UOL Notícias Internacional
 

06/09/2005

Para alguns, Katrina é sinônimo de bons negócios

The New York Times
Simon Romero*

Em Houston, Texas
Talvez nenhuma cidade nos Estados Unidos seja um melhor lugar do que Houston para transformar a tragédia do Katrina em oportunidade. E certamente ninguém acusaria esta cidade de ser tímida em buscar lucrar com as conseqüências de um furacão. As prestadoras de serviços do setor petrolífero daqui já estão correndo para realizar os reparos nas plataformas marítimas danificadas no Golfo do México, e a promessa de muito trabalho fez com que as ações de duas grandes empresas, a Halliburton e Baker Hughes, atingissem altas recordes na semana passada.

Vincent Laforet/The New York Times 
Refinaria de petróleo destruída na Louisiana: uma oportunidade para empresas de Houston

O Porto de Houston está se preparando para um aumento de tráfego, devido ao desvio dos navios cargueiros dos portos de Pascagoula, Mississippi, e Nova Orleans.

Os donos de espaços comerciais daqui estão testemunhando um aumento nos aluguéis, à medida que as empresas de Nova Orleans, incluindo o mais antigo banco da cidade, lutam para estabelecer novas sedes em Houston, ajudando a reaquecer seu estagnado mercado imobiliário. Com um brio que deixaria um advogado que corre atrás de ambulâncias orgulhoso, uma empresa, a National Realty Investments, está oferecendo financiamento especial "apenas para sobreviventes do furacão", sem entrada e com descontos nos custos de transferência.

Mesmo pequenas empresas e hotéis baratos estão se beneficiando com o aumento da população, que poderá chegar a 250 mil pessoas. Algumas lojas de ferragens já venderam todo seu estoque de galões para gasolina e geradores de eletricidade para pessoas que estão se preparando para um eventual retorno para a região devastada.

"A sensação é de que as únicas coisas que restaram no sul da Louisiana são cobras e jacarés", disse John E. Olson, co-administrador da Houston Energy Partners, um fundo hedge que opera em um arranha-céu no centro. "Houston está prestes a passar por um boom."

Há muito conhecida por seu fervor comercial, Houston é a maior cidade do Sul dos Estados Unidos e tem uma população metropolitana de mais de 4 milhões de habitantes. Ela tem um dos portos mais movimentados do país e continua sem rival como centro do setor americano de energia.

A Halliburton, por exemplo, mudou sua sede de Dallas para Houston em 2003, se juntando a dezenas de empresas sediadas aqui que prestam serviço para os produtores de petróleo e gás natural.

A Halliburton difere de muitos prestadores de serviço à indústria petrolífera por também ter muitos negócios com o governo federal. Semelhante aos seus contratos no Iraque, a Halliburton tem um contrato com a Marinha que já a mantinha ocupada depois do furacão Katrina. A unidade KBR da empresa já estava realizando reparos e limpeza em três instalações navais no Mississippi na semana passada.

A Halliburton também planeja ir para Nova Orleans para iniciar os reparos em outras instalações navais assim que for considerado seguro fazê-lo, disse Cathy Mann, uma porta-voz.

Os executivos de outras empresas de Houston disseram que não perderam tempo na execução dos reparos no Golfo do México, onde pelo menos 20 plataformas de petróleo e perfuratrizes foram danificadas ou destruídas. A Tetra Technologies, que repara plataformas velhas no golfo ou simplesmente as desativa, já tinha funcionários em um helicóptero fazendo o levantamento dos estragos no dia seguinte à passagem da tempestade.

"Eu sempre odeio falar dos aspectos positivos em uma situação como esta, mas certamente representará um crescimento dos negócios nos próximos seis a 12 meses", disse Geoffrey M. Hertel, o executivo-chefe da Tetra. Na sexta-feira, a Tetra conseguiu enviar uma barcaça de 800 toneladas que possui, a Arapaho, até o golfo para ser usada em reparos em plataformas, disse Hertel.

Alguns aqui estão tomando cuidado para não parecerem muito alegres com a miséria de Nova Orleans. As autoridades de Houston apontaram rapidamente na última sexta-feira (2/9) que estavam disponibilizando um centro de convenções no centro para os refugiados da zona do desastre, potencialmente forçando o cancelamento de alguns eventos. E a Autoridade do Porto de Houston tentou atenuar o golpe a outros portos com o recebimento de cargas desviadas da Louisiana e do Mississippi.

"Nós esperamos sinceramente que estes grandes portos da Costa do Golfo possam voltar a operar o mais breve possível", disse o porto em uma declaração na semana passada.

Mas os novos negócios são obviamente bem-vindos. "Nós estamos recebendo telefonemas de sondagem desde o início da semana", disse Felicia Griffin, uma porta-voz do porto, na sexta-feira. "Nós estamos preparados para fazer o que for necessário para atender as necessidades de nossos clientes."

Se a tempestade funcionar em benefício de Houston, certamente não seria a primeira vez que um desastre natural de tamanho extraordinário provocaria um dinamismo econômico aqui. O furacão de 1900 na vizinha Galveston, que matou mais de 6 mil pessoas e quase devastou completamente a mais próspera cidade comercial no sul dos Estados Unidos, abriu o caminho para Houston, 80 quilômetros continente adentro, a despontar como um centro regional para transporte e refino do petróleo descoberto nos campos do Leste do Texas.

O deslocamento de empresas de Nova Orleans para Houston representa uma aceleração abrupta de uma tendência que está em curso há décadas. Muitas grandes empresas, particularmente aqueles do setor de energia, têm optado por tal mudança ao longo dos anos, deixando Nova Orleans cada vez mais dependente do turismo e de outros setores de serviços.

Especulação imobiliária

O aumento da atividade econômica em Houston desta vez poderá aumentar a fortuna de uma cidade que ainda está lutando para se recuperar do colapso da Enron e duas décadas de cortes de vagas de trabalho no setor de energia, que tem encolhido à medida que cai a produção de petróleo no Texas e nos Estados Unidos.

O aumento nos preços do petróleo e do gás natural nos últimos dois anos fortaleceram as finanças das maiores empresas de energia de Houston, mas fez pouco para melhorar as perspectivas de emprego na cidade, onde a taxa de desemprego era de 5,5% em julho, em comparação com a taxa nacional de 5%.

Durante o último boom do petróleo nos anos 70, 150 mil novos empregos foram criados no setor de equipamentos de campo de petróleo, segundo Barton Smith, diretor do Instituto para Previsão Regional da Universidade de Houston.

Mas desde os anos 80, cerca de 130 mil destes empregos foram perdidos à medida que a exploração de petróleo e gás natural migra para longe de Houston, principalmente para países no Oeste da África, Oriente Médio e Ásia --e com as empresas passando a produzir equipamento mais barato no exterior.

Houston continua essencial na pesquisa de energia e continua sendo o centro para acordos e finanças do setor de energia, mas tais atividades empregam relativamente menos pessoas.

Em parte como conseqüência, Houston possui um dos mais moribundos mercados imobiliários de cidades grandes. O valor dos imóveis residenciais caiu 2,4% na área de Houston em 2004, com as execuções de hipoteca subindo no ano passado para o nível mais alto desde 1989, segundo o Serviço de Listagem e Informação de Execução Hipotecária. Os imóveis comerciais se saíram um pouco melhor, com um índice de ociosidade no distrito comercial central de até 23% neste verão, em conseqüência do excesso de construções.

"Há muitos casos de empresas vindo em busca de espaço temporário em Houston", disse Louis B. Cushman, vice-presidente da Cushman & Wakefield, uma imobiliária especializada em imóveis comerciais daqui. Em seu próprio escritório, Cushman finalmente conseguiu sublocar um espaço extra para uma empresa com oito a dez funcionários de Nova Orleans. Cushman disse que sua firma encontrou escritórios para duas empresas que já decidiram que não vão voltar.

Uma empresa que trocou temporariamente Nova Orleans por Houston é a Whitney Holding, a empresa dona do Whitney National Bank, fundado em 1883, o que o torna o mais antigo banco em operação em Nova Orleans. Outra empresa de exploração de petróleo de Nova Orleans, a Energy Partners Ltd., disse em uma declaração na semana passada que está transferindo temporariamente sua sede para Houston. Outras empresas farão o mesmo.

"Está explodindo", disse Stephen D. DuPlantis, diretor administrativo sênior da CB Richard Ellis. "Quando falo com proprietários de prédios comerciais, eles dizem que as pessoas não estão nem mesmo negociando. Apesar de ser trágico para Nova Orleans, isto é uma dádiva para Houston."

John C. Goff, executivo-chefe da Crescent Real Estate, a maior proprietária de espaços comerciais da cidade, disse que as empresas de Nova Orleans estavam sondando aluguéis de um ano ou mais, em um indício de que estão hesitantes em voltar tão cedo.

Dwaine Ofczarzak, gerente geral da Buffalo Hardware, uma loja independente perto do centro de Houston, tem visto forasteiros que parecem estar se preparando para partir e alguns que pretendem se estabelecer aqui.

Na sexta-feira, Ofczarzak vendeu todo seu estoque de galões para gasolina para pessoas da Louisiana. Mas alguns clientes estavam vindo para fazer chaves para seus novos lares e falando sobre matricular seus filhos nas escolas locais. "Eu tenho amigos que já fizeram isto", disse ele.

Mas os recém-chegados precisarão de algum tempo para se habituar. "Todos ainda estão um tanto estupefatos", disse Ofczarzak. "E com todos chegando em ônibus, isto provoca uma resposta emocional."

*Damon Darlin contribuiu com reportagem em Nova York e Maureen Balleza, em Houston. Houston toma cuidado para não parecer muito alegre com tragédia George El Khouri Andolfato

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