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06/09/2005

Bush volta a Nova Orleans para reduzir estragos do furacão e prejuízos políticos

The New York Times
Elisabeth Bumiller em Washington e

Clyde Haberman em Nova York*
Em meio às críticas implacáveis à resposta do governo federal ao furacão Katrina, o presidente Bush voltou à região nesta segunda-feira (5/5), enquanto engenheiros do Exército selavam duas barragens que foram rompidas pela tempestade e cautelosamente iniciavam o bombeamento da água para fora de Nova Orleans. Bush confortou vítimas em Poplarville, Mississippi, e Baton Rouge, Louisiana, mas se viu envolvido em uma disputa com a governadora democrata da Louisiana, Kathleen Babineaux Blanco, que soube da visita de Bush pelos noticiários.

CRAIG F. WALKER/THE DENVER POST 
Muitos voltaram ao que sobrou de suas casas nesta segunda, como Richard Leefe e seu filho, Eric
"Há muito trabalho a ser feito", disse Bush para um grupo de vítimas, na maioria negros, em um abrigo improvisado, o Bethany World Prayer Center, em Baton Rouge.

Ele disse que a resposta dos americanos ao desastre foi "fantástica" e que "este país se comprometerá em fazer o que for necessário para ajudar as pessoas a se erguerem de novo".

A viagem do presidente, parte de uma grande operação de controle de danos por parte da Casa Branca, para reverter a impressão de que o governo federal fracassou em sua resposta ao Katrina, ocorreu enquanto as equipes de resgate em Nova Orleans procuravam por milhares de moradores que ainda permaneciam na cidade, muitos deles ignorando os apelos de evacuação. O segundo em comando da polícia da cidade, W.J. Riley, disse que seus oficiais estavam tentando convencer as pessoas que ficar para trás não tinha sentido, porque "esta cidade foi destruída, totalmente destruída".

Como ficou claro há dias, o número presumido de mortes seria desastrosamente alto, mas as estimativas permanecem sendo pouco mais que palpites --talvez informados, talvez não. Oficialmente, o número de mortos na Louisiana subiu para 71. Mas o prefeito de Nova Orleans, C. Ray Nagin, disse que o número de mortos poderá chegar a 10 mil.

O "Times-Picayune", o maior jornal da Louisiana, publicou uma carta aberta para Bush pedindo a demissão de todas as autoridades da Agência Federal de Administração de Emergência. "Nós estamos irados, sr. presidente, e continuaremos irados muito depois de nossa amada cidade e paróquias vizinhas estarem secas", disse o jornal, que apoiou Bush na campanha presidencial de 2000, mas não o apoiou em 2004.

Em uma nota mais positiva, os engenheiros do Exército disseram que após colocarem centenas de sacos cheios de cimento, areia e pedaços de estradas destruídas, eles fecharam a brecha na barragem do canal da London Avenue. No final da tarde de segunda-feira, as autoridades estaduais disseram que outra barragem crítica, no canal da Rua 17, também tinha sido reparada.

Com tais barreiras intactas, os engenheiros começaram a drenar as ruas inundadas e enviar a água de volta ao Lago Pontchartrain, mas com cuidado. Gregory E. Breerwood, um engenheiro municipal, disse: "Nós pretendemos fazer isto lentamente, para não sobrecarregarmos as bombas, porque já faz algum tempo que elas estão fora de serviço".

A oeste da cidade, em Metairie, os moradores foram autorizados a voltar, mesmo que apenas por um dia, para salvar o que pudessem de suas casas inundadas.

Em Baton Rouge, Blanco recebeu Bush assim que ele chegou, mas apenas depois da secretária de imprensa dela ter telefonado para alertá-la, às 6 horas da manhã, enquanto a governadora aguardava em um avião para decolar do aeroporto de Baton Rouge rumo a Houston, no Texas.

A secretária de imprensa, Denise Bottcher, disse em uma entrevista que soube que Bush estaria em Baton Rouge pelos noticiários do fim de noite de domingo e da madrugada de segunda-feira, apesar de a CNN ter divulgado a viagem do presidente para um local não especificado na Louisiana no sábado.

"Nós estamos tão ocupados que não posso ficar assistindo TV", disse Bottcher, acrescentando, "porque deveria receber tal notícia pela CNN?" Bottcher disse que ela telefonou para a Casa Branca na manhã de segunda-feira "e eles estenderam o convite".

Dana Perino, uma porta-voz da Casa Branca, disse que a Casa Branca contatou o gabinete de Blanco no domingo e a contatou na manhã de segunda-feira.

Blanco e Bush estavam em conflito por causa da presença da Guarda Nacional na Louisiana, e ambos os lados se envolveram em um apontar de dedos. Na noite de sexta-feira, Blanco se recusou a assinar um acordo proposto pela Casa Branca para dividir o controle sobre as forças da Guarda Nacional no Estado com as autoridades federais. "Ela perderia um controle que tinha desde o início", disse Bottcher no domingo.

No Bethany World Prayer Center em Baton Rouge, a primeira parada do presidente no dia, vários refugiados do furacão correram para se encontrar com Bush, mas muitos não avançaram e ficaram apenas olhando.

Uma destas pessoas, Mildred Brown, que está no abrigo desde terça-feira, disse para a agência de notícias "The Associated Press": "Eu não sou deslumbrada, eu preciso de respostas. Não estou interessada em apertos de mão. Não estou interessada em fotos para a mídia. Isto vai exigir muito dinheiro".

Um refugiado de Nova Orleans, Richard Landres, um funcionário de depósito de madeiras, se mostrou mais positivo em relação a Bush. "Eu acho que ele está fazendo o que pode", disse Landres, segundo os correspondentes da Casa Branca.

Bush tinha ao seu lado o prefeito de Baton Rouge, Kip Holden, e T.D. Jakes, um evangelista de televisão afro-americano conservador com uma megaigreja em Dallas, que foi cortejado pela Casa Branca como parceiro para tentar conquistar o voto dos negros. "Eu quero agradecer meu amigo, T.D. Jakes, por mobilizar os exércitos da compaixão para ajudar alguém como o prefeito", disse Bush.

Mais tarde em Baton Rouge, Bush falou por uma hora e meia com Blanco e uma delegação de congressistas da Louisiana, em uma reunião que Bottcher descreveu como "muito positiva" e outros participantes chamaram de áspera e sem cerimônia. As autoridades eleitas disseram que Bush praticamente só escutou.

O deputado Bobby Jindal, um republicano que representa Nova Orleans, disse depois que, apesar de o tom ter sido educado, "havia muita frustração".

"Não foi hostil", ele disse. "Foi honesta."

A viagem foi a terceira inspeção de Bush à região em uma semana. Bush esteve em Nova Orleans e Biloxi, Mississippi, na sexta-feira, e sobrevoou a área no Força Aérea Um enquanto voltava de suas férias na última quarta-feira.

Scott McClellan, o secretário de imprensa da Casa Branca, disse que Bush não foi a Nova Orleans na segunda-feira porque já a tinha visitado na sexta-feira. Mas naquela visita, Bush não foi ao Superdome ou ao centro de convenções de Nova Orleans, onde dezenas de milhares de vítimas, a maioria afro-americanos pobres, estavam desesperados há dias por alimento e água, e alguns idosos morreram em suas cadeiras de rodas.

Bush falou no aeroporto de Nova Orleans e visitou as obras de reparos em andamento na barragem da Rua 17, onde se encontrou com os trabalhadores, alguns dos quais tinham perdido seus lares.

McClellan também disse que Bush evitou Nova Orleans na segunda-feira porque não queria atrapalhar os esforços de ajuda em andamento.

Completamente destruída

"Hoje ele queria visitar os cidadãos de Nova Orleans que foram evacuados e necessitam de assistência contínua, assim como os voluntários que os estão ajudando", disse McClellan em uma mensagem por e-mail enquanto viajava pela região com Bush.

Na tarde de segunda-feira, Bush falou em uma faculdade comunitária aos moradores de Poplarville, uma pequena cidade a cerca de 65 quilômetros do litoral que foi severamente atingida pelos tornados provocados pelo furacão, e depois fez uma caminhada por uma rua suburbana.

Galhos e árvores enchiam as laterais das ruas, a eletricidade ainda não havia retornado e o fornecimento de água estava voltando lentamente, mas os danos não se igualavam nem de perto à destruição que Bush viu em Biloxi, na sexta-feira.

"Deste desespero surgirá uma costa vibrante", disse Bush para o público presente na Pearl River Community College. "Eu entendo se estiverem dizendo a vocês mesmos: 'Ora, é difícil para mim entender o que George W. está dizendo porque vi os escombros e sei o que aconteceu aos meus vizinhos'. Mas eu gostaria de voltar aqui daqui dois anos e caminhar pelas suas ruas para ver quão vital esta parte do mundo se tornou."

Alguns moradores disseram que a visita de Bush a Poplarville os animou. "Ele disse que o pior vai passar", disse Dawn Stuit, uma corretora de imóveis de 48 anos, que falou com o presidente na rua e disse que ele a beijou no rosto. Ela disse estar se sentindo melhor na segunda-feira porque ela já contava novamente com eletricidade. "Eu acho que a visita do presidente teve algo a ver com a volta da energia elétrica", disse ela.

Outros moradores viram a visita do presidente com raiva. "Se precisam de uma semana para perceberem que as pessoas precisam de água e comida, talvez eles precisem recuar e pedir demissão", disse Robert Duke, 43 anos, que estava aguardando em uma longa fila por gasolina em Poplarville. "Alguns deles merecem ir para a cadeia por isto."

Nova Orleans deu alguns poucos passos lentos na árdua jornada para a recuperação. A energia elétrica até mesmo foi restaurada em alguns bairros.

Nagin, que se enfureceu contra o governo federal dias atrás pelo que chamou de resposta lenta à crise, exibia um tom mais positivo, apesar de sua estimativa de um grande número de mortos. "Nós estamos fazendo um grande progresso agora", ele disse ao programa "Today" da rede NBC. "Os trabalhos estão embalando. Eu estou começando a ver algumas tarefas críticas sendo concluídas."

Após dias de saques e relatos de assassinatos e estupros, a polícia de Nova Orleans e as tropas militares assumiram o controle. "Nós continuamos em estado de confinamento", disse Riley, o superintendente assistente do departamento de polícia. "Nós queremos assegurar que os saqueadores tenham uma força muito séria para enfrentar."

"Eu sinto que a cidade está bastante segura", disse ele. "O caos está dando lugar a um caos organizado. Está melhor agora."

Uma importante questão, ele disse, é remover da cidade os moradores restantes para a preparação da limpeza. "Nossos oficiais estão dizendo para as pessoas que não há nenhum sentido em ficar", disse Riley. "Não há lares para onde ir, não há hotéis. Nós estamos dizendo às pessoas que esta cidade foi destruída, completamente destruída."

As autoridades dos serviços sociais na Louisiana disseram na segunda-feira que cerca de 114 mil pessoas se refugiaram em abrigos que vão da Virgínia Ocidental até Utah [ambos Estados muito distantes do Estado da Louisiana]. O maior número, 54 mil, permaneceu na Louisiana, mas um número quase igual está no Estado vizinho do Texas.

As autoridades também disseram que nos últimos três dias elas receberam 90 mil pedidos de vales-refeição para as vítimas do furacão. Elas disseram que normalmente processam 1.300 pedidos por dia.

Os problemas de longo prazo diante das populações ao longo do Golfo do México foram levantados pelos ex-presidentes George H.W. Bush e Bill Clinton. Assim como após o tsunami asiático, o presidente Bush pediu aos dois ex-presidentes que ajudassem a levantar dinheiro para as vítimas do Katrina.

"A recuperação levará dois anos", disse o ex-presidente Bush em Houston, enquanto ele e Clinton anunciavam a criação de um novo fundo. Ele acrescentou: "O trabalho é grande demais, esmagador demais, para um grupo sozinho".

Clinton tocou na necessidade de encontrar empregos para as pessoas que podem ter deixado suas casas por um bom tempo. "Uma das coisas que precisamos perguntar é: o que podemos fazer para dar incentivos para as pessoas conseguirem empregos nos locais para onde se mudaram", disse ele. "Muitas destas pessoas ficarão longe de suas casas por um ano ou mais."

*Campbell Robertson contribuiu com reportagem em Poplarville, Mississippi, e Michael Luo contribuiu com reportagem em Baton Rouge, Louisiana. Mas o presidente entra em choque com a governadora da Loiusiana George El Khouri Andolfato

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