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01/09/2005

Recuperação de Nova Orleans e dos Estados da Costa do Golfo poderá levar anos

The New York Times
Robert D. McFadden, em Nova York, e

Joseph B. Treaster em New Orleans, Louisiana
O caos dominou Nova Orleans nesta quarta-feira (31/08). Saqueadores agiam, estoques de água e alimentos encolhiam, corpos flutuavam nas águas da inundação, o Superdome precisava ser evacuado, e as autoridades diziam não haver escolha a não ser abandonar a cidade devastada pelo furacão Katrina, talvez por meses. O presidente Bush prometeu vasta assistência, mas reconheceu: "Esta recuperação poderá levar anos".

Vincent Laforet/The New York Times 
Lanchas resgatam sobreviventes do furacão na submersa Nova Orleans, que será evacuada

Pela primeira vez, uma autoridade de Nova Orleans sugeriu a amplitude do número de mortos. O prefeito C. Ray Nagin disse que o furacão pode ter matado milhares apenas em sua cidade, uma estimativa que, se confirmada, tornaria este o desastre natural mais mortal do país desde o terremoto e incêndio de San Francisco em 1906, que matou até 6 mil pessoas.

"Nós sabemos que há um número significativo de corpos na água", e outros escondidos da vista em sótãos e outros lugares, disse o prefeito aos repórteres. Ao ser perguntado quantos, ele disse: "No mínimo centenas. Mais provavelmente milhares".

Enquanto os sobreviventes lutavam com um desastre que deixou danos da ordem de até US$ 25 bilhões, um gigantesco esforço de ajuda entrou em ação. Navios, aviões, helicópteros e comboios de suprimentos e equipes de resgate convergiram para a Costa do Golfo, e autoridades do Pentágono disseram que 30 mil soldados da Guarda Nacional e do serviço ativo seriam enviados neste fim de semana, no maior esforço doméstico de ajuda humanitária por parte das forças armadas na história do país.

Com policiais e soldados da Guarda Nacional priorizando o salvamento de vidas, os saqueadores audaciosamente abriam portões e pilhavam as lojas em busca de alimentos, roupas, aparelhos de televisão, computadores, jóias e armas, freqüentemente à plena vista de autoridades de manutenção da lei impotentes. Foram informados dezenas de roubos de carros, aparentemente por sobreviventes desesperados em escapar, assim como muitos tiroteios.

Na noite de quarta-feira, Nagin ordenou que 1.500 policiais deixassem o trabalho de busca e resgate e impedissem os saques. "Eles estão começando a se aproximar das áreas mais densamente povoadas --hotéis, hospitais, e temos que deter isto agora", disse ele em uma declaração dada para a agência de notícias "The Associated Press".

Nova Orleans, uma cidade de 500 mil habitantes, grande parte dela abaixo do nível do mar e dependente de barragens no Rio Mississippi, que a atravessa, e no Lago Pontchartrain, ao norte, se tornou uma cidade submersa de pesadelo que Nagin disse que terá que ser abandonada enquanto as barragens são reparadas e a cidade drenada. Ele pediu a "evacuação total", acrescentando: "Nós temos que fazer isto. A cidade não estará funcional por dois ou três meses".

A recuperação total parece que será ainda mais remota. Oficiais do Corpo de Engenheiros do Exército disseram que serão necessárias semanas ou meses até que a água da cidade possa ser bombeada, e que serão necessários anos para a reconstrução das milhares de casas e empresas, suas ruas e estradas e o restante da infra-estrutura --um investimento que poderá custar bilhões e talvez nunca recuperar a rica herança cultural da cidade.

Um paradoxo, disseram os especialistas, é que a destruição de uma cidade que sempre esteve vulnerável à água poderá dar a oportunidade de reconstruí-la de forma a torná-la mais segura, com prédios mais fortes e com barragens capazes de suportar tempestades de categorias mais severas. As atuais barragens foram projetadas para suportar um furacão categoria 3; o furacão Katrina foi uma tempestade categoria 4, uma acima de sua capacidade.

Enquanto as águas destruíam uma cidade já 80% submersa, os engenheiros do Exército tentavam tampar as fendas nas barragens que permitiram a invasão das águas do Lago Pontchartrain, lutando contra o relógio para colocar sacos de areia e barreiras de concreto nos buracos. A existência de uma terceira fenda de 30 metros foi descoberta na quarta-feira, e os oficiais chamaram a tarefa de reparo de um pesadelo de engenharia.

Mas em meio ao quadro desolador de destruição e desespero, o coronel Terry Ebbert, diretor de segurança interna para Nova Orleans, ofereceu um vislumbre de esperança. Ele disse que a inundação da cidade parecia estar estabilizando. "As águas não subirão mais", disse ele. Com o nível do Pontchartrain bem mais baixo, o lago e seus canais atingiram um ponto de equilíbrio com a água da cidade, disse ele.

Mas para milhares de refugiados presos em Nova Orleans isto não serviu como consolo. Centenas ainda estão ilhados em telhados ou em áreas de solo, onde aguardam há dois dias pelo resgate sem água ou comida. Uma frota de pequenos barcos já resgatou muitos nas áreas inundadas nos bairros mais pobres de Nova Orleans.

Outros refugiados vagavam sem rumo, em terra e em alagamentos rasos, empurrando carrinhos de compras com pertences. Alguns aguardavam nos trechos da Interestadual 10 que ainda restavam, já que grande parte da estrada ruiu. Carros brilhavam assustadoramente debaixo d'água, e bolas de basquete boiavam na superfície, juntamente com bóias de natação infantis, árvores e outros destroços.

Grande parte dos refugiados da cidade estavam dentro ou em volta do Superdome, que se tornou um abrigo de último recurso para mais de 20 mil pessoas. A governadora da Louisiana, Kathleen Babineaux Blanco, disse que as condições lá se tornaram desesperadoras, com escassez de água, comida e outros suprimentos, com os banheiros alagados e o ar viciado, com as temperaturas chegando a 37 graus e os ânimos se exaltando.

"Está se tornando insustentável", disse a governadora. "Não há energia. Está ficando cada vez mais difícil levar água e comida lá para dentro, apenas o essencial." Ela disse que deseja que o Superdome seja totalmente evacuado em dois dias, e estão sendo feitos planos para remover a maioria dos refugiados para o Astrodome de Houston, no Texas, a 560 quilômetros de distância, em um comboio de 475 ônibus.

O governador do Texas, Rick Perry, além de oferecer o uso do Astrodome e de outros abrigos em Houston, disse que as crianças em idade escolar entre os refugiados seriam admitidas imediatamente nas escolas públicas do Texas e receberiam material escolar, alimentação e transporte.

"Diante de circunstâncias tão trágicas", disse Perry, "nós sabemos que somos vizinhos e vamos ajudar para que estas famílias possam encontrar a maior normalidade que puderem. Nós percebemos pela graça de Deus que poderíamos ser nós a estarmos nesta extraordinária necessidade".

Por toda a região atingida havia histórias de miséria, com centenas de milhares de lares e negócios destruídos, com estradas levadas pelas águas e aeroportos fechados, com a rede de transmissão de energia destruída e cinco milhões de pessoas em quatro Estados sem eletricidade.

E ao crescente número de vítimas mortas, feridas ou sem teto e sem emprego foram adicionados outros tormentos: possíveis epidemias de doenças; instalações de saneamento e hospitais sobrecarregados, perda dos sistemas de comunicação e transporte, e cenários infernais por quase toda parte, com comunidades cobertas de destroços.

No Mississippi, pelo menos 110 pessoas morreram, centenas de casas e negócios foram destruídos, quase um milhão de casas estavam sem energia e dezenas de cassinos construídos em barcaças foram enormemente danificados ou destruídos, privando 14 mil pessoas de empregos e o Estado de US$ 500 mil por dia em receita tributária.

Em Biloxi, os saqueadores arrebentaram os caça-níqueis em busca de moedas e pilharam outros negócios. A cidade de Gulfport foi quase inteiramente devastada e Biloxi foi altamente destruída.

No Alabama, mais de 400 mil lares e empresas estavam sem energia elétrica, as inundações chegaram a 3 metros em Mobile e centenas de casas ao longo da costa leste de Mobile Bay foram inundadas. A Flórida, atingida pela borda leste da tempestade na segunda-feira, informou 11 mortes e mas de 100 mil lares e empresas ainda sem energia elétrica.

Voltando a Washington de suas férias no Texas, o presidente Bush voou para a Costa do Golfo para olhar pessoalmente a destruição, e em uma coletiva de imprensa posterior disse que seu governo está comprometido com o esforço de ajuda e recuperação.

"As pessoas na Costa do Golfo precisarão da ajuda deste país por muito tempo", disse ele. "Esta será uma estrada difícil. Os desafios diante de nós são sem precedentes. Mas não há dúvida em minha mente de que teremos sucesso. No momento, os dias parecem terrivelmente sombrios para os afetados. Mas estou confiante de que, com o tempo, vocês terão suas vidas de volta em ordem. Novas comunidades florescerão. A grande cidade de Nova Orleans se levantará de novo. E a América será um lugar mais forte por isto."

Corpos submersos

O presidente declarou formalmente estado de emergência nos Estados de Louisiana, Mississippi, Alabama e Flórida enquanto o governo e uma série de agências estaduais, locais e privadas começavam aquela que espera-se que será uma tarefa de busca, resgate e ajuda humanitária semelhante à de uma nação sob ataque inimigo.

"Nós estamos lidando com um dos piores desastres naturais na história de nossa nação", disse o presidente. A resposta, ele disse, será proporcional, mas ele acrescentou um alerta: "Esta recuperação levará muito tempo. Esta recuperação levará anos".

E em uma coletiva de imprensa anterior em Washington, acompanhado dos secretários do gabinete e outros líderes do governo, Michael Chertoff, o secretário de Segurança Interna, também disse que o esforço de ajuda será uma das maiores mobilizações de resposta na história da nação, uma campanha coordenada de 14 agências federais para salvar vidas, fornecer ajuda humanitária e liderar o amplo esforço de recuperação.

Na mobilização, o Pentágono enviou oito navios carregados de alimentos, medicamentos, combustível e outros suprimentos, assim como materiais de construção. O Departamento de Defesa também ordenou que o navio hospital Comfort fosse enviado de Baltimore. Cerca de 60 helicópteros foram enviados para ajudar na busca e no resgate, para carregar carga pesada e avaliar danos.

Oito equipes de resgate com lanchas também foram enviadas da Califórnia a bordo de aviões de carga C-5 da Força Aérea. Mais de 11 mil membros da Guarda Nacional já estavam na região, participando das operações de resgate e ajuda humanitária, disseram as autoridades. Centenas de caminhões pesados, capazes de se deslocar em meio à água, também estavam a caminho.

A Agência Federal de Administração de Emergência enviou 39 equipes de assistência médica de todas as partes do país, e mobilizou 1.700 caminhões para transportar água, gelo, refeições, suprimentos médicos, geradores, tendas, lonas e outros.

Michael Leavitt, o secretário de Saúde e Serviços Humanos, disse que foi declarada emergência de saúde na região e que uma rede de 40 abrigos médicos está sendo preparada. Equipes de saúde pública também estão sendo formadas, ele disse, e 2.600 leitos hospitalares em 12 Estados, e 40 mil em todo o país, foram identificados para uso, se necessário.

"Nós estamos altamente preocupados com o potencial de cólera, tifo e doenças desidratantes que poderão resultar da água estagnada e outras condições", disse ele. "Nós também estamos trabalhando com as autoridades locais no saneamento e na segurança dos alimentos."

O atenção do dia estava voltada a Nova Orleans. Ao ser questionado no programa "Good Morning America", da rede de TV ABC, por quanto tempo a cidade permaneceria inabitável, Nagin disse: "Antes deste último desafio com a elevação das águas, eu estimava 10 semanas. Mas provavelmente levará de 12 a 16 semanas antes que as pessoas possam voltar. E a outra questão que está me preocupando é termos mortos na água. A certa altura, os corpos começarão a criar um sério problema de saúde."

No mesmo programa, Blanco disse que a evacuação da cidade é uma necessidade imediata. A falta de energia elétrica, a escassez de comida e água potável, a deterioração das condições de saneamento, tornam isto urgente. Também indagada por quanto tempo Nova Orleans poderá permanecer inabitável, a governadora disse que por semanas ou meses.

Os refugiados estão ansiosos para partir. "As pessoas não estão lá porque querem estar lá", disse Blanco. "Elas estão lá porque estão presas. Elas estão presas na cidade. Elas não podem sair tão facilmente." Ela disse que ainda restam alguns poucos locais altos e secos, "mas se a situação da água persistir, estes locais também serão tomados pelas águas".

A governadora disse que abrigos em outras partes da Louisiana foram identificados e que comboios de ônibus foram organizados para retirar as pessoas. "Nós enviamos ônibus", disse ela. "Nós transportaremos por barco, helicóptero, tudo o que for necessário. Algumas pessoas poderão andar até os ônibus, mas outras terão que ser transportadas. É muito difícil."

Funcionários da Cruz Vermelha Americana de todo o país convergiram para a região naquela que a agência disse que será sua maior operação de ajuda.

No Golfo do México, cinco plataformas de petróleo estavam desaparecidas e duas outras estavam à deriva.

A produção de petróleo no golfo foi praticamente suspensa durante o furacão. Com a queda resultante na produção, ocorreu escassez de gasolina em algumas áreas do país e os preços subiram para mais de US$ 3 o galão. Em resposta, o departamento federal de energia disse que disponibilizará petróleo das reservas estratégicas do país para compensar as perdas na produção. O anúncio ajudou a reduzir os preços do petróleo.

"Este não é apenas um problema para a Costa do Golfo, este é um problema para a América", disse Samuel Bodman, o secretário de Energia, disse em uma entrevista de televisão. Furacão Katrina pode ter matado milhares só na cidade, diz prefeito George El Khouri Andolfato

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