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07/09/2005

Drenagem começa recuperação de Nova Orleans

The New York Times
Jere Longman, em Nova Orleans, e

Sewell Chan em Baton Rouge, Louisiana*
As águas da inundação começaram a ser drenadas desta cidade incapacitada nesta terça-feira (6/9), com um punhado de bombas entrando alternadamente em operação. Mas com a crescente preocupação com vazamentos de gás, incêndios, água tóxica e doenças disseminadas por mosquitos, o prefeito C. Ray Nagin disse que deseja aumentar a pressão sobre os cerca de 5 mil a 10 mil moradores restantes para deixarem a cidade.

Chang W. Lee/The New York Times 
Moradores são convencidos a deixar Nova Orleans para evitar risco de explosões e doenças

O prefeito disse que está emitindo novamente a ordem de evacuação obrigatória e pediu às pessoas desgarradas que partam imediatamente, dizendo que não quer que a possibilidade de explosões e doenças aumente um número de mortos que, segundo o tenente David Benelli, presidente da Associação da Polícia de Nova Orleans, poderá ser de 2 mil a 20 mil pessoas.

Em Washington, o presidente Bush prometeu uma investigação sobre o que saiu errado na resposta ao furacão Katrina e enviou o vice-presidente Dick Cheney à Costa do Golfo, para derrubar quaisquer obstáculos burocráticos que possam retardar a recuperação. O Senado e a Câmara também anunciaram sua própria investigação da resposta do governo, com uma importante senadora a chamando de "miseravelmente inadequada".

"Se nosso sistema realizou um trabalho tão ruim sem a presença de um inimigo, como os governos federal, estaduais e locais lidariam com a ocorrência de um ataque terrorista sem alerta prévio e que visasse provocar o maior número de mortes e destruição possíveis?" disse a senadora Susan Collins, republicana do Maine, em Washington, enquanto o Comitê de Segurança Interna do Senado se preparava para audiências públicas na próxima semana.

As autoridades disseram que cerca de 60% de Nova Orleans ainda continua debaixo d'água, mas que isto representa uma redução do pico de cerca de 80%. Grande parte do ganho ocorreu porque o Corpo de Engenheiros do Exército começou a abrir fendas nas barragens da cidade, depois que abaixou o nível das águas nos bolsões de água à sua volta. Os buracos asseguram que as barragens --projetadas para manter a água fora da cidade, que fica abaixo do nível do mar-- não as reterão.

Quatro das aproximadamente 40 estações de bombeamento na área de Nova Orleans estavam operando na terça-feira ao menos em capacidade parcial, de forma alternada, disseram as autoridades; uma quinta gigante, no Canal da Rua 17, local de uma grande abertura nas barragens, foi ativada mas teve que ser desligada novamente, porque as bombas sugaram escombros.

As autoridades disseram que serão necessários 24 dias para bombear as águas do setor leste de Nova Orleans, e 80 dias para eliminar a inundação de Chalmette, uma área na Paróquia de Saint Bernard.

Espera-se que o baixar das águas revelará ainda mais corpos, que serão identificados por uma equipe de patologistas forenses, médicos, legistas e agentes funerários das funerárias locais. "Nós vamos recolher uma vítima falecida de cada vez e contar uma de cada vez", disse Robert Johannessen, um porta-voz do Departamento de Saúde e Hospitais da Louisiana. Sobre o processo de identificação dos corpos, ele disse: "Poderá levar dias, poderá levar anos, poderá levar uma vida inteira".

O número oficial de mortos na Louisiana é de 83, mas as autoridades estaduais disseram que a contagem só começou. No Mississippi, o governador Haley Barbour anunciou na noite de terça-feira que "a estimativa não oficial, mas crível" do Estado para o número de mortos atualmente é de 196, mas que ainda está aumentando. Barbour disse que mais de um quarto das mortes ocorreu nos condados do interior do Estado, não ao longo da costa.

Os evacuados continuavam a voltar para a paróquia de Jefferson para checar suas casas, lotando estradas e pontes. A Interestadual 10, que liga Baton Rouge e Nova Orleans, enfrentou congestionamentos de 8 quilômetros.

As autoridades da Louisiana ofereceram o primeiro vislumbre do estrago ambiental. O secretário estadual de qualidade ambiental, Michael D. McDaniel, disse que os habitats de vida selvagem ao longo de centenas de quilômetros de costa foram destruídos e que o furacão aumentou a lenta erosão costeira que já tornou a Costa do Golfo mais vulnerável a furacões e tufões.

McDaniel disse que não há alternativa para bombear bilhões de galões de água salobra de volta ao Lago Pontchartrain, mas disse que é cedo demais para determinar o mal causado pelas toxinas e poluentes que estão sendo lentamente drenados de Nova Orleans.

"Eu sei que há muita discussão sobre a 'sopa tóxica' e o 'preparado da bruxa'", disse ele. "Eu não vi nenhum dado até o momento que apóie tal tipo de declaração. Nós sabemos e esperávamos a presença de muitos contaminantes bacteriológicos na água."

Em Nova Orleans, quatro grandes incêndios surgiram na manhã de terça-feira, os vazamentos de gás eram numerosos e os mosquitos começaram a voar em torno das vítimas mortas do furacão, disse Nagin.

"Eu não quero fazer nenhuma declaração que sugira que estou desistindo de Nova Orleans", disse Nagin em uma coletiva de imprensa. "Mas é uma situação muito volátil na cidade no momento. Há muito petróleo na água e há vazamentos de gás onde está borbulhando, e há fogo acima disto. Se estes dois se unirem, Deus nos proteja. Eu não sei o que vai acontecer."

Ele disse em uma entrevista que uma nova ordem de evacuação eliminará as isenções que permitiam que as pessoas continuassem em hotéis e hospitais. Basicamente, a cidade ficará fechada para todos exceto policiais, militares e autoridades de segurança pública e saúde, enquanto é drenada a água e os serviços são restaurados. A 82ª Unidade Aerotransportada fechou o Hotel Hyatt aos civis na tarde de terça-feira.

A nova ordem de evacuação já foi preparada e logo será implementada, disse o prefeito, apesar de as autoridades estaduais da Louisiana terem questionado sua autoridade para emitir tal comando. "Eu não me importo, já estou fazendo isto", disse Nagin. "Nós temos que tirar as pessoas."

Isto significou que as pessoas estavam novamente limitadas ao Centro de Convenções da cidade, onde 25 mil pessoas ou mais ficaram ilhadas em condições desesperadoras por dias. Na Saint Charles com Louisiana, cerca de duas dúzias de evacuados foram acompanhados por autoridades aduaneiras federais e colocadas em um ônibus com destino ao Centro de Convenções, de onde receberiam transporte aéreo para fora da cidade.

Ao ser informado que algumas pessoas estavam esperando até três horas no Centro de Convenções até serem evacuadas, Nagin disse que isto representava uma melhoria considerável em comparação aos cinco dias que foram necessários para as pessoas serem evacuadas na semana passada.

"Está ficando terrível e realmente fétido", disse Lucas Russ, 65 anos, um funcionário aposentado de escola, enquanto se preparava para embarcar em um ônibus com uma sacola de pertences na Saint Charles com Louisiana.

Ele disse que os soldados da Guarda Nacional lhe disseram que ele tinha que partir e que não receberia mais comida nem água. Os oficiais da Guarda Nacional negaram isto, e Nagin disse que muitas pessoas que estão sendo evacuadas estão delirando, gravemente desidratados, sem sua medicação e precisando de cuidados médicos imediatos.

O prefeito disse que a Guarda Nacional lhe perguntou se a entrega de provisões não encorajaria as pessoas a ficar, mas que sua resposta foi: "Não façam mal a ninguém, não permitam que ninguém passe fome, não permitam que ninguém fique sem água e sempre tratem todos com respeito".

Isto deixou os oficiais com a dúvida sobre como encorajar fortemente os persistentes a partirem sem forçá-los a deixarem suas casas contra sua vontade.

"Eu não acho que faríamos algo assim", disse o capitão Marlon Defillo, um porta-voz da polícia de Nova Orleans. "Você terá pessoas desafiadoras que não vão partir. Eu não acho que isto seria bom para a imagem."

Mas alguns oficiais disseram que poderão eventualmente ser levados a forçar a saída das pessoas.

O general de brigada Michael P. Fleming, um comandante da Guarda Nacional, disse: "É uma decisão difícil. Entre o prefeito e a governadora, se eles decidirem que isto deve ser feito, o Departamento de Polícia de Nova Orleans, a Polícia Estadual e a Guarda Nacional teriam que participar. Nós os ajudaríamos a fazê-lo se fôssemos ordenados".

Com a ajuda de 4 mil soldados da Guarda Nacional e 4 mil soldados adicionais da 82ª Aerotransportada, Nova Orleans agora estava em segurança, com os saques reduzidos a níveis mínimos, segundo Warren J. Riley, o superintendente assistente da polícia de Nova Orleans.

"Eu acho que estamos dobrando a esquina", disse Nagin.

Ainda assim, partes da cidade como o Nono Distrito e o leste de Nova Orleans, assim como Chalmette, na vizinha Paróquia de Saint Bernard, continuam inundadas, e poderá levar até dois meses para que a eletricidade seja plenamente restabelecida nas áreas mais duramente atingidas, disseram as autoridades. E os policiais e bombeiros foram vacinados contra hepatite, cólera, tifo, tétano e difteria.

A espinha da Avenida Saint Charles, com seus vários carvalhos quebrados e os trilhos do bonde entrelaçados com as linhas de transmissão de força caídas, fornecia na terça-feira uma visão dos sucessos e fracassos do esforço de recuperação de Nova Orleans. Perto da Saint Charles com Josephine, um incêndio consumiu dois quarteirões da cidade, disseram oficiais da Guarda Nacional de Oklahoma.

Em Lee Circle, Victor Mejia, um zelador de 58 anos, permanecia na sombra e disse não ter intenção de partir. "Eu moro aqui", disse ele. "Para onde eu vou?"

Com a atenção se voltando para o que saiu errado, Nagin disse que queria uma investigação independente dos erros, dizendo que acredita que a questão está além do alcance dos políticos para resolver. Ele culpou a falta de coordenação, lenta implementação de um plano de resgate e o que chamou de "dança" entre as autoridades federais e estaduais para determinar quem estava encarregado.

Ele disse que aceita qualquer crítica à sua própria forma de lidar com a crise.

"Minha grande pergunta para qualquer um que esteja tentando transferir culpa é: 'Onde você estava?'" disse Nagin. "Eu estava aqui. Eu sei o que aconteceu. Eu caminhei entre as pessoas no (estádio) Superdome e no Centro de Convenções. Eu vi bebês morrendo. Eu vi idosos tão cansados que diziam: 'Apenas me deixe deitar e morrer'. Eles podem falar. Que venham. Eu estou pronto para isso."

*Michael Cooper contribuiu com reportagem em Jackson, Mississippi; Anne E. Kornblut em Washington; e Matthew L. Wald em Vicksburg, Mississippi. Prefeito não quer que pessoas sejam constrangidas a sair da cidade George El Khouri Andolfato

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