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04/09/2005

Por que a Internet não representa a morte dos correios

The New York Times
James Fallows*
Milhões de pessoas atualmente alugam seus filmes do modo Netflix. Elas preenchem uma lista de filmes desejados a partir dos 50 mil títulos disponíveis no site da empresa e recebem os primeiros DVDs pelo correio; quando elas enviam um de volta, o próximo da lista é enviado.

O modelo Netflix tem sido exaustivamente analisado por suas implicações destrutivas, de nova economia. O que ele significará para locadoras como a Blockbuster, que até deu início a um serviço semelhante? O que ele significará para os estúdios e salas de cinema? O que mostra sobre negócios "long tail" (cauda longa, de conseqüências a longo prazo, abrangentes) -aqueles que amalgamam muitos nichos de mercado, como filmes holandeses ou musicais clássicos, em um único grande público?

Mas uma outra grande implicação mal tem sido mencionada: o que este e outros negócios semelhantes baseados em Internet representam para um firme representante da velha economia, o Serviço Postal dos Estados Unidos?

Todo dia, cerca de 2 milhões de envelopes da Netflix vão e voltam como postagem de primeira classe. Eles se juntam a milhões de outros envios de farmácias online, vendedores do eBay, Amazon.com e outros negócios que não existiam antes da Internet.

O crepúsculo da "correspondência lenta" na idade da comunicação eletrônica instantânea foi previsto pelo menos com a mesma freqüência que a chegada do escritório sem papel. Mas o consumo de papel continua aumentando. E também, com algumas mudanças internas e nuances, o fluxo de material enviado pelos correios. Em média, um lar americano recebe o dobro de correspondência por dia em comparação aos anos 70.

"A Internet está prejudicando o correio ou ajudando?" pergunta Michael J. Critelli, co-presidente da Força-Tarefa da Indústria dos Correios pública-privada. "Ela está fazendo ambos."

O emprego diário de Critelli é como executivo-chefe da Pitney Bowes - sim, aquela Pitney Bowes, antes conhecida por suas franqueadoras postais e atualmente uma empresa de "gerenciamento de correspondência e documentos". Nos últimos anos, ela também tem funcionado como um grupo de pesquisa para a indústria dos correios, encomendando uma série de estudos, disponíveis gratuitamente no endereço PostInsight.PB.com, que contêm revelações surpreendentes sobre as forcas econômicas, tecnológicas e culturais que afetam o uso dos correios.

O lado prejudicial do impacto da Internet é óbvio mas estatisticamente menos importante do que muitos imaginariam. As pessoas escrevem menos cartas quando podem enviar mensagens por e-mail. Folhear uma caixa de cartas antigas nos faz ver o que foi perdido nesta mudança: os selos bonitos, os diversos aspectos e sensações da correspondência escrita à mão ou datilografada, um objeto tangível que antes estava nas mãos do remetente.

Permanecer em contato instantâneo com parentes, filhos e colegas ao redor do mundo nos faz ver o que ganhamos.

Mas mesmo antes do e-mail, as cartas pessoais tinham encolhido para uma parcela minúscula do fluxo de correspondência. Como consultor, Fouad H. Nader escreveu em um estudo da Pitney Bowes que a correspondência pessoal foi "reduzida há muito tempo a um mínimo pela proliferação dos serviços telefônicos nos últimos 50 anos".

As cartas pessoais de todo tipo, chamadas de correspondência de "lar a lar", representavam menos de 1% das 100 bilhões de postagens de primeira classe com as quais o Serviço Postal lida anualmente. Grande parte da correspondência pessoal envolve cartões de parabenização, convites, anúncios e outras com "conteúdo emotivo", uma categoria que tem se mantido estável.

Os mesmos lares de alta renda que empregam mais correspondência por e-mail também são os que enviam e recebem mais cartas. Qualquer redução que o e-mail tenha causado na correspondência pessoal, é improvável que vá além disso.

Enquanto isso, a Internet e tecnologias aliadas estão aumentando o volume de postagens à moda antiga de três formas.

O primeiro segue o exemplo da Netflix: a efetuação pelo Serviço Postal das transações feitas pela Internet. Cerca de 2 milhões de receitas por dia -cerca de um quinto do total- são entregues como correspondência de primeira classe. Os vendedores do eBay listam 5 milhões de novos itens diariamente, e aqueles que são vendidos são enviados principalmente pelos correios. Um estudo da Pitney Bowes revelou que o varejo online está cada vez mais usando catálogos impressos enviados pelos correios para atrair pessoas aos seus sites.

A segunda força também envolve finanças. Muitos estudos concluíram que as pessoas estão cada vez mais dispostas a efetuar pagamentos online, mas que preferem receber os boletos em papel, pelo correio.

Desde o final dos anos 80, a correspondência para os lares enviada por empresas de cartão de crédito tem aumentado cerca de 10% ao ano. A vida financeira dos americanos se tornou mais complicada, em parte devido às escolhas criadas pela Internet. Por sua vez, bancos, empresas de telecomunicações, seguradoras e firmas de investimento enviam mais correspondência.

O terceiro é um sucesso inesperado: a crescente sofisticação da própria tecnologia do Serviço Postal. Todos têm certeza que a Federal Express e a United Parcel Service são capazes de rastrear cada item em seus sistemas. O Serviço Postal agora conta com um equipamento de rastreamento semelhante, e em princípio é capaz de colocar um código de barras e escanear cada envelope ou cartão postal e saber onde está a qualquer momento. Na verdade, ele faz isto por uma taxa, para empresas que querem saber se seu material chegou ao destino certo na hora certa -por exemplo, na quinta-feira que antecede a liquidação de fim de semana da loja local.

"Com o tempo, haverá uma crescente capacidade de enviar a você apenas o que lhe interessar, no momento em que estiver interessado", disse Critelli. Se você se mudou, por exemplo, isto pode significar correspondência dos novos serviços de limpeza e consertos da nova área. Critelli disse que o índice de retorno destas novas correspondências direcionadas são melhores do que os índices desoladores das campanhas de mala direta habituais.

Mas a mais tocante destes estudos de correspondência e uma pesquisa realizada pelo Serviço Postal chamado "A Hora da Correspondência".

"Dois terços de todos os clientes não esperam receber correspondência pessoal, mas quando recebem, isto faz com que ganhem o dia", ele concluiu. "Esta 'esperança' faz com que voltem diariamente." Mesmo nesta era de tecnologia, segundo a pesquisa, 55% dos americanos dizem que ficam ansiosos para descobrir o que a correspondência diária pode trazer.

Agora eu confessarei minha inclinação. Meu primeiro emprego foi em um agência dos correios. Nos dias em que era transferido da triagem de correspondência para substituir um carteiro ausente, eu me sentia como se estive levando a "hora da correspondência" para as pessoas ao longo da rota. É bom saber que tais momentos sobreviverão à Internet.

*James Fallows é um correspondente nacional do "The Atlantic Monthly". George El Khouri Andolfato

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