UOL Notícias Internacional
 

02/09/2005

Explode a tensão em Nova Orleans; ação do governo federal sofre duras críticas

The New York Times
Joseph B. Treaster e Deborah Sontag

Em Nova Orleans, Loisiana
O desespero, privação e violenta falta de lei se tornaram tão extremos em Nova Orleans, nesta quinta-feira (1/9), que o prefeito da cidade inundada emitiu um "S.O.S. desesperado", e outras autoridades locais, descrevendo a situação de segurança como horrível, atacaram o governo federal pela lenta resposta ao desastre. Milhares de refugiados do furacão Katrina na cidade inundada embarcaram nos ônibus com destino a Houston, mas outros rapidamente tomaram o lugar deles no lotado e imundo Superdome, que tem servido como o principal abrigo.

Jim Wilson/The New York Times 
Resgate dos sobreviventes é feito de forma lenta, assim como as outras medidas de socorro

No centro de convenção cada vez mais insalubre, a multidão inchou para cerca de 25 mil e refugiados desesperados clamavam por comida, água e atenção, enquanto em volta deles jaziam cadáveres, despejados em cadeiras de rodas ou envolvidos em lençóis.

"Algumas pessoas lá estão sem comer e beber há três ou quatro dias, o que é inaceitável", reconheceu Joseph W. Matthews, diretor do Escritório de Prontidão para Emergência da cidade.

"Nós precisamos de tropas adicionais, água, alimento", ele implorou, "e nós precisamos de pessoal, manutenção da lei. Isto se transformou em uma situação na qual os bandidos estão controlando a cidade".

Três dias depois da passagem do furacão, causando ampla destruição na Costa do Golfo e inundações desastrosas na baixa Nova Orleans, a Casa Branca disse que o presidente Bush percorrerá a região na sexta-feira.

Citando a magnitude do desastre, autoridades federais defenderam sua resposta até o momento e prometeram que mais ajuda está a caminho. O Corpo de Engenheiros do Exército continuou trabalhando para tampar a grande fenda na barragem que permitiu que a água do Lago Pontchartrain invadisse Nova Orleans.

Os efeitos do desastre se espalharam pelo país. Em Houston, a cidade começou a lidar com a logística de receber dezenas de milhares de refugiados no Astrodome, e San Antonio e Dallas se preparavam para a chegada de mais 25 mil. Baton Rouge substituiu Nova Orleans como a cidade mais populosa do Estado da Louisiana e estava começando a sofrer por isto.

A devastação no golfo também continuou a agitar os mercados de petróleo, lançando na estratosfera os preços da gasolina em muitas áreas do país.

Na Carolina do Norte, o governador Michael F. Easley pediu aos cidadãos que economizassem combustível enquanto os dois grandes oleodutos que fornecem grande parte da gasolina do Estado são recolocados em operação. "Os cidadãos não devem entrar em pânico", disse ele. "Mas é fundamental que continuemos economizando nosso combustível enquanto Washington desenvolve uma estratégia nacional para este problema."

Enquanto isso, a situação em Nova Orleans continuava a deteriorar. Multidões enfurecidas faziam coro por ajuda, enquanto alguns corriam caoticamente na direção dos helicópteros que tentavam levar comida. Enquanto o prefeito C. Ray Nagin especulava a possibilidade da morte de milhares de pessoas, as autoridades ainda não tinham uma idéia clara do número de mortos.

"Nós somos apenas um bando de ratos", disse Earle Young, um cozinheiro de 31 anos que aguardava em meio a uma multidão de 10 mil do lado de fora do Superdome, debaixo de um sol escaldante, pelos ônibus que os levariam da cidade. "É assim que estão nos tratando."

Caos e tiros atrapalharam os esforços para evacuar o Superdome e, como disse o superintendente de polícia de Nova Orleans, bandidos armados assumiram o controle do segundo abrigo improvisado no centro de convenções.

Os bandidos repeliram oito esquadrões com 11 oficiais em cada que ele enviou para proteger o local, disse o superintendente, P. Edwin Compass III, acrescentando que estupros e assaltos estavam ocorrendo de forma desenfreada nas ruas vizinhas, enquanto os criminosos visavam os turistas.

Compass disse que o governo federal demorou demais para enviar os milhares de soldados --assim como os suprimentos, combustível, veículos, água e alimento-- necessários para estabilizar sua cidade agora "muito, muito débil".

O coronel Terry Ebbert, diretor de segurança interna para Nova Orleans, concordou, e foi particularmente pungente em suas críticas. Afirmando que toda a operação de recuperação foi "carregada nas costas dos pequenos por quatro malditos dias", ele se queixou que "o restante da maldita nação não consegue nos fornecer nenhum recurso para segurança".

"Nós somos como filhotes de passarinhos com nossas bocas abertas, e você não precisa ser muito esperto para saber onde soltar a minhoca", disse ele. "É criminoso o fato de que, dentro dos Estados Unidos, em questão de uma hora após a passagem do furacão, eles não tenham começado a nos alimentar. É como se a FEMA nunca tivesse visto um furacão." FEMA é a Agência Federal de Administração de Emergência.

As autoridades estaduais da Louisiana também questionaram o que consideraram a ausência da agência federal de emergência no local.

"Eles dizem que estão vindo, que estão vindo, que estão vindo", disse um alto funcionário do gabinete da governadora Kathleen Babineaux Blanco. "Eles ainda não estão aqui." (O assessor pediu para não ser identificado já que o Estado ainda espera pela chegada da assistência.)

As autoridades federais se esforçaram para defender seus esforços, mantendo que os suprimentos estavam chegando ao local antes mesmo da chegada do furacão, que milhares de membros da Guarda Nacional já chegaram para ajudar a proteger a cidade e que outros milhares se juntarão a eles nos próximos dias.

Falando em uma coletiva de imprensa em Washington, Michael Chertoff, o secretário de Segurança Interna, disse que o Superdome teve "problemas de controle de multidão", mas que estava seguro. Ele se referiu ao que chamou de "incidentes isolados de criminalidade" na cidade.

Enquanto as autoridades do governo prometiam vastos recursos para a região, o presidente da Câmara, Dennis Hastert, republicano de Illinois, disse a um jornal local, "The Daily Herald", que tinha dúvidas sobre o emprego de bilhões de dólares em dinheiro federal para a reconstrução de Nova Orleans, dada sua vulnerabilidade.

"Não faz sentido para mim", disse Hastert. "E é uma pergunta que certamente devemos fazer."

Hastert buscou posteriormente esclarecer seus comentários, dizendo em uma declaração: "Eu não estou defendendo que a cidade seja abandonada ou relocada. Meus comentários sobre a reconstrução da cidade visavam refletir minha sincera preocupação em como a cidade será reconstruída para assegurar a futura proteção de seus cidadãos".

Chertoff disse que o furacão Katrina representou um "duplo desafio", porque foram dois desastres em um: a tempestade e então a inundação.

"Para aqueles que se perguntam por que é difícil disponibilizar estes suprimentos e equipes médicas, a resposta é que elas estão enfrentando um problema dinâmico em andamento com a água", disse Chertoff.

Na quarta-feira, o Corpo de Engenheiros do Exército lutava contra o problema da água buscando concluir uma parede de metal cruzando a boca do canal da Rua 17, a fonte de grande parte da inundação. Assim que for concluída, a parede deverá conter o escoamento do Lago Pontchartrain no canal, o que permitirá aos engenheiros reparar a fenda na barragem e finalmente começar a bombear a água fétida da cidade.

A outra prioridade do governo federal é a evacuação de Nova Orleans, disse Chertoff. Para isto, cerca de 200 ônibus partiram do Superdome rumo ao Astrodome de Houston durante o dia, disse Chertoff, acrescentando que outros 200 ônibus começariam a recolher passageiros na noite de quinta-feira e que a Louisiana estava fornecendo 500 ônibus escolares adicionais.

Mas em Houston, o Astrodome parecia às vezes um campo de refugiados de um país arrasado pela guerra. Os refugiados da Louisiana, muitos sujos e famintos, vagavam sem rumo, checando murais de mensagens em busca de informações sobre seus parentes, fazendo fila para suprimentos e telefones públicos, cercando voluntários da Cruz Vermelha para obter camisetas gratuitas. Muitos encontraram, para seu desalento, algumas condições semelhantes às que deixaram para trás no Superdome, como vasos sanitários entupidos e banheiros imundos.

Mas em Houston há chuveiros com água quente, caixas com Bíblias e grandes quantidades de fatias de pizza, enquanto em Nova Orleans e arredores, muitos refugiados lutavam por fraudas, água e sobrevivência básica.

Milhares de refugiados, retirados dos telhados de Nova Orleans pelas equipes de resgate, foram levados para um campo na Paróquia de Jefferson, segundo o xerife de Jefferson, Harry Lee. Lee disse que não foi informado de que refugiados seriam levados para lá, e que foram deixados sem alimento, água ou banheiros.

Lee disse que está buscando evacuar os refugiados em sua paróquia, mas que teve que cercá-los com policiais enquanto a evacuação estava sendo organizada. "Nós virtualmente os transformamos em prisioneiros", disse ele.

Um motivo foi que os saques armados chegaram à Paróquia de Jefferson. Os saqueadores incendiaram um shopping center, e os bombeiros, enfrentados com armas, desistiram das tentativas de apagar o incêndio, informou a rádio local.

Na quinta-feira, a Casa Branca disse que pedirá US$ 10,5 bilhões ao Congresso para o pagamento dos esforços de resgate e ajuda nas próximas duas semanas. Os líderes no Congresso se reuniriam na noite de quinta-feira para uma sessão especial para aprovação de um medida de suplemento orçamentário, e os líderes da Câmara pretendiam realizar uma sessão especial na sexta-feira para aprovação da medida.

Grande parte do dinheiro irá para a FEMA, que tinha cerca de US$ 2,5 bilhões em sua conta de emergência antes da tempestade e tem gasto cerca de US$ 500 milhões por dia, nos último dias, nos esforços de ajuda, disse Joshua B. Bolten, o diretor de orçamento da Casa Branca.

Além disso, para acelerar a evacuação e ajudar nos esforços de ajuda humanitária, o Departamento de Segurança Interna enviou um pedido de emergência na quarta-feira às companhias aéreas do país, pedindo para que forneçam aviões.

O departamento pediu por jatos jumbo, mas "qualquer ajuda será apreciada", dizia um memorando do governo para a Associação de Transporte Aéreo. Algumas companhias aéreas, incluindo Southwest, American e Delta, já têm feito vôos de ajuda ao Aeroporto Louis Armstrong em Nova Orleans, levando macas, cobertores, água e outros suprimentos de emergência.

O Tulane University Hospital and Clinic em Nova Orleans tem usado helicópteros privados para evacuar seus pacientes, e a HCA, que opera o hospital, oferecerá os helicópteros para outros hospitais assim que a evacuação for concluída. Os médicos em vários hospitais da área, incluindo Tulane, disseram que a evacuação imediata é urgente, não apenas devido às necessidades dos pacientes, mas por causa da situação da segurança. Eles informaram disparos nas ruas do lado de fora, e esforços de bandidos armados para invadir os hospitais e roubar suprimentos.

"Eles nos dizem todo dia que vão nos tirar daqui", disse Ashley Richardson, uma enfermeira do Charity Hospital em Nova Orleans. "Nós estamos esperando. Nós estamos esperando."

No Touro Infirmary, um hospital de 10 andares, os diretores primeiro transferiram os pacientes para longe das águas que subiam, para os andares mais altos. "Então os saques começaram; nós podíamos vê-los da cobertura", disse Stephen Kupperman, presidente do hospital. "Nós decidimos evacuar o hospital. A energia elétrica está falhando e os suprimentos estão acabando."

Kupperman disse que o hospital estava contando com o governo federal. Mas "quando a FEMA não apareceu, alguém entrou em contato com um serviço privado de ambulâncias e removeu os pacientes", disse ele.

Ele disse que alguns pacientes morreram antes que pudessem ser resgatados.

Alguns moradores de Nova Orleans que optaram por enfrentar a tempestade em suas casas perderam o gosto pela perseverança na quinta-feira.

Shea Penland, diretor do Instituto Pontchartrain para Estudos Ambientais da Universidade de Nova Orleans, permaneceu em sua casa por toda a tempestade e logo depois. Mas na quinta-feira seu gerador ficou sem combustível e sua paciência estava se esgotando.

"As pessoas tem apenas um certo limite de tolerância sem infra-estrutura", disse Penland. "Eu estou fechando minha casa com tábuas hoje e espero estar em Baton Rouge, ou na costa norte, esta noite." Refugiados desesperados; violência crescente; cadáveres na água George El Khouri Andolfato

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