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04/09/2005

O encrenqueiro da literatura americana é canonizado

The New York Times
Charles McGrath
Philip Roth não parece um homem que acaba de ser canonizado, nem age como tal. Ele ainda está entre nós e ainda tem o brilho nos olhos. Ele ainda atira piadas rápidas e tem um dom para a mímica que lhe teria garantido -- se a carreira de escritor não tivesse dado certo -- um lugar nos cartazes de Las Vegas. Costumava fazer um ótimo número, por exemplo, sobre por que os casais judeus guardam seus manuais de sexo no bufê.

No entanto, Roth, que cresceu no bairro Weequahic em Newark -- não exatamente um viveiro de cultura -- e que durante algum tempo nos anos 60 foi considerado o pedante das letras americanas, foi admitido ao clube literário mais exclusivo dos EUA: The Library of America [A Biblioteca da América], a bela série de edições padronizadas com capas pretas dramáticas, marcador de página em fita e papel-bíblia fabricado sem ácido. Até o tipo de letra, Gaillard corpo 10, dá aos volumes uma espécie de dignidade memorial. É uma honra geralmente reservada aos que morreram há muito tempo, como Melville e Longfellow, e somente dois outros autores vivos foram agraciados como seus membros: Eudora Welty em 1998 e Saul Bellow em 2003, quando tinham respectivamente 90 e 88 anos e praticamente haviam deixado de escrever. Roth, hoje com 72, ainda está se reinventando.

Os primeiros dois volumes acabam de sair: "Novels and Stories 1959-1962" (que inclui "Goodbye, Columbus e Outros Cinco Contos" and "Letting Go") and "Novels 1967-1972" ("When She Was Good", "Portnoy's Complaint", "Our Gang" e "The Breast"). O projeto prevê outros seis tomos, a serem publicados um por ano, num total de oito, o que o colocará em segundo lugar em espaço de estante da Library of America, perdendo apenas para Henry James, que tem 14. O último volume deverá ser lançado no 80º aniversário de Roth, em março de 2013, quando o editor Max Rudin prometeu lhe dar uma festa. Roth contou que, ao saber desse arranjo, disse a Rudin: "Max, acho melhor fazer a festa antes".

Os volumes têm na sobrecapa grandes fotos do jovem Philip Roth, de uma beleza sombria, com olhos fogosos à Tyrone Power. O projeto editorial também prevê que as fotos sejam atualizadas nos volumes subseqüentes, de modo que Roth envelhecerá gradualmente diante dos olhos dos leitores, até que no volume 8, supostamente, terá seu aspecto atual -- ainda belo, mas com menos cabelos, de sobrancelhas espessas e dignamente grisalho nas têmporas. Hoje ele poderia passar pelo presidente da Metropolitan Life, onde seu pai trabalhou durante tantos anos sem jamais ser promovido.

Roth, que em diversas épocas de sua vida foi uma celebridade relutante -- quando Claire Bloom publicou suas memórias acusando-o pelo fim de seu casamento, por exemplo --, hoje leva uma vida de calma e privacidade tolstoianas, dedicada a ler e a escrever. Ele passa a maior parte do tempo em uma casa de fazenda do século 18 em Connecticut, que comprou em 1972 -- há tanto tempo, diz ele, que hoje quase se qualifica a um ianque honorário. O lugar é tão remoto que é necessário um GPS para encontrá-lo, e tem paredes de pedra, árvores enormes e uma clareira triangular que Roth, um antigo fã de beisebol, brinca que vai transformar em campo esportivo. Nos fundos existe um estúdio com poucos móveis, forrado de lambris, onde ele escreve todos os dias, geralmente de pé, num computador sobre uma mesa alta.

A canonização não deslumbrou Roth. "O prazer inicial é maravilhoso", ele diz. "Mas depois de algum tempo é apenas mais uma edição de um livro." Por outro lado, a ocasião aparentemente o fez reavaliar-se. Na metade de sua carreira -- em romances como "O Avesso da Vida" e "Operação Shylock", e nos vários contos de Zuckerman -- Roth especializou-se em gerar diversas versões fictícias de si mesmo, e pessoalmente ele era formidável e intenso. Mas o Roth atual é mais reflexivo e sereno, ou pelo menos estava assim numa tarde recente, quando se sentou na pequena varanda atrás do estúdio e conversou sobre o que ele insiste em chamar de seu "trabalho de aprendiz".

Que aprendizado! Pensando em termos geográficos, é uma jornada que começa (em "Goodbye, Columbus") em Short Hills, Nova Jersey, no paraíso terrestre de propriedade do pai de Brenda Patimkin, o barão das pias de cozinha e de banheiro, onde as frutas se multiplicam na geladeira do porão e as árvores dão artigos esportivos, e termina no quarto de hospital em Nova York onde o pobre David Kepesh está pendurado em uma rede especial porque inexplicavelmente se transformou em um seio feminino de 70 quilos, extremamente sensível. No meio do caminho há escalas em Iowa City e Chicago ("Letting Go"), na rural Liberty Center, Illinois ("When She Was Good"), na Casa Branca paranóica do presidente Trick E. Dixon, que conspira para massacrar os Escoteiros da América ("Our Gang") e, é claro, no apartamento de segundo andar em Newark, onde Alexander Portnoy faz sexo com o jantar da família.

Roth disse que deliberadamente não releu essas antigas obras. "Não teria sido uma boa idéia", ele explicou,"porque eu leio minha própria obra, ou a de qualquer pessoa, com um lápis na mão, e ficaria tentado a fazer alterações. Mas essa parte da minha vida está encerrada há muito tempo. Sejam o que forem esses livros, eles são."

E acrescentou: "Isso é um escritor começando. Se você pensar em 'Goodbye, Columbus', 'Letting Go', 'When She Was Good' e 'Complexo de Portnoy', parecem quatro autores diferentes, porque eu não sabia que espécie de autor eu era. Talvez existam algumas pessoas que saibam, mas eu não sabia. Você precisa descobrir qual é sua força, e eu não tinha idéia."

Ele diz que escreveu "Goodbye, Columbus" e os contos reunidos nesse volume porque era isso que os escritores aspirantes faziam na época -- escreviam contos e esperavam publicá-los em lugares como "The New Yorker" e "The Paris Review", o que ele conseguiu. Então, no final dos anos 50, deliberadamente decidiu escrever um grande e ambicioso romance -- que se transformou em "Letting Go", seu livro mais extenso até agora, e que combina elementos de James, Bellow e até de Dostoiévski. Havia algo na grandeza de escrever romances, o processo de acrescentar e adensar, que o atraía enormemente, ele diz, e com exceção de uma ou duas vezes não voltou aos contos.

De 1962 a 1967 Roth quase não publicou. Foi a estiagem mais longa de sua carreira. "Eu realmente não sabia para onde ir", ele disse, "e tive dois ou três falsos começos -- significativos, de cerca de cem páginas. Eles estão na Biblioteca do Congresso -- que deveriam chamar de Biblioteca dos Falsos Começos. Então decidi que mudaria completamente para esse outro tom, tão diferente dos outros livros quanto poderia ser."

O resultado foi o romance "When She Was Good", o mais atípico dos muitos livros de Roth, que quase poderia ter sido escrito por Dreiser ou Sherwood Anderson: a história frugal e urgente de uma pequena cidade americana nos anos 40 e de uma jovem tão decepcionada com os homens de sua vida -- o pai, o marido e o tio do marido -- que se torna consumida pela raiva e a contestação. Foi calcado, segundo Roth, no tempo em que ele viveu no centro-oeste dos EUA (no início dos anos 60 ele ensinou na Oficina de Autores da Universidade de Iowa) e nas visitas que ele e sua primeira mulher, Margaret Williams, faziam à família dela em Michigan.
"A varanda da casa de sua família poderia ter sido o Taj Mahal, no meu entender", ele disse. "O jeito de falar, as atitudes, os segredos de família eram diferentes de tudo o que eu conhecia."

Mas, mesmo depois de imaginá-lo, o livro seguiu lentamente. "Acho que na Biblioteca dos Falsos Começos há oito ou nove rascunhos desse livro", disse Roth. "Mais uma vez, estamos falando do começo de um escritor, e todos os rascunhos significam que você está fazendo errado. Não são um atestado de artesania ou do fato de que você é um perfeccionista -- eles apenas atestam que você não consegue escrever a maldita coisa."

Afinal ele ficou satisfeito com o romance, mas também percebeu que não poderia continuar nessa veia. "Eu teria de ficar no centro-oeste, e teria de continuar casado", disse, rindo. Enquanto trabalhava em "When She Was Good", Roth separou-se de sua mulher e voltou para o leste. Essa volta para casa foi o grande momento de virada em sua carreira.

"Eu estava novamente em contato com meu lugar", disse Roth. "Voltando para Nova York, eu tinha amigos que eram judeus metropolitanos, cuja conversa era muito diferente da que havia lá no interior." Entre seus amigos dessa época estavam Robert Brustein, professor de teatro em Columbia; o escritor Alberto Goldman; os editores Jason e Barbara Epstein; e o cartunista Jules Feiffer, e eles se reuniam para jantares que pareciam ruidosas discussões intelectuais.

"Eram jantares hilariantes", lembra Roth. "Acho que fui incentivado pela selvageria de nossa conversa e pela rivalidade cômica. É duro estar em uma sala com Jules Feiffer e com Al Goldman, que era um grande contador de histórias. Mas não havia como colocar isso na fórmula 'When She Was Good'. Eu precisava encontrar minha liberdade como escritor -- como poderia entrar em contato com meu verdadeiro talento verbal? --, e em 'O Complexo de Portnoy' acho que consegui fazer isso, me desvencilhar de certas regras de conduta literária."

Trinta e cinco anos depois, nas páginas austeras da Library of America, "O Complexo de Portnoy" ainda soa como uma bomba. É irreverente, às vezes impudente e revoltado, cheio de sentimento e afeto pelos outros; e, naquela época de censura, certamente continha mais cenas de masturbação que qualquer livro vendido por baixo do balcão. É um livro sujo que também é extremamente engraçado e vice-versa, e, com justiça ou não, talvez seja o livro pelo qual Roth será mais conhecido, o que o fez ser rotulado de pervertido e traidor dos judeus. Roth ri ao lembrar de um capítulo cujo título ainda é um pouco arriscado para um jornal, mas acrescenta que para ele o elemento realmente perturbador do livro eram as cenas de disfunção familiar. "Muitas pessoas dentre as que se sentiram ofendidas pelo livro disseram que se ofenderam com a masturbação", ele lembra. "Mas isso é bobagem. Todo mundo conhece a masturbação. O que realmente as ofendeu foi mostrar esse nível de brutalidade em uma família judia."

Para Roth e para a ficção americana em geral, "O Complexo de Portnoy" foi o fim de uma era -- de aprender os velhos modelos literários e observar cuidadosamente as regras do procedimento e decoro literários. E foi o início de um período, que continua, de descobrir o que fazer quando não existem mais regras. "Quando terminei 'O Complexo de Portnoy' eu pensei: 'Até onde se pode ir com uma espécie de farsa hiper-realista?", disse Roth. "O que ela produziria se seguisse em frente? Para mim era mais uma experiência de exuberância verbal. O que poderia surgir? Eu não sabia. De certa maneira, estava de volta ao começo: Que espécie de escritor sou eu? Que tipo de talento eu tenho?"

Entre outras coisas, ele tinha um talento para a sátira política. "Our Gang", essa sátira misteriosamente premonitória do governo Nixon, escrita um ano antes do escândalo de Watergate, é de certa maneira uma peça de época, uma obra menor no cânone de Roth, exceto que a linguagem ambígua de Washington não mudou muito nesse intervalo. Sentado aqui em seu tranqüilo retiro e contemplando Richard Nixon, por um instante Roth ficou novamente furioso.

Alguns anos atrás, certos críticos começaram a descartar Roth. Mas a partir de "O Teatro de Sabbath", em 1995, e continuando até "Complô Contra a América", lançado há um ano, ele experimentou um extraordinário surto de renovação. "Acho que fiquei melhor", disse Roth decididamente, rejeitando a idéia de que o jovem escritor, aquele com olhos fogosos na contracapa da Biblioteca da América, teria sido capaz de fazer coisas que o mais velho não pode. Mas ultimamente ele tem pensado em escritores que não tiveram tanta sorte e se extinguiram -- Hemingway, por exemplo, cujo "Ilhas na Corrente", póstumo, Roth esteve lendo.

"A birita", ele disse. "A birita foi o problema de Hemingway, de Faulkner e muitos outros. Ambos morreram com 60 e poucos anos. É quase inconcebível."

Nesta época do ano, Roth ainda lê fora de casa no início da tarde, em uma tenda de redes contra mosquitos, até que o dia se põe, e então seu maior vício é entrar em casa para ver os ianques durante algumas horas. "Os canonizados continuam", ele disse, acrescentando que está quase terminando um novo trabalho, que descreve como "um conto muito longo, de cerca de 90 páginas, e muito sombrio". Pressionado a falar mais sobre ele, Roth disse: "É isso: 90 páginas sombrias". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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