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02/09/2005

Caos e desespero dominam a evacuação de Nova Orleans, devastada pelo Katrina

The New York Times
Ralph Blumenthal e Maria Newman*

Em Nova Orleans, Louisiana
Esta cidade arrasada pela tempestade mergulhava num caos crescente nesta quinta-feira (1/9), enquanto continuavam os saques, corpos boiavam nas águas da enchente e escasseavam os suprimentos de alimentos e água para milhares de moradores encurralados e desesperados que ainda não tinham conseguido encontrar uma forma de chegar ao Texas, onde um pequeno número de refugiados conseguiu encontrar abrigo, suprimentos e ordem.

Vincent Laforet/The New York Times 
Nível da água em Nova Orleans fica estável; inundação cobre vítimas afogadas após furacão

Eles deixaram a cidade devastada pela dor e a raiva de ônibus, em veículos furtados ou qualquer meio que encontraram. As autoridades de resgate atônitas disseram estar trabalhando para encontrar mais abrigos em qualquer Estado ou cidade capaz de oferecê-los.

A Casa Branca anunciou mais medidas para ajudar as autoridades locais cada vez mais sobrecarregadas, e disse que o presidente Bush percorrerá a região na sexta-feira. Um assessor admitiu que o governo está consciente do crescente nível de revolta entre as pessoas, que se sentem abandonadas em meio à mortandade e à destruição causadas pelo furacão Katrina na segunda-feira.

"Eu entendo que as pessoas estejam frustradas", disse em Washington o porta-voz presidencial Scott McClellan. "É uma grande catástrofe."
O secretário de Segurança Nacional, Michael Chertoff, disse que o desastre atinge uma escala que os americanos só estão acostumados a ver em outros países.

"Afinal, estamos falando do deslocamento de centenas de milhares de pessoas, e será um desafio para este país semelhante a algumas tragédias que vimos no exterior", ele disse, acrescentando que as pessoas refugiadas em hotéis, motéis, abrigos ou com parentes receberão assistência de moradia e outras ajudas nas próximas semanas e meses.

Com 80% da cidade de Nova Orleans embaixo d'água, as autoridades estão apenas iniciando o processo de remover cerca de 20 mil refugiados do ginásio esportivo Superdome para Houston (Texas), enquanto outros habitantes continuam sendo resgatados dos bairros inundados.

Com poucos outros lugares para onde ir, milhares de pessoas se reuniram no Centro de Convenções de Nova Orleans, onde nenhuma autoridade apareceu para fornecer alimentos, água, assistência médica ou mesmo para manter a lei.

Tropas da Guarda Nacional estavam chegando à cidade para tentar impor a ordem em meio ao caos crescente, que prejudica o processo de resgate e recuperação. Houve numerosos relatos --e rumores-- de lutas e distúrbios nas ruas, prejudicados ainda mais pela precariedade das comunicações. Mas não havia dúvida de que as pessoas estavam ficando mais desesperadas conforme a comida e a água potável terminavam.

Diante da enormidade do desastre, a confusão dominou a maior parte do esforço de resgate desde o início, situação que foi reconhecida por Mike Brown, o chefe de operações da Agência Federal de Emergências, que comparou o processo à "neblina da guerra".

Enquanto os sobreviventes enfrentavam o desastre, que deixou prejuízos estimados em US$ 25 bilhões, começava uma operação de socorro gigantesca. Chertoff, o chefe da Segurança Nacional, que está liderando as iniciativas federais de ajuda, disse na manhã de quinta-feira que a recuperação levará meses ou mais. "Sabemos que temos um caminho longo e desafiador pela frente", ele disse.

A evacuação do Superdome foi interrompida brevemente na manhã de quinta-feira, quando se ouviu entre a multidão um ruído semelhante a um tiro, disse um porta-voz da Guarda Nacional da Louisiana. Advertindo que não houve confirmação de um disparo, o tenente-coronel Pete Schneider disse que nada atingiu o helicóptero Chinook que ajudava na evacuação naquele momento e que ninguém se feriu. "Isso não interrompeu o processo", ele disse.

Em Houston, cerca de 3 mil evacuados de Nova Orleans chegaram ao ginásio Astrodome na manhã de quinta-feira, incluindo 14 pessoas num caminhão que elas admitiram ter roubado. Os refugiados passaram por uma avaliação médica inicial e depois receberam artigos de higiene, roupas limpas e um café da manhã.

"Precisamos estar aqui"

Gloria Roemer, uma porta-voz do juiz Robert Eckels, diretor do escritório da Segurança Nacional no condado de Harris, disse que embora a política oficial seja aceitar somente pessoas que saíram do Superdome em Nova Orleans, a Cruz Vermelha, que está dirigindo os trabalhos no Astrodome, decidiu aceitar qualquer refugiado da tempestade.

O grupo de 14 pessoas chegou ao Astrodome num caminhão de bufê depois de dirigir dez horas desde Nova Orleans, disse Kentrell Diaz, 21, um dos passageiros do veículo. Eles haviam recebido a informação de que poderiam fazer uma refeição no ginásio, mas não poderiam ficar lá.

Diaz mostrou ao repórter um pedaço de papel que ele disse ter recebido na entrada do ginásio, com um mapa da região de Houston e uma lista de abrigos da Cruz Vermelha. Explicou que ele e outros membros de seu grupo viviam no leste de Nova Orleans e tinham nadado até um local seguro depois que a enchente atingiu o segundo andar de seu prédio de apartamentos.

Outro membro do grupo, Gloria Collins, 26, segurava seu filho de seis meses, Nakee. Ela admitiu que o caminhão em que viajaram foi furtado. "Um policial nos parou e disse: 'Eu sei que não é de vocês', mas nos deixou continuar", ela contou. "Havia pessoas dando tiros para proteger seus barcos. É uma coisa de sobrevivência."

O Astrodome está preparado para receber 25 mil moradores temporários, e Roemer disse que os habitantes dessa nova "cidade" receberão crachás de identificação e poderão entrar e sair à vontade. "Eles não são prisioneiros", ela disse. O vice-delegado do condado de Harris e a polícia de Houston estão fornecendo segurança.

Uma porta-voz da Cruz Vermelha Americana, Renita Hosler, disse que foi montado um processo de registro para unir os desabrigados a seus familiares, mas ela não sabia como o processo seria informado ao público.
A governadora da Louisiana, Kathleen Babineaux Blanco, disse na quarta-feira que queria que o Superdome fosse totalmente evacuado em dois dias.

O plano era remover a maioria dos refugiados para o Astrodome de Houston, a 560 quilômetros de Nova Orleans, em um comboio de centenas de ônibus. Cerca de 700 idosos e doentes foram removidos do estádio lotado na quarta-feira, mas estavam sendo enviados para outros pontos do Estado. A situação dentro do ginásio foi descrita como desesperada, com milhares de pessoas vivendo em condições comparáveis às de campos de refugiados, sem suprimentos básicos de alimentação e higiene.

Os desabrigados não sabiam se era mais seguro ficar nas ruas ou em prédios abandonados. Daryl Hubbard, uma das nove pessoas que se refugiaram no edifício da BellSouth em Nova Orleans no domingo, falou para a MSNBC por telefone na manhã de quinta-feira: "Não sabemos como sair, mesmo que quiséssemos. Não sei se estamos indo para uma situação ainda pior do que aqui".

Hubbard disse que havia um homem asmático no prédio, que estava se queixando de suas condições. A mulher de Hubbard toma três ou quatro remédios diferentes diariamente, mas eles foram levados por engano na quarta-feira por oficiais da Guarda Costeira que retiraram dois idosos do edifício.

"Eles disseram que voltariam, mas ninguém apareceu", disse Hubbard. "Realmente precisamos sair daqui. A Cruz Vermelha despejou água e outras coisas. Estamos chegando ao fim delas, temos apenas algumas garrafas e um pouco de comida."

*Contribuíram Jeremy Alford de Baton Rouge; Felicity Barringer de Metairie; Joseph B. Treaster de Nova Orleans; John M. Broder de Houston; e Robert D. McFadden, Shadi Rahimi e Christine Hauser de Nova York. Corpos flutuam na água, enquanto sobreviventes recorrem a saques Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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