UOL Notícias Internacional
 

01/09/2005

Pânico em multidão mata ao menos 950 no Iraque

The New York Times
Robert F. Worth*

Em Bagdá
Mais de 950 pessoas morreram e centenas ficaram feridas na manhã da última quarta-feira (31/08), quando boatos de que havia um homem-bomba em meio a uma multidão de peregrinos xiitas que atravessavam uma ponte no norte do Iraque causou uma onda de pânico e tumulto.

Benjamin Lowy/The New York Times 
Iraquiano procura parentes entre cadáveres amontoados depois do tumulto em Bagdá
Segundo testemunhas, a maioria dos mortos foi esmagada ou sufocada, mas muitos também se afogaram após caírem ou pularem no Rio Tigre depois que a multidão em pânico rompeu as muretas de proteção da ponte. O desastre é de longe aquele em que houve a maior perda de vidas desde a invasão norte-americana do Iraque em março de 2003.

O medo começou a se espalhar pela multidão uma hora antes, depois que um grupo de insurgentes disparou foguetes e morteiros na proximidade do templo xiita de cúpulas douradas para onde os peregrinos se dirigiam, matando pelo menos sete pessoas e ferindo 24.

Os insurgentes já atacaram procissões religiosas xiitas em outras ocasiões. Mas o tumulto parece ter começado após a difusão de rumores infundados de que um homem usando um cinturão de explosivos estava na ponte.

Os peregrinos eram parte de um grupo de centenas de milhares de xiitas, a maioria pobre, do norte de Bagdá e áreas vizinhas, que convergiu para o templo levando faixas coloridas e caixões simbólicos para marcar o aniversário da morte do imame Musa al-Kazim, uma das figuras mais sagradas do islamismo xiita.

"Todos entoávamos frases sobre o imame Musa. Foi aí que as pessoas começaram a gritar que havia um homem-bomba na multidão", disse Waleed Hameed Andul al-Radha, deitado em uma maca no Hospital Kindi, com um ferimento no peito.

"Elas começaram a se empurrar. Ninguém olhava para trás ou estendia a mão para ajudar os que caíam. Elas começaram a passar por cima dos que estavam no chão, e todo mundo tentava salvar a própria pele".

Ao final do tumulto, enquanto alguns peregrinos davam continuidade à procissão, mulheres com túnicas pretas choravam sobre cadáveres nas ruas de Kazimiyah, o bairro xiita onde se situa o templo do imame al-Kazim. Na ponte, centenas de sandálias e sapatos das vítimas foram reunidos em grandes pilhas.

Os hospitais locais ficaram superlotados, os assoalhos apinhados de cadáveres, incluindo os de mulheres e crianças, alguns molhados com a água do rio. Parentes das vítimas entravam e saíam, alguns deles levantando os lençóis que cobriam as dezenas de corpos, até reconhecerem algum parente e entrarem em desespero.

Em alguns hospitais de Bagdá correram notícias de que alguns peregrinos morreram devido a um envenenamento em massa. Mas autoridades do Ministério da Saúde disseram que tal envenenamento não fora confirmado. Os muçulmanos xiitas acreditam que o imame al-Kazim foi envenenado por agentes de Harun al-Rashid, o califa sunita, no final do século 18, e essa história freqüentemente emerge no presente entre os peregrinos religiosos locais.

As autoridades iraquianas bloquearam as estradas para o tráfego de automóveis em todo o norte de Bagdá a partir da noite de terça-feira, a fim de prevenir ataques contra as centenas de milhares de xiitas que se dirigiam à capital.

A ponte onde ocorreu o episódio de pânico e tumulto se constitui em uma via de passagem especialmente frágil, ligando Kazimiyah a Azamiyah, uma área sunita que há muito tempo é um foco de apoio a Saddam Hussein e de insurgência.

O desastre ocorreu em um momento de elevadas tensões sectárias, quatro dias após uma nova minuta de constituição ter sido apresentada ao Parlamento iraquiano, gerando objeções furiosas dos parlamentares sunitas. Várias lideranças sunitas pediram aos eleitores que rejeitassem o documento no referendo nacional que ocorrerá em outubro, e houve manifestações de sunitas contra a minuta constitucional no centro e no norte do Iraque.

Também na quarta-feira, uma autoridade do Tribunal Especial Iraquiano anunciou que 19 de outubro será a data inicial para o julgamento de Saddam Hussein e de três dos seus principais assessores.

O julgamento, que será presidido por cinco juízes, poderá ser um acontecimento tão divisivo quanto o referendo constitucional, especialmente após várias manifestações recentes de árabes sunitas que entoaram frases expressando lealdade ao ex-presidente.

O primeiro-ministro Ibrahim al-Jaafari, um xiita, apareceu na televisão para declarar um período de luto nacional de três dias pelas vítimas da tragédia na ponte.

A figura religiosa xiita mais reverenciada do Iraque, o grande aiatolá Ali al-Sistani, divulgou uma declaração pedindo uma investigação e culpando os "terroristas" pelo tumulto. Outras personalidades xiitas também não hesitaram em culpar os insurgentes, como foi o caso do ministro do Interior, Bayan Jabr. Mas é muito cedo para dizer como os xiitas, que demonstraram uma notável contenção face aos ataques de insurgentes sunitas em ocasiões passadas, responderão ao episódio da quarta-feira.

Os líderes sunitas e curdos divulgaram declarações pedindo calma e enviando condolências às vítimas e às suas famílias. O líder do Partido Islâmico Iraquiano, o mais conhecido grupo político sunita, fez um apelo aos moradores sunitas de Azamiyah, pedindo a eles que ajudassem as vítimas do desastre.

Para alguns líderes iraquianos, o episódio se deve mais ao mau planejamento do que a agendas sectárias. O ministro da Saúde, o xiita Abdul Muqtalib Ari Muhammad, enviou uma nota furiosa aos ministros do Interior e da Defesa --um xiita e um sunita, respectivamente--, pedindo que eles assumissem total responsabilidade pelo desastre ou renunciassem.

Falando em uma entrevista coletiva à imprensa, ele disse que os ministros deveriam ter garantido melhor a segurança das estradas que levam ao templo.

Os ministros da Defesa e do Interior defenderam os preparativos feitos pelo governo em outras entrevistas à imprensa, alegando que as autoridades encheram a cidade de soldados e protegeram com sucesso os peregrinos dos carros-bomba.

O ministro da Defesa, o sunita Sadoun Dulaimi, acrescentou que, nos últimos dias, milhões de peregrinos xiitas viajaram até a capital sem nenhum incidente, passando pela área violenta no sul de Bagdá. Vários xiitas foram assassinados no ano passado por extremistas sunitas na área, conhecida como "triângulo da morte".

Sobreviventes do tumulto disseram que a peregrinação começou pacificamente na manhã de quarta-feira, com grandes multidões de xiitas que tocavam tambores, se autoflagelavam e cantavam músicas religiosas enquanto atravessavam os bairros do norte de Bagdá. Expectadores ofereciam água fresca e alimento aos peregrinos.

Então, aproximadamente às 8h, ouviram-se duas fortes explosões, contou Ali Abdul Zahra al-Saiedy, 51, funcionário público que mora em Sadr City, assim como muitos dos peregrinos.

"Eu estava próximo à Ponte Aimma, do lado de Azamiyah, quando ouvimos as explosões, e tudo se transformou em um caos, com pessoas correndo para todos os lados".

Do outro lado do rio, insurgentes haviam disparado morteiros e foguetes próximo ao complexo no qual se situa o templo do imame al-Kazim. Segundo oficiais das forças armadas dos Estados Unidos, pilotos de helicópteros de combate norte-americanos viram o ataque e dispararam contra os insurgentes. Tropas terrestres se dirigiram rapidamente para a área, e detiveram mais de dez suspeitos após encontrarem um tubo lançador de foguetes.

Pouco depois, peregrinos assustados começaram a passar pela Ponte Aimma, indo de encontro a grandes multidões que seguiam na direção oposta, rumo ao templo, disse Saiedy.

Foi aí, quando os peregrinos se acotovelavam na ponte, vindos dos dois lados, que as pessoas começaram a gritar que havia um extremista suicida no local, disse a testemunha. Em poucos minutos irrompeu o pânico generalizado.

"Havia muita gente correndo em todas as direções, gritando, e muitos caíam e eram pisoteados", disse Saiedy. "Os que caíram eram, em sua maioria, mulheres e crianças. Alguns foram sufocados e esmagados pela multidão. Todos estavam aterrorizados".

Não demorou muito para que os peregrinos apavorados rompessem as muretas de proteção da ponte, e muitos caíram no rio. Soldados do exército iraquiano dispararam suas armas para o ar quando o tumulto começou, em uma tentativa de controlar o pânico, algo que, segundo algumas testemunhas, só piorou a situação.

A ponte, que é o único caminho para se chegar ao templo a partir da zona oeste de Bagdá, sem que se tenha que dar uma grande volta, é um gargalo natural. De acordo com as testemunhas, o problema se tornou pior devido às barreiras de concreto instaladas na ponte --para proteção contra carros-bomba--, que estreitaram o corredor.

O tumulto ocorreu quando dezenas de famílias começavam a fugir das cidades do noroeste do Iraque, próximas à fronteira com a Síria, onde caças-bombardeiros dos Estados Unidos realizaram ataques na terça-feira, pela segunda vez em uma semana, contra o grupo terrorista Al Qaeda na Mesopotâmia. Algumas das famílias levavam bandeiras brancas para demonstrar que não estavam envolvidas no combate.

A área, um ponto de trânsito de armas e de guerreiros insurgentes que atravessam a fronteira a partir da Síria, foi palco de ferozes batalhas entre forças norte-americanas e a resistência, e entre as tribos rivais que apóiam os dois lados.

Na quarta-feira as forças armadas dos Estados Unidos anunciaram a morte de três soldados. Um soldado morreu e três ficaram feridos na quarta-feira, em Samarra, quando uma bomba instalada em uma estrada explodiu próxima a uma patrulha.

Um outro soldado norte-americano foi abatido no sábado por tiros dos insurgentes perto da cidade de Tal Afar, no norte do país, e um terceiro morreu na terça-feira, quando uma bomba foi detonada próximo à sua patrulha, no sul de Bagdá, perto da cidade de Iskandariya.

Ainda na quarta-feira, dois motoristas suicidas de carros-bomba detonaram os seus veículos perto de patrulhas policiais iraquianas, matando um policial.

*Colaboraram, de Bagdá, Thaier Aldaami, Khaled al-Ansary, Layla Isitfan, Abdul Razzaq al-Saiedy, Harb al-Mukhtar e Qais Mizher. Xiitas morrem pisoteados e afogados em evento religioso em Bagdá Danilo Fonseca

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