UOL Notícias Internacional
 

07/09/2005

Bush promete apurar falhas na reação ao Katrina

The New York Times
Anne E. Kornblut e Carl Hulse*

Em Washington
Sob uma intensa artilharia política devido à sofrível resposta do governo federal ao furacão Katrina, o presidente Bush tentou nesta terça-feira (6/9) desviar o debate público para o progresso feito na região, prometendo investigar as falhas iniciais, no momento em que parlamentares ansiosos retornam ao Congresso afirmando que também pedirão investigações e que solicitarão auxílio financeiro para as vítimas da tempestade.

Chang W. Lee/The New York Times 
Governo federal reforça a presença em Nova Orleans, com integrantes da Guarda Nacional

Bush, em uma série de reuniões na Casa Branca, disse que, nesta semana, enviará o vice-presidente Dick Cheney à costa do Golfo para evitar que quaisquer obstáculos de ordem burocrática atrasem as medidas para a recuperação da zona atingida. Membros do Congresso exigiram respostas e aguardam uma nova medida para o envio de verbas emergenciais por parte da Casa Branca, calculando que o custo crescente desta recuperação será de pelo menos US$ 50 bilhões, podendo atingir até o dobro desta cifra.

Chegando do recesso de verão, os parlamentares questionaram a eficácia da Agência Federal de Gerenciamento de Emergência (Fema, na sigla em inglês), e prometeram realizar audiências e possivelmente criar legislações para corrigir as falhas no sistema de resposta a tais situações.

"É difícil entender a falta de prontidão e a resposta inicial ineficiente a um desastre que foi previsto há anos, e com relação ao qual foram divulgados alertas claros durante dias seguidos", disse a senadora Susan Collins, republicana do Maine, e diretora da Comissão Parlamentar para Questões de Governo e Segurança Interna, que conduzirá uma das principais investigações.

Os líderes parlamentares dizem que haverá pelo menos dois conjuntos de audiências congressuais, que terão início já na semana que vem, a fim de que se examinem questões como as falhas na estrutura de comando e de controle, deficiências no plano de evacuação para Nova Orleans, e qualquer problema organizacional que possa ter contribuído para a morosidade da resposta.

As audiências também investigarão se o governo desperdiçou oportunidades críticas de reforçar os diques em Nova Orleans, e se o planejamento para futuros desastres é suficiente.

Os parlamentares, pelo menos os do Senado, disseram que é muito cedo para se discutir se Bush será chamado a depor. Pela primeira vez desde que o furacão atingiu o sul do país, Bush se reuniu com os líderes dos dois partidos, culminando um dia de atenção política constante dirigida a uma crise que expôs falhas no Partido Republicano e que ameaça tomar conta de toda a agenda parlamentar.

Bush prometeu liderar uma investigação para determinar o que ocorreu de errado, embora um porta-voz da Casa Branca tenha rapidamente explicado a declaração do presidente, dizendo que a investigação só ocorrerá mais tarde, a fim de evitar que haja desvio de recursos destinados às medidas de recuperação da zona de desastre.

Bush também resistiu aos pedidos para que demitisse Michael Brown, o diretor da Fema, que se transformou em um pára-raios para os ataques na semana passada, quando disse que não sabia da existência de uma crise que se desenrolava no centro de convenções de Nova Orleans, um problema que vinha sido exibido pela televisão durante dias. Em vez disso, Bush acusou os críticos de fazerem um "jogo de acusações", e disse que continuará concentrado na crise imediata, enquanto a população evacuada se espalha pelo país.

"Temos que resolver problemas. Somos solucionadores de problemas", disse o presidente. "Haverá bastante tempo para que as pessoas descubram o que ocorreu de certo e de errado. Mas agora estou interessado em ajudar a salvar vidas".

O que está em jogo no futuro imediato é a quantia que o governo destinará à recuperação e à reconstrução: Bush assinou uma medida para a liberação de uma verba de US$ 10,5 bilhões na sexta-feira, e os líderes congressuais disseram esperar o pedido de uma quantia suplementar de US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões.

O senador Harry Reid, democrata de Nevada e líder da minoria no Senado, disse que a cifra total poderá chegar a US$ 150 bilhões --um número incrível, que pressionaria ainda mais um orçamento já apertado devido ao custo mensal de quase US$ 5 bilhões da guerra no Iraque, e ao déficit do orçamento federal, que é de US$ 333 bilhões.

A projeção de US$ 150 bilhões foi rapidamente contestada pelo deputado republicano Tom DeLay, o líder da maioria na Câmara, que sugeriu que Reid está "fazendo jogadas políticas" ao apresentar uma cifra em um momento no qual nenhuma projeção oficial está disponível. Mas as autoridades da Casa Branca não contestaram estimativas da ordem de dezenas de bilhões de dólares.

Autoridades graduadas do governo rejeitaram acusações de que o governo federal foi lento para responder ao desastre, e detalharam progressos feitos nas frentes militar, educacional e de serviços sociais. Após uma reunião com a secretária de Educação, Margaret Spellings, Bush disse que o governo está revendo formas de ajudar os Estados a absorver os custos da incorporação de milhares de crianças em sistemas escolares públicos em Estados que receberam grandes grupos de flagelados.

No Pentágono, autoridades graduadas chamaram atenção para a chegada de tropas nas áreas atingidas nos últimos dias, afirmando que mais de 41 mil membros da Guarda Nacional e cerca de 17 mil soldados da ativa estão envolvidos neste momento na missão de ajuda. O general Richard B. Myers, diretor do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, elogiou aquilo que descreveu como uma resposta militar mais do que adequada à tempestade.

"Não só não houve atrasos, mas creio que nos antecipamos, em muitos casos --não em todos os casos--, mas em muitos casos, ao apoio que se fazia necessário", disse Myers em uma entrevista coletiva à imprensa, no Pentágono. "E estávamos providenciando este apoio antes mesmo de recebermos ordens formais para que o fizéssemos".

Mesmo assim, o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, disse que ordenou às forças armadas que fizessem um estudo das "lições aprendidas" sobre a resposta dos militares ao furacão e que determinassem se tal resposta poderia ter sido providenciada com mais antecedência.

E Bush, no primeiro dentre vários eventos do dia relativos ao furacão, prometeu inesperadamente que liderará pessoalmente uma investigação para determinar se houve falhas iniciais.

"O que pretendo fazer é liderar uma investigação para descobrir o que ocorreu de certo e de errado", disse Bush, após uma reunião com o seu gabinete, em resposta ao questionamento sobre quem será considerado responsável pela lentidão da resposta.

"E vou lhes dizer uma coisa", continuou o presidente. "É muito importante que entendamos o relacionamento entre o governo federal, o governo estadual e o governo local, quando se trata de uma grande catástrofe. E o motivo pelo qual isto é importante é que nós ainda vivemos em um mundo confuso. Queremos deixar claro que somos capazes de responder de forma apropriada se houver um ataque com armas de destruição em massa ou uma outra grande tempestade. E, assim, vou descobrir com o tempo o que ocorreu de certo e de errado".

Pressionado para revelar os detalhes da investigação, Scott McClellan, o porta-voz da Casa Branca, disse que ela não terá início até que a crise imediata tenha passado.

Descrevendo-a como uma "análise", e não uma investigação, McClellan não informou se as falhas quanto às medidas de emergência serão examinadas por uma comissão independente, como ocorreu no caso dos ataques de 11 de setembro, e não revelou nem mesmo quando o presidente deseja que o processo tenha início.

"Haverá um momento para se fazer uma análise rigorosa", disse McClellan. "Mas agora não é a hora para tal coisa".

Em vez disso, foi o Congresso que deu a impressão de estar preparado para assumir a liderança da investigação. O deputado Tom Davis, republicano do Estado da Virginia e presidente da Comissão da Câmara de Reforma Governamental, anunciou que a sua comissão dará início a audiências sobre a resposta do governo, uma ação tomada depois que líderes do Senado anunciaram os seus próprios planos para promover audiências. Isso pareceu ter pegado os líderes da Câmara com a guarda abaixada na terça-feira.

"Examinaremos as audiências de Davis", disse o líder Dennis Hastert. "O que não queremos que aconteça é que as pessoas que estão nos Estados do Golfo venham até aqui e falem com 13 ou 14 grupos diferentes".

O senador Joseph I. Lieberman, democrata de Connecticut, que ajudará a liderar a investigação senatorial com Collins, disse que o fracasso para se responder ao desastre abalou a confiança da população na capacidade do governo de protegê-la.

"O furacão Katrina foi, de certa forma, o teste mais significantivo para o nosso novo sistema nacional de resposta e prontidão no caso de emergências, que foi criado depois do 11 de setembro. Obviamente, o sistema não passou no teste", declarou Lieberman.

Alguns parlamentares republicanos disseram ter tentado alertar os líderes de seu partido para aqueles que acreditavam ser riscos políticos relativos ao desastre. Eles temem que os republicanos tenham se exposto a um risco político significativo no que diz respeito às eleições do ano que vem, ao não parecerem, a princípio, ter levado a catástrofe a sério.

O furacão já atrapalhou a agenda legislativa para o outono. Líderes da Câmara e do Senado disseram que a sua principal missão nas próximas semanas será fornecer ajuda às vítimas da tempestade, assim como dar início ao trabalho de reconstrução das comunidades da Costa do Golfo do México destroçadas pelo Katrina.

Sob a pressão dos democratas, o Senado adiou uma votação de uma proposta para a eliminação de impostos sobre imóveis, e parlamentares da Câmara disseram esperar um atraso na votação de uma lei de orçamento que exigiria cortes nas verbas para os sistemas de saúde e educacional.

*Colaborou Thom Shanker. País segue vulnerável a tragédias naturais e atentados, diz oposição Danilo Fonseca

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