UOL Notícias Internacional
 

31/08/2005

Katrina deixa rastro de devastação com enchente

The New York Times
Joseph B. Treaster e N.R. Kleinfield*

Em Nova Orleans, Louisiana
Nesta terça-feira (30/08), um dia depois de Nova Orleans ter pensado que tinha escapado por pouco do pior da fúria do furacão Katrina, a água rompeu duas barragens e virtualmente submergiu e isolou a cidade, causando uma destruição incalculável e a deixando inabitável pelas próximas semanas. Com pontes arrastadas, ruas e avenidas transformadas em canais e linhas de força e comunicação inoperantes, as autoridades do governo ordenaram que todos permanecessem longe da cidade e começaram a planejar a evacuação do Superdome, onde cerca de 10 mil refugiados estão amontoados em condições cada vez piores, sem água e alimento e com a elevação das águas ameaçando os geradores.

Vincent Laforet/The New York Times 
Pelo menos 80% da cidade de Nova Orleans está debaixo d'água; reconstrução levará meses

A situação era tão terrível que o Pentágono ordenou no final do dia que seis navios da Marinha e oito equipes de resgate marítimo da Marinha se dirigissem para a Costa do Golfo para auxiliar nas operações de ajuda. Ele também planeja mandar equipes de resgate com lanchas da Califórnia.

Com a elevação das águas e a enorme devastação atrapalhando os esforços de resgate e recuperação, as autoridades só podem imaginar o número de mortos na cidade e por toda a Costa do Golfo. Somente no Mississippi, as autoridades aumentaram o número oficial de mortos para no mínimo 100.

"Parece Hiroshima, é o que parece", disse o governador Haley Barbour, republicano, descrevendo partes de Harrison County, no Mississippi. Por toda a região as equipes de resgate nem mesmo tentavam reunir e contar os mortos, disseram as autoridades, mas os deixando de lado por ora enquanto lutam para encontrar sobreviventes.

À medida que a amplitude da devastação ficava clara na terça-feira, o presidente Bush encerrou suas férias de verão de um mês e voltou para Washington, onde se reunirá na quarta-feira com uma força-tarefa criada para coordenar os esforços de 14 agências federais que estarão envolvidas na resposta ao desastre.

A amplitude do desastre pegou a cidade de surpresa. O certo senso de alívio que foi sentido na tarde de segunda-feira, após o olho da tempestade ter passado a leste de Nova Orleans, provou ser cruelmente ilusório, à medida que as autoridades e moradores despertaram na terça-feira diante de um resultado mais horrível do que tinham previsto. Ray Nagin, prefeito de Nova Orleans, lamentou o fato da cidade ter evitado o pior cenário possível na segunda-feira, quando o Katrina passou ao leste da cidade, mas se deparando na terça-feira com "o segundo pior cenário".

Não foi a água do céu, mas a água que rompeu as barragens protetoras da cidade que mudaram tudo para pior em Nova Orleans. A cidade, com uma população de quase 500 mil habitantes, é protegida do Rio Mississippi e do Lago Pontchartrain por barragens. Ao norte do centro de Nova Orleans, fendas nas barragens despejaram águas lamacentas do Lago Pontchartrain na cidade.

Ruas que estavam basicamente secas nas horas que se seguiram à passagem do furacão estavam inundadas na manhã de terça-feira. Mesmo áreas do centro que ficam em terrenos mais elevados foram inundadas.

Nagin disse que uma fenda tinha dois a três blocos de comprimento, e que a Agência Federal de Administração de Emergência estava colocando sacos de areia de 1.300 quilos na abertura com helicópteros, assim como contêineres cheios de areia, para tentar deter as águas. As autoridades disseram que acham que podem reforçar as barragens e conter as águas em um período relativamente curto de tempo.

O prefeito estimou que cerca de 80% da cidade, que está abaixo do nível do mar, ficou submersa, com as águas chegando até 6 metros de profundidade. A administração municipal se reagrupou em Baton Rouge, cidade próxima de Nova Orleans e capital do Estado da Louisiana.

Na noite de terça-feira, o coronel Terry Ebbert, o diretor de segurança doméstica da cidade, disse que o escoamento das águas aumentou uma das fendas, dificultando ainda mais o trabalho.

Apesar de grande parte da população de Nova Orleans ter sido evacuada antes da chegada da tempestade, dezenas de milhares de pessoas optaram por permanecer na cidade, e os esforços para evacuá-las ainda estão em andamento. As autoridades estimam que milhares de moradores foram retirados de telhados, a poucos centímetros das águas que subiam.

"A magnitude da situação é insustentável", disse a governadora da Louisiana, Kathleen Babineaux Blanco, uma democrata. "É de partir o coração."

Saques ocorreram enquanto ladrões oportunistas limpavam as lojas abandonadas pela segunda noite. As autoridades disseram que em um incidente um policial foi gravemente ferido em uma troca de tiros. Ebbert disse: "Estes não são saques individuais, são grandes grupos armados de indivíduos".

As autoridades do Escritório de Segurança Interna da Louisiana confirmaram que as autoridades nos condados de Plaquemines e Jefferson tentaram impor lei marcial, que não é autorizada pela Constituição do Estado.

Com ventos uivantes de até 233 km/h, o Katrina entrou no continente no leste da Louisiana pouco depois das 6 horas da manhã de segunda-feira, como uma tempestade categoria 4, a segunda pior classificação, a qualificando como uma das mais severas a atingir os Estados Unidos.

Estimativas preliminares de danos por especialistas em seguro, na segunda-feira, variavam de US$ 9 bilhões a US$ 16 bilhões, mas foram revisadas para mais de US$ 25 bilhões na terça-feira. Isto poderá tornar o Katrina o furacão mais oneroso na história dos Estados Unidos, superando o furacão Andrew em 1992, com US$ 21 bilhões em perdas seguradas.

À medida que os estragos nas instalações de petróleo e gás no Golfo do México ficavam mais aparentes, os preços da energia dispararam até altas recordes. Especialistas previram que novos aumentos são prováveis.

A água da inundação ainda estavam subindo até 8 centímetros por hora em partes de Nova Orleans na noite de terça-feira. Em outras áreas, elas estavam começando a baixar. "Eu não quero alarmar ninguém dizendo que Nova Orleans está enchendo como uma bacia", disse Michael Brown, diretor da Agência Federal de Administração de Emergência. "Isto não está acontecendo."

Mais de 10 mil pessoas continuavam isoladas e em dificuldades no Superdome, que estava sem energia e cercado por mais de 1 metro de água. Áreas do teto foram arrancadas pelos fortes ventos, e seu interior estava asfixiante sem ar-condicionado. Segundo relatos, os banheiros estavam alagados. Uma mulher com um bebê de 18 meses disse que sua última mamadeira estava quase vazia.

Durante o dia, mais sobreviventes foram deixados no Superdome pelas equipes de resgate, mas a falta de comida e energia, sem contar a água envolvendo as portas, tornavam a permanência deles ali perigosa.

Centenas de pacientes em estado crítico tiveram que ser evacuados do Charity Hospital e do Tulane University Hospital por causa da inundação. No Tulane, eles foram removidos de helicóptero do teto de um estacionamento. A equipe do jornal "Times-Picayune", que conseguiu publicar apenas a versão online de sua edição de terça-feira, foi forçada a fugir da redação.

A Guarda Costeira estimou que cerca de 1.200 pessoas foram resgatadas na segunda-feira e outras milhares na terça-feira. Os esforços foram atrapalhados pela falta de serviço de telefonia fixa e celular em grande parte da cidade.

Fornecer água e alimento à cidade era uma prioridade urgente. As autoridades disseram que só havia um meio de os veículos de emergência chegarem até partes da cidade para levar suprimentos.

"Nós estamos correndo contra o relógio em termos de possíveis feridos", disse Michael Chertoff, secretário do Departamento de Segurança Interna. "Nós estamos correndo contra o relógio em termos de doenças, e estamos correndo contra o relógio para lhes fornecer água e alimentos."

O furacão Katrina, que enfraqueceu para uma depressão tropical no fim da manhã de terça-feira, continuou avançando para os Estados vizinhos, apesar de não contar mais com seus dentes. Mas ele deixou sua marca em outras comunidades da Costa do Golfo. No Mississippi, Gulfport virtualmente desapareceu e Biloxi foi severamente destruída.

Vista do alto, Nova Orleans era um visão chocante de uma demolição completa. Vista de um helicóptero do xerife da paróquia de Jefferson, que transportava membros da Agência Federal de Administração de Emergência, vastos trechos da cidade lembravam uma comunidade de casas flutuantes.

Bairros com vinte quarteirões estavam com águas chegando aos telhados de casas de três andares. Um grande prédio, o Galleria, teve a maioria, se não todas, suas 600 janelas destruídas pelos ventos impiedosos do Katrina.

As autoridades disseram que trechos da Interestadual 10, a principal artéria que passa pela cidade, foram levados pelas águas e que as partes restantes estavam desalinhadas, como se a estrada tivesse se transformado em um quebra-cabeça incompleto. Ela também foi destruída no Elevado do Lago Pontchartrain de 38 quilômetros, a maior ponte rodoviária sobre águas do mundo. Incêndios ocorreram em vários prédios, e centenas de milhares de pessoas estavam sem energia elétrica.

Uma mulher nadou de sua casa e então caminhou pela noite, na segunda-feira, para se abrigar em um bar 24 horas no bairro francês. Outra mulher deixou sua casa inundada mas não conseguiu convencer sua colega idosa a vir com ela. Sua colega de quarto insistiu: "Deus cuidará de mim".

Desastre acima de qualquer magnitude

As pessoas avançavam penosamente com água até a cintura, buscando saber o destino de suas casas. Equipes de resgate que estavam retirando pessoas dos telhados informaram ter visto corpos boiando nas águas. Nagin disse que enquanto sobrevoava a cidade, ele viu bolhas na água, o que parecia significar vazamentos de gás natural.

O prefeito estimou que serão necessárias uma ou duas semanas para que a água possa ser bombeada para fora da cidade, e duas a quatro semanas antes que a população possa ser autorizada a voltar à cidade. Outra autoridade municipal disse que levará dois meses para que as escolas possam ser reabertas.

Dezenas de milhares de pessoas precisarão de lares temporários por um período indeterminado. As autoridades estavam à procura de tudo, desde apartamentos para alugar e a colocação das pessoas em trailers até a criação de dormitórios flutuantes.

As paróquias vizinhas ao leste da cidade foram severamente atingidas. O presidente da Paróquia de Plaquemines, anunciou que a parte mais baixa da paróquia foi levada pelo rio. Saint Bernard ficou praticamente reduzida a telhados e água.

Em South Diamondhead, Mississippi, na Baía de Saint Louis, tudo o que restou de toda uma comunidade de 200 casas foram estacarias. Barcos estavam presos em árvores. "É, nós pegamos", disse Randy Keel, 46 anos. "Nós basicamente ficamos apenas com o que estávamos vestindo." Ele disse que todos estavam "caminhando ao redor como zumbis".

Alguns dos cassinos do Mississippi, que flutuavam em barcaças, foram arremessados a quase um quilômetro terra adentro pela tempestade. Uma plataforma de petróleo que estava no Golfo foi arrastada até quase cem metros de Dauphin Island, uma ilha no extremo sul de Mobile County, no Alabama. Grande parte da ilha ficou submersa.

Peter Teahen, o porta-voz nacional da Cruz Vermelha Americana, disse: "No momento estamos diante de um desastre acima de qualquer magnitude vista nos Estados Unidos. Nós temos dito que a resposta será a maior da Cruz Vermelha na história da organização".

Alguns resgates foram bizarros. As autoridades de Jefferson County disseram que tiveram que resgatar 200 assistentes de xerifes e suas famílias, que foram colocados em um hotel que ficou imerso em 3,5 metros a 4,5 metros de água. Enquanto as equipes de resgate enviavam barcos para salvá-los, elas avistaram um tubarão de 1 metro nadando agourentamente na via de acesso da Interestadual 10.

Mike Leavitt, o secretário de Saúde e Serviços Humanos, disse que ocorreram 11 casos relatados de envenenamento por monóxido de carbono, e duas mortes de pessoas que usavam geradores de eletricidade a gás.

*Com reportagem de Abby Goodnough, Kate Zernike e Shaila Dewan em Biloxi, Mississippi; Felicity Barringer em Houma, Louisiana; Ralph Blumenthal em Nova Orleans; Michael Luo em Nova York; Jeremy Alford em Baton Rouge, Louisiana; e Diane Allen em South Diamondhead, Mississippi. Cadáveres bóiam em Nova Orleans; 80% da cidade está submersa George El Khouri Andolfato

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