UOL Notícias Internacional
 

02/09/2005

Com o golfo em crise, EUA aumentam liberação de reservas estratégicas de petróleo

The New York Times
Jad Mouawad e Vikas Bajaj

Em Nova York
O maior centro de energia do país ainda estava se recuperando nesta quinta-feira (1/9), quatro dias depois que o furacão Katrina atingiu o Golfo do México, prejudicando o fornecimento de gasolina em algumas partes do país. Diante do caos, o governo liberou quotas de suas reservas estratégicas de petróleo para as refinadoras.

O governo anunciou na quinta-feira que tinha aprovado um empréstimo de 6 milhões de barris de sua reserva de emergência de petróleo para a Exxon Mobil e outro milhão de barris para a Placid Refining. Uma terceira empresa, Valero, receberá 1,5 milhão de barris. No entanto, isso é menos do que o necessário para compensar a perda esperada de produção do golfo --responsável por mais de um quarto do fornecimento do petróleo interno.

Grande parte da produção e refinamento da região continua fechada. Na quinta-feira, porém, surgiram os primeiros sinais de que ao menos alguns setores da complexa infra-estrutura do golfo lentamente estão se levantando. Usando energia de emergência, dois importantes oleodutos para a Costa Leste começaram a operar novamente, mas com capacidade limitada. Um enorme terminal de importação na Louisiana garantiu que ia voltar a receber os navios petroleiros em breve.

Mesmo assim, nove grandes refinarias de Louisiana continuavam sem energia, de acordo com o Departamento de Energia. Quatro outras operavam com capacidade reduzida. Ao todo, está suspensa a capacidade de refino de pelo menos 1,8 milhão de barris por dia, ou cerca de 10% do total da nação.

O preço da gasolina teve um pico nos últimos dias, para mais de US$ 3 (em torno de R$ 1,90 por litro) por galão em muitas partes do país. Os preços pularam em até US$ 0,50 (cerca de R$ 1,20) por galão da noite para o dia. Estados como Illinois, Michigan, Texas e Pensilvânia estão entre os mais afetados.

A média nacional de preço para a gasolina prêmio foi de US$ 2,95 por galão (aproximadamente R$ 1,85 por litro) na quinta-feira, subindo de US$ 2,88 (em torno de R$ 1,80 por litro) na quarta-feira e US$ 2,42 (cerca de R$ 1,52 por litro) há um mês.

Dois dias antes do Dia do Trabalho, quando milhões de americanos pegam a estrada para o último grande feriado do verão, o presidente Bush pediu à população que contivesse seu consumo de gasolina. "Os americanos devem ser prudentes em seu uso de energia nas próximas semanas", disse Bush na quinta-feira. "Não comprem gasolina se não precisarem."

O uso das reservas e as novas importações darão uma injeção rápida de petróleo no sistema, mas pouco farão para recuperar as refinarias atingidas pela tempestade. O que é certo é que o Furacão Katrina produziu o que os economistas mais temiam, um deslocamento de petróleo e gás em uma escala global e a perspectiva de preços de energia ainda mais altos.

"Perdemos muitas provisões em uma época em que estávamos muito vulneráveis", disse Roger Diwan, diretor da PFC Energy, consultora de energia em Washington. "Os níveis dos preços dependerão da velocidade de retorno ao funcionamento das refinarias."

A PFC Energy estimou que a capacidade de refino de 820.000 barris por dia ficaria suspensa por semanas pelo alagamento e falta de energia.

A perspectiva de redução por mais tempo das operações de refino novamente empurrou os preços dos derivados de petróleo na Bolsa Mercantil de Nova York na quinta-feira. A gasolina para entrega em outubro fechou em US$ 2,409 por galão (aproximadamente R$ 1,52 por litro), subindo US$ 0,154 (cerca de R$ 0,37).

O contrato de setembro expirou na quarta-feira em US$ 2,61 por galão (em torno de R$ 1,65 por litro). O futuro de petróleo cru fechou em US$ 69,47 (cerca de R$ 166) por barril, com um aumento de US$ 0,53 (aproximadamente R$ 1,27).

As reservas de gasolina caíram por nove semanas seguidas e estão em sua posição mais baixa desde novembro de 2003. Na semana passada, elas caíram em 500.000 barris, para 194 milhões de barris --o suficiente para fornecer o consumo total de gasolina do país, de 9,4 milhões de barris por dia, por cerca de 20 dias.

"Os EUA estão enfrentando uma grande crise de gasolina e estão começando com o tanque quase vazio", disse em nota a Barclays Capital.

A Casa Branca já liberou mais empréstimos das reservas estratégicas de petróleo do que os 5,4 milhões de barris que aprovou depois do Furacão Ivan, que atingiu o golfo em setembro do ano passado. O governo também relaxou as regras de navegação para permitir que navios estrangeiros transportassem petróleo e gasolina entre portos americanos para compensar a falta em algumas seções do país.

"Ao utilizar recursos da Reserva Estratégica de Petróleo, vamos ajudar a minimizar possíveis interrupções de fornecimento como resultado do furacão", declarou Samuel Bodman, secretário de energia.

No entanto, o verdadeiro problema, disse Frank A. Verrastro, diretor do programa de energia do Centro de Estudos Internacionais Estratégicos em Washington, "é a capacidade de refino, não o fornecimento do cru".

A primeira dificuldade a superar é a falta de energia elétrica.

O Porto de Petróleo Offshore de Louisiana, um terminal de importação com capacidade para 1,2 milhões de barris de cru por dia disse que tinha sofrido apenas danos menores, mas que não pôde aceitar as entregas dos petroleiros porque estava esperando a restauração do fornecimento de energia em suas instalações de armazenagem, em Galliano, cerca de 120 km de New Orleans.

"Realmente, estou confiante que vamos voltar a funcionar assim que a energia chegar", disse Tommy Martinez, diretor executivo da agência que regula o terminal. As operações do Port Fourchon, que serve as plataformas e o terminal offshore, ainda não conseguiram voltar à plena capacidade.

Os navios que usam o porto, que fica a cerca de 160 km ao sul do Nova Orleans, ainda não podem navegar pelos canais que o conectam ao Rio Mississippi e outros canais, disse Ted M. Falgout, diretor executivo do porto. As pontes dos canais não estão operando por falta de energia.

No entanto, os oleodutos estratégicos de petróleo ou produtos refinados para as regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste apresentaram algum progresso.

Valero, o maior refinador independente do país, disse que a energia tinha voltado a sua refinaria em St.Charles, Louisiana, e que um quarto de seus funcionários tinham conseguido retornar ao trabalho. Inicialmente, a empresa sugeriu que levaria até duas semanas para reiniciar a refinaria alagada.

A Chevron disse que a refinaria em Pascagoula, Mississippi, que tem a capacidade de refinar 325.000 barris por dia, escapou aos "danos catastróficos" graças à resistência de um dique. A planta, porém, continua fechada.

Os atrasos nas operações das refinarias e oleodutos geraram reações no sistema. Por exemplo, um atacadista de gasolina, Petroleum Traders Corp., informou que seu fornecimento estava sendo cortado pela BP e Marathon, que têm contratos que permitem que forneçam aos seus próprios distribuidores primeiro, em casos de choques e oferta. A Exxon Mobil e Chevron também advertiram da possibilidade de interrupções no fornecimento de gasolina.

Para compensar a falta interna, as empresas petroleiras começaram a tomar medidas para reforçar suas importações de gasolina e óleo diesel da Europa. A Bloomberg News informou que até 10 navios petroleiros estavam reservados por empresas, inclusive BP, Chevron e ConocoPhillips, para enviar cerca de 130 milhões de galões de gasolina.

No entanto, mesmo com o crescimento das importações, muito depende de quão rápido a produção poderá ser restaurada no golfo. O Golfo do México é responsável por cerca de 1,5 % da produção global de petróleo, mas com a baixa capacidade de produção extra em toda parte, seu impacto está sendo sentido muito além da costa da região atingida pela tormenta.

Mais de 90% da produção diária do golfo ainda está fechada. A produção de gás natural melhorou levemente na quarta-feira, quando a queda de produção foi de 79%, segundo o Departamento do Interior. Isso não aliviou a pressão sobre os mercados, com o gás natural futuro no Nymex subindo 2,5%, para US$ 11,757 (cerca de R$ 28.217) por mil pés cúbicos.

Desde 26 de agosto, mais de 7,4 milhões de barris de petróleo, ou 1,3% da produção anual do golfo, foi perdida como conseqüência da tempestade.

Outra incerteza paira sobre a infra-estrutura de energia do golfo.

Quando o Furacão Ivan atingiu a região, em setembro do ano passado, provocou deslizamentos de terra submarinos que afetaram a posição de importantes dutos submarinos. O problema atrasou a volta da plena produção por seis meses. Ao todo, essa tempestade pode cortar a produção de petróleo em 43,8 milhões de barris.

Até agora, não há indicações do impacto do furacão Katrina sobre os 53.000 km de dutos submarinos do golfo, uma rede no fundo do mar que liga milhares de plataformas offshore a refinadoras e tanques de armazenamento na costa.

"Apesar de tudo que se falou sobre a incerteza política na Nigéria, Rússia ou Venezuela no ano passado, a maior perda de produção foi do Ivan", disse Verrastro. "Nossa definição de risco pode estar mudando. O clima está se tornando um dos maiores fatores."

Enquanto isso, as empresas de petróleo enfrentam problemas básicos, até mesmo em tarefas que antes eram simples, como contatar seus funcionários. A Chevron está anunciando uma linha telefônica especial gratuita para os funcionários.

"No topo de nossa agenda está descobrir onde estão nossos funcionários", disse Mickey Driver, porta-voz da Chevron em Houston. "É uma enorme preocupação para nós." Katrina afetou produção do óleo em um momento que já era crítico Deborah Weinberg

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