial diz confiar em que a cidade poderá ser reconstruída e se recuperar.

"Ouvi várias pessoas, e todas dizem a mesma coisa", explica Morial. "Primeiro eles perguntam se a sua mãe está bem. Depois dizem que precisamos fazer algo para ajudar. Muita gente perdeu tudo o que tinha, mas existe uma grande disposição para retirar os destroços e reconstruir". Cidade mítica, multicultural e avessa aos negócios teme pelo futuro Danilo Fonseca

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