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02/09/2005

Bush é atacado por lenta reação à crise do Katrina

The New York Times
Elisabeth Bumiller

Em Washington
O furor político se intensificou nesta quinta-feira (1/9) pela forma como o presidente Bush tem lidado com o furacão Katrina, com democratas, autoridades locais e parte de uma opinião pública cada vez mais perplexa acusando o presidente de uma resposta lenta à uma inundação que lançou Nova Orleans no caos.

Vincent Laforet/The New York Times 
Água ainda cobre sobrados altos em Nova Orleans; reconstrução da cidade pode durar meses

Bush, em uma rara entrevista para televisão pela manhã, contra-atacou. "Eu espero que as pessoas não misturem política durante um momento como este", Bush disse para Diane Sawyer, do programa "Good Morning America" da rede ABC, no Sala Roosevelt da Casa Branca. "Este é um desastre natural, de um tipo que nosso país pode nunca ter visto."

Mas a política do desastre natural estava próxima da superfície, à medida que os democratas diziam que a crise, uma oportunidade potencial para Bush exibir liderança após um verão de derramamento de sangue no Iraque, se tornou uma catástrofe política enquanto as imagens de televisão, ao longo de todo o dia, mostravam refugiados pobres, afro-americanos, desesperados atrás de água e comida no país mais rico do mundo.

O deputado Harold Ford, democrata do Tennessee, disse em uma declaração que ficou impressionado com "a postura de desdém em relação ao apuro da população na Louisiana, Mississippi e Alabama" e acrescentou que "agora não é hora, diante da dor, angústia e morte, de ser fraco e incerto".

Terry Ebbert, o chefe de operações de emergência em Nova Orleans, se queixou com amargura na quinta-feira com o fato de a Agência Federal de Administração de Emergência (FEMA, na sigla em inglês) não ter oferecido ajuda suficiente. "Esta é uma emergência nacional", disse Ebbert para a agência de notícias "The Associated Press". "Esta é uma desgraça nacional. A FEMA está aqui há três dias, mas ainda não há comando nem controle. Nós podemos enviar uma quantidade imensa de ajuda para as vítimas do tsunami, mas não podemos jogar ajuda de pára-quedas na cidade de Nova Orleans."

Outros democratas consideraram a primeira avaliação de Bush dos estragos, feita da janela do seu Força Aérea Um, enquanto o jato presidencial voltava para Washington dois dias depois da passagem do furacão, como um ato imperial distanciado do sofrimento das pessoas abaixo.

"Não basta o presidente inclinar seu avião, olhar pela janela e dizer: 'Oh, que cenário devastador'", disse o senador Frank Lautenberg, democrata de Nova Jersey, em uma declaração na quinta-feira. "Em vez de olhar pela janela de um avião, ele devia estar em terra dando esperança para as pessoas arruinadas por este furacão."

Funcionários da Casa Branca, já sensíveis por Bush estar enfrentando o mais baixo índice de aprovação de sua presidência e sob pressão para lidar com uma catástrofe que consideram de proporções bíblicas, reagiram com frustração.

"Setenta e duas horas depois da ocorrência disto, ficar declarando abertamente isto, ficar atacando o presidente, não é apenas desprezível e errado, mas é politicamente desinteligente", disse um funcionário da Casa Branca que pediu para que seu nome não fosse citado, porque não queria ser visto como falando sobre a crise em termos políticos. "Pessoas normais em casa entendem que o presidente não é responsável por isto, é o furacão. A situação melhorará, hora a hora, dia a dia."

Publicamente, a Casa Branca agiu rapidamente em várias frentes em resposta. Scott McClellan, o secretário de imprensa da Casa Branca, anunciou que Bush passará a sexta-feira percorrendo a região devastada da Costa do Golfo e Nova Orleans, e que os ex-presidentes Bill Clinton e George Bush comandarão um esforço privado de arrecadação de fundos para as vítimas da inundação e do furacão, semelhante ao que fizeram após o tsunami asiático, em dezembro passado.

Clinton, que se tornou próximo da família Bush no ano passado, foi o mais proeminente democrata a defender Bush contra as acusações de lentidão.

Ao ser questionado sobre a resposta federal em uma entrevista na CNN, Clinton respondeu que entende o motivo dos refugiados, vivendo em "condições repulsivas" no Superdome de Nova Orleans, se sentirem daquela forma, "mas as pessoas que as colocaram lá o fizeram porque acharam que estavam salvando suas vidas, e então quando os problemas apareceram, elas tinham muitas outras pessoas para salvar".

O ex-senador John B. Breaux, um democrata da Louisiana que tem laços estreitos com a Casa Branca, disse em uma entrevista na quinta-feira que as pessoas em Nova Orleans estavam enfurecidas contra políticos de todos os níveis.

"Elas estão enfurecidas com a governadora, estão enfurecidas com o prefeito, e se eu estivesse no Senado, elas estariam enfurecidas comigo", disse ele. "Elas não ligam se você é democrata ou republicano. Você tem que estar acima disto. Você precisa ser agressivo. Você precisa mostrar que algo está sendo feito."

A Casa Branca combateu o coro de críticas por todo o dia, enquanto blogs faziam estardalhaço em torno da secretária de Estado, Condoleezza Rice, que estava em férias em Nova York durante o desastre, onde foi avistada em uma peça da Broadway e onde assistiria ao torneio de tênis U.S. Open.

Na noite de quinta-feira, Rice encurtou suas férias e voltou para Washington, onde participou de uma reunião para discutir formas de coordenar os esforços de assistência estrangeira de mais de 30 países e organizações.

Os blogs também circularam uma foto de Bush tocando violão em um evento na Califórnia na terça-feira, insinuando que ele estava tocando viola enquanto Nova Orleans se afogava. Na verdade, a foto foi tirada quando o cantor country Mark Wills presenteou Bush com uma guitarra no palco da Estação Aeronaval de North Island, em Coronado, Califórnia, depois que Bush fez um discurso marcando o 60º aniversário da rendição japonesa na Segunda Guerra Mundial.

Mais tarde naquele dia, enquanto as águas começaram a inundar Nova Orleans, Bush voltou para seu rancho no Texas, de onde partiu para Washington na manhã de quarta-feira.

Ed Koch, o ex-prefeito de Nova York que aprendeu que é essencial responder rapidamente a desastres em cidades, disse que Bush não agiu rápido o bastante para expressar solidariedade para com as vítimas.

"Eu aprendi que as pessoas querem sua presença lá, elas querem que você sofra um pouco com elas, elas querem que você as convença de que você as protegerá como parte de sua família, elas querem que você seja uma extensão delas", disse Koch.

Koch, que apoiou Bush na guerra no Iraque, disse que "é justo os democratas atacarem o presidente desta vez. Eles querem conquistar a Câmara no próximo ano".

Koch também disse que a viagem de Bush a Nova Orleans e à Costa do Golfo, na sexta-feira, indica que "ele pode se recuperar, ele pode fazer isto amanhã. Mas foi uma oportunidade perdida". Condi Rice é vista no teatro em NY enquanto Nova Orleans se afoga George El Khouri Andolfato

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