UOL Notícias Internacional
 

03/09/2005

Em meio a desespero e desordem ilimitados, surgem os esforços de ajuda

The New York Times
N.R. Kleinfield

Em Nova Orleans
Veículos militares trazendo alimentos e suprimentos patinhavam dentro do coração encharcado desta cidade ferida e degradada nesta sexta-feira (2/9), enquanto aviões comerciais e aviões de carga chegavam para tirar os sitiados sobreviventes do furacão das profundezas de um terrível horror.

Cinco dias depois do furacão Katrina, o cenário caótico no Aeroporto Internacional Louis Armstrong de Nova Orleans evocava a mistura de esperança e desespero que tomou conta desta cidade. A desordem prevalecia, enquanto milhares de sobreviventes, com olhares vidrados e nada mais do que sacos de lixo contendo pertences, aguardavam nas filas intermináveis pela chance de partir.

Patrulheiros gritavam o número de assentos disponíveis em cada vôo, e os passageiros embarcavam nos aviões sem saber onde pousariam e nem se importavam. Um número cada vez maior de cidades e Estados por todo o país se ofereciam para recebê-los.

O aeroporto era uma paisagem desoladora de triagem hospitalar, com filas de pessoas em macas e outras em cadeiras de rodas, incluindo algumas já mortas, em uma ala que foi convertida no maior setor de emergência do mundo. Um espaço foi transformado em necrotério.

Uma nova onda de esforços de ajuda chegou no dia em que o presidente Bush percorreu a devastada região da Costa do Golfo de helicóptero e andou pelo que restou de Biloxi, antes de seguir para Nova Orleans, onde disse aos sobreviventes: "Eu vou partir daqui em um minuto, mas quero que vocês saibam que não vou esquecer o que vi".

Dezenas de veículos anfíbios e jipes Humvee, carregando milhares de homens da Guarda Nacional recém enviados, avançavam em Nova Orleans em um longo desfile, esperando atender as necessidades das pessoas ilhadas e restaurar a ordem em uma cidade que degenerou na falta de lei. Em outro sinal do desespero ilimitado, as autoridades reconheceram que vários policiais de Nova Orleans entregaram seus distintivos, se recusando a arriscar suas vidas para tentar impor a ordem na cidade.

Outro novo ingrediente foi a série de incêndios que surgiram e foram deixados ardendo, porque os hidrantes não estavam funcionando e não havia como os bombeiros chegarem até eles na cidade inundada.

Autoridades da FEMA, a Agência Federal de Administração de Emergência, na primeira tentativa de avaliação de quando Nova Orleans poderá ser drenada, disseram que serão necessários seis meses para bombear a água e outros três para secar a cidade. Autoridades estaduais disseram que as bombas serão acionadas na segunda-feira.

Em uma cidade ferida demais para saber o que sentir, muitos dos sobreviventes famintos aplaudiram a chegada dos caminhões de ajuda, enquanto outros, enfurecidos pela longa espera, não paravam de xingá-los.

Um marco crítico foi atingido quando o superlotado estádio Superdome, local de condições miseráveis inimagináveis, foi praticamente esvaziado no final do dia. Mas milhares de outros sobreviventes continuavam ilhados no pútrido centro de convenções. Outros permaneciam empoleirados nos tetos, mesmo tanto tempo depois da tempestade.

Ninguém sabia dizer de forma convincente quando o último dos sobreviventes será removido da cidade, apesar de as autoridades estaduais terem dito que esperam concluir tal tarefa até domingo.

Cadáveres continuam aparecendo em cada esquina.

O comboio de suprimento apareceu apenas horas depois do prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin, ter explodido durante uma entrevista de rádio, na noite de quinta-feira, censurando o governo federal, particularmente a FEMA, pelo que sentiu ter sido uma resposta insignificante e inaceitável às necessidades de sua cidade devastada.

Ao todo na sexta-feira, cerca de 19.500 soldados da Guarda Nacional chegaram à Louisiana e a Mississippi, com 6.500 apenas em Nova Orleans, a maioria policiais militares, apesar de Nagin ter mantido que o número ainda não era suficiente.

Altos oficiais e autoridades do Pentágono disseram que a presença da Guarda Nacional na zona do furacão aumentará para 30 mil nos próximos dias, a maioria na Louisiana e Mississippi, o restante no Alabama e na Flórida.

Os homens da Guarda foram posicionados nos cruzamentos chaves, e veículos do Exército patrulhavam as ruas, buscando subjugar os saques e crimes desenfreados que chocaram o país. Cerca de 300 membros da Guarda Nacional do Arkansas, que acabaram de voltar do Iraque, estavam entre os que foram trazidos de missões no exterior especificamente para impor a ordem.

"Eu tenho uma mensagem para estes arruaceiros", disse a governadora da Louisiana, Kathleen Blanco. "Estes soldados sabem como atirar e matar, e estão mais do que dispostos a fazê-lo se necessário."

Na entrevista de rádio, Nagin atribuiu grande parte dos crimes a viciados em drogas enlouquecidos pela falta dos entorpecentes.

"Eu estou confiante de que nas próximas 24 horas nós veremos uma melhoria dramática", disse o general de exército Steven Blum em Baton Rouge, a capital do Estado.

Ônibus lotados continuavam partindo da cidade com refugiados do Superdome e dos arredores do pútrido centro de convenções, os dois principais abrigos para aqueles que ficaram para trás, os conduzindo para novas vidas improvisadas no Astrodome, em Houston, e outros locais distantes como a Reunion Arena, em Dallas, e um armazém da KellyUSA, um complexo de propriedade da cidade de San Antonio, todos no vizinho Estado do Texas.

Um ônibus de evacuação, que levava 50 pessoas para o Texas, capotou na Interestadual 49, perto de Opelousas, disse a polícia, matando uma pessoa e ferindo 17 outras.

O afluxo ao Astrodome foi suspenso depois que cerca de 11 mil pessoas foram aceitas, menos da metade do que foi planejado, porque as autoridades sentiram que ele já estava suficientemente lotado.

O Superdome, onde mais de 25 mil pessoas transpiravam em condições descritas como inadequadas para animais, foi praticamente esvaziado, apesar de centenas de pessoas ainda permanecerem lá no fim da tarde de sexta-feira. Eles rebatizaram o local, repleto de privadas entupidas e relatos de assassinato e estupro, de "sewerdome" (domo do esgoto).

Edgar John Thead, 68 anos, que estava sentado com sua esposa de 65 anos, disse que estava na fila dos ônibus desde as 4 horas da manhã, mas teve que deixá-la porque sua esposa diabética não podia suportar o calor. "Eu serei o último na fila", disse ele.

Por toda Nova Orleans, milhares de pessoas, muitas delas da camada mais pobre e marginalizada da cidade, ainda não sabiam ao certo quando e como sairiam dali.

Estima-se que mais de 15 mil estejam entocados no centro de convenções de quatro andares, que a certa altura aparentemente atraiu tantos refugiados quanto o Superdome, mas foram ignorados por muito mais tempo pelas operações de resgate. As condições lá eram ainda piores do que as do Superdome, com bandidos armados assumindo o controle e em vários momentos, disseram as autoridades, repelindo os esquadrões da polícia enviados para impor a ordem.

Na manhã de sexta-feira, pessoas reunidas em pequenos grupos dentro do centro ou sentadas em cadeiras dobráveis do lado de fora lembravam um arremedo horrível de uma convenção de verdade. Em meio aos banheiros entupidos, uma mulher idosa e um adolescente estavam tendo convulsões nos braços de parentes.

Os refugiados disseram que sete cadáveres estavam espalhados no terceiro andar. Eles disseram que uma garota de 14 anos foi estuprada.

Havia um sentimento predominante de abandono. "Os caminhões continuavam passando por nós, apenas seguindo mais para o leste", disse Louis Martin Sr., um caminhoneiro que estava no centro desde terça-feira.

Durante a tarde, P. Edwin Compass, o superintendente da polícia, passou por ali em uma van e gritou que alimento e ônibus estavam a caminho. Algumas pessoas responderam com aplausos, enquanto outras vaiaram. Um mulher correu ao lado da van, gritando: "Nós não precisamos de comida. Nos tirem daqui".

Por toda a cidade, onde estava seco o bastante, as pessoas vagavam atordoadas. Ao longo da rua Saint Charles, grupos de pessoas caminhavam com sacos plásticos de pertences. Algumas tinham fugido da violência no centro de convenção.

Do lado de fora do Hyatt Hotel, ao lado do Superdome, vários ônibus de turismo com água até o tornozelo aguardavam para evacuar as pessoas que estavam dentro e nos arredores do estádio. "Tem sido o inferno", disse Donnieka Rhinehart, 26 anos, uma assistente de enfermagem que esteve no estádio com seus dois filhos pequenos desde segunda-feira. Ela disse que testemunhou um estupro e ouviu que a uma garota tinha sido degolada.

A saída mais rápida parecia ser o aeroporto, depois que as autoridades do governo conseguiram que mais de uma dúzia de companhias aéreas e operadoras de carga enviassem voluntariamente aviões para levar as pessoas para um lugar seguro. Mas as filas nunca pareciam diminuir. Assim que um avião decolava, sete ou oito helicópteros pousavam na pista com grupos adicionais de sobreviventes.

As autoridades do aeroporto não sabiam de onde vinham os helicópteros. "Os helicópteros simplesmente aparecem", disse Carolyn Lowe, uma vice-diretora do aeroporto.

Outras cidades continuaram a oferecer abrigo interino e outras formas de ajuda para as áreas afetadas. A Filadélfia anunciou que está disposta a receber mil famílias de Nova Orleans, e Detroit também ofereceu abrigo.

Nova York, Flórida, Ohio, Oklahoma, Geórgia, Califórnia, Utah, Virgínia e Washington estão entre os Estados que ofereceram apoio geral ou o recebimento de sobreviventes. Alguns dos Estados prometeram permitir que os filhos dos refugiados se matriculem em suas escolas.

Durante sua visita à área, o presidente Bush beijou duas mulheres, que choravam e disseram que perderam tudo em Biloxi, e depois caminhou pela rua com seus braços em torno delas. Falando sobre os esforços de resgate e ajuda humanitária antes de partir de Washington, Bush reconheceu que "os resultados são inaceitáveis" e prometeu fazer mais, dizendo que os US$ 10,5 bilhões em ajuda autorizada pelo Congresso eram apenas "a primeira parcela" da ajuda para o desastre.

Mas não há dúvida de que ainda resta muito perigo. Antes do amanhecer, uma explosão ocorreu em um depósito de Nova Orleans às margens do Rio Mississippi, a cerca de uma dúzia de quarteirões do Bairro Francês. E um incêndio em um depósito de petróleo do outro lado do rio lançou uma nuvem de fumaça sobre a cidade.

A situação continuava assustadora em alguns dos hospitais da cidade. Médicos, enfermeiras e pacientes do Charity Hospital continuavam implorando por ajuda para os mais de 100 pacientes ainda alojados lá, em meio a relatos não confirmados de que a violência estava impedindo a chegada das equipes de resgate. A eletricidade, alimentos e água do hospital estavam chegando ao fim.

Diretores do hospital disseram que muitos pacientes corriam risco de morrer. Havia relatos de cadáveres espalhados pelo hospital. Centenas de funcionários ainda estavam lá dentro, e alguns estavam mantendo outros vivos com fluidos intravenosos.

Aqueles que chamam Nova Orleans de lar e acalentam sua marca idiossincrática na paisagem americana só podiam imaginar como sua cidade se parecerá e quão destruída estará quando as águas forem retiradas e ela estiver seca de novo.

O que será do futuro?

O Corpo de Engenheiros do Exército prosseguia nas obras de reparo das barragens rompidas, que permitiram que as águas do Lago Pontchartrain enchessem a cidade como uma bacia, após parecer que os danos do furacão tinham cessado.

Após três dias de atrasos, o Corpo e um exército crescente de empreiteiros privados começaram lentamente a preparar a drenagem de centenas de bilhões de galões de água na cidade virtualmente submersa.

O plano era fechar os buracos abertos pelas ondas da tempestade e abrir novos buracos nos locais onde as barragens estavam mantendo a água dentro da cidade, em vez de permitirem seu escoamento.

Um fileira de caminhões basculantes e tratores amarelos começou a assentar uma estreita estrada temporária de cascalho preto e pedregulhos, da área seca no extremo norte da brecha de 90 metros em um muro do Canal da Rua 17, por onde grande parte da água da inundação passou. Ao mesmo tempo, helicópteros de carga pesada baixavam centenas de enormes sacos de areia no extremo sul da fenda.

A altura da água nas ruas e no lago vizinho se equipararam, de forma que a água não estava mais subindo. As autoridades torcem para que a fenda possa lentamente, mesmo que temporariamente, ser bloqueada. Ao mesmo tempo, o general de exército Carl Strock, comandante do Corpo de Engenheiros do Exército, disse estar preocupado com as tempestades que estão se formando no Atlântico.

"Nós queremos nos certificar de que não seremos pegos com barragens abertas por outra frente de tempestade vindo contra nós", disse ele.

Os esforços para restabelecer a vida persistiam por toda a área da Costa do Golfo, enquanto centenas de milhares ainda estavam sem eletricidade, quando não sem casas. Parentes ainda procuravam freneticamente pelos entes queridos. O número de mortos continua desconhecido, com as estimativas chegando a milhares.

Pesquisadores que sobrevoaram 290 quilômetros de costa entre Pensacola, Flórida, e Grand Isle, Louisiana, disseram que da praia até quarteirões terra adentro, não restava nada exceto lajes de concreto e pedaços de asfalto. Freqüentemente, eles disseram, era impossível dizer o que aquilo era antes de ter sido destruído.

Havia mais e mais sinais espalhados do impacto econômico debilitador. Um levantamento preliminar da indústria de ostra, um dos setores de frutos do mar que mais crescia na Louisiana, revelou que apesar do lado leste do Estado ter ficado bem, tudo a oeste de Bayou Lafourche até a linha do Mississippi foi arruinado.

A área responde por dois terços da produção de ostras do Estado, ou US$ 181 milhões por ano. Com ajuda federal, os representantes do setor disseram que poderá levar de dois a três anos para que a produção seja retomada.

A busca frenética por gasolina por parte dos motoristas da região não diminuiu, e a perturbação da rotina prosseguia. Em Hancock County, Geórgia, as escolas foram fechadas na quinta-feira por falta de gasolina.

O governador da Geórgia, Sonny Purdue, assinou uma ordem executiva suspendendo temporariamente a cobrança de todos os impostos sobre combustíveis no Estado, que passou a vigorar depois da meia-noite de sexta-feira. O governo disse que espera manter a moratória em vigor ao longo de todo o mês de setembro, mas que precisa da aprovação do Legislativo, que se reunirá em uma sessão especial na terça-feira.

"Eu acredito que é errado o Estado ter um ganho de impostos neste momento de urgência e tragédia", disse o governador Purdue.

Outros Estados também contemplavam medidas próprias. A Califórnia anunciou que iniciará uma investigação dos aumentos nos preços dos combustíveis no Estado.

Enquanto isso, em campos espalhados em locais cada vez mais remotos, inúmeros milhares de refugiados, agradecidos por estarem vivos e em terra seca, estavam lutando para entender qual será o próximo passo em suas vidas. Onde viverão e por quanto tempo, como comerão, o que será de seus empregos, quando poderão retornar, o que restará? Refugiados convivem com cadáveres, fome, homcídios e estupros George El Khouri Andolfato

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