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05/09/2005

Rolling Stones resistem à passagem do tempo e fazem sucesso com novo álbum

The New York Times
Jon Pareles
Algumas vezes os clichês são subestimados. Mas os Rolling Stones adotaram integralmente a repetição em "A Bigger Bang" (gravadora Virgin), o primeiro álbum com novas músicas da banda a ser lançado desde 1997. E ao que parece, foi uma boa opção.

As músicas são de um conjunto Rolling Stones simples: duas guitarras, baixo, bateria, acompanhamentos de piano e o vocal de Mick Jagger, transatlântico e pendendo para os blues. Não há metais, e os cantores de apoio e os sintetizadores estão ausentes. Quase todas as 16 músicas falam de problemas relativos a mulheres, com títulos tão genéricos como "Let Me Down Slow", "Rain Fall Down", e "Dangerous Beauty". O ouvinte deve assimilar esses títulos segundo os seus significados literais: os Stones decidiram que só precisam do básico. Um refrão, um ditado popular, uma pitada de melodia e um comportamento. Eis, assim, uma música dos Stones.

Basta ouvir "Oh No, Not You Again". Ela começa com a bateria de Charlie Watts na batida "four 16th" que ele usou como base para incontáveis músicas da banda. Dois acordes oscilam entre guitarras rítmicas, e a seguir os acordes "stop-time" (ritmo descontínuo, em que se toca, apenas, o primeiro de dois compassos) retumbam, enquanto Jagger tenta reavivar uma velha chama: "Once bitten, twice shy" (algo como, "uma vez mordido, duas vezes cauteloso"), diz o vocalista subitamente, usando um clichê descarado. Quando as guitarras fazem um coro de três acordes e Richard toca a sua 10.000º versão de um ritmo de Chuck Berry, percebe-se que o resultado é inevitável: os velhos truques ainda funcionam.

Ou, funcionam, pelo menos, para uma banda. Antigamente os Stones eram o modelo que a metade dos roqueiros do universo queria seguir. Agora, no mundo do Jay-Z e do Green Day, eles são uma anomalia, recusando-se a mergulhar na aposentadoria. Eles tocam o seu antigo e artesanal rock de raízes, como se estivessem colocando em funcionamento um Ford Mustang conversível em perfeito estado de conservação. A garotada provavelmente não liga - eles têm os seus skates ou Hummers -, mas é surpreendente que tal veículo ainda consiga pegar a estrada.

"A Bigger Bang" acompanha uma turnê que teve início em agosto em Fenway Park, em Boston, e que chega ao Madison Square Garden, em Nova York, em 13 de setembro, e ao Giant Stadium dois dias depois. A banda sabe que poucas (se é que há alguém) das pessoas que pagam até US$ 450 pelos ingressos estão ansiosas por ouvirem novas músicas. Quando os Stones fizeram a sua última turnê, em 2002 e 2003, eles só contavam com uma coletânea de grandes sucessos antigos para mostrar no palco. Mas com a teimosia irredutível quanto à rotina do grupo - Jagger, 62, correndo pelos palcos e fazendo os seus rebolados e sacudidas de ombros, e apontando o dedo furiosamente, e os baby boomers (membros da geração norte-americana nascida entre 1946 e 1964) na platéia ansiando por reconquistar a juventude como o luxo supremo da idade - é possível que, para a banda, apresentar um novo álbum seja também motivo de orgulho.

"A Bigger Bang" conta com pouca concorrência para reinar como o melhor álbum dos Stones em duas décadas. Embora a banda tenha se transformado em uma máquina de turnês milionárias, ela não abriu mão dos lucros com os álbuns - desde "Dirty Work", em 1986 - que incluem uma música para o rádio, um pouco de Keith Richards e um punhado de propaganda. Os Stones tentaram se modernizar e pensar grande com o superproduzido e mal preparado "Bridges to Babylon", em 1997. Antes disso, tentaram simplificar com "Voodoo Lounge" (1994) , e "Steel Wheels" (1989), respectivamente. Mas em "A Bigger Bang", os Stones realmente parecem estar se divertindo juntos, tocando ao vivo em um estúdio qualquer.

Isso é, em parte, uma ilusão. "Oh No, Not You Again", que soa como uma gravação simples das investidas e contra-investidas das guitarras dos Stones no palco, não traz Ronnie Wood dividindo a guitarra principal e rítmica. O crédito pelas guitarras fica com Jagger e Richards (que também toca o baixo), e o instrumento soa basicamente como as interpretações deste último. O talento dos Stones para o rock, juntamente com a sua coletânea musical, tem se constituído na forma como a banda definiu informalidade como perfeição. Embora a parte rítmica (que geralmente inclui Darryl Jones no baixo) seja impecável, tudo o mais parece ser improvisado. A montagem de tudo isso por meio de edição não parece ter sido um trabalho tão casual quanto se quer dar a entender.

Os ocasionais arroubos ambiciosos em "A Bigger Bang" ocorrem na música mais simples e de estilo mais tradicional. Em "Sweet Neo Com", Jagger alterna blues na gaita e insatisfação com a retórica do governo Bush - "It's liberty for all, democracy's our style/ Unless you are against us, then it's prison without trial" ("Isto é liberdade para todos, a democracia ao nosso estilo/A menos que você esteja contra nós, neste caso é a prisão sem julgamento"). E "Back of My Hand" alerta para o "trouble a-comin" ("problemas por vir"), em um eco do Delta blues, com Jagger na guitarra de apoio.

Mas a maior parte de "A Bigger Bang" parece ser algo montado como se fosse um desafio: quantas música Jagger e Richards seriam capazes de criar a partir de uma coletânea de refrões semifamiliares e de títulos conhecidos? Mais do que o suficiente.

"Rough Justice", ecoando "Brown Sugar", dá o tom com o estilo da guitarra pendendo para um jazz algo vulgar.

"Let Me Down Slow", equivalente a "Happy", conta com uma melodia de coro de uma eficiência inteligente - uma escala descendente enquanto Jagger canta "Let me down real slow" - e uma confusão de acordes de guitarra.

"She Saw Me Coming" unifica refrão, título e vocal em uma salada de blues, e conta com algum humor essencial: "What a cast of characters/Her lovers and my friends" ("Que elenco de personagens/Os seus amantes e os meus amigos").

Duas outras músicas notáveis do álbum, "Streets of Love" ("Angie" atualizada) e "Biggest Mistake", que cai para o country, contam com letras de qualidade, deliberadamente escolhidas.

E "Driving Too Fast" parece ser uma outra variação de "Brown Sugar", que ficaria muito bem no equipamento de som da residência ou do automóvel.

Os Stones sabem qual será o destino de "A Bigger Bang". Assim como ocorreu com os outros álbuns mais recentes dos Stones, a maioria das músicas será esquecida quando a turnê acabar, e no longo prazo até mesmo as melhores serão incapazes de competir com "Gimme Shelter", "Tumbling Dice", "Honky Tonk Women", "No Expectations", "Jumpin' Jack Flash", "The Last Time" e dezenas de outras glórias passadas.

"A Bigger Bang" diz respeito a prazeres mais simples e imediatos: um som agudo, uma batida, um gemido, uma risada. Tais prazeres são suficientes para manter uma grande banda em movimento. Danilo Fonseca

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