UOL Notícias Internacional
 

08/09/2005

Egito vota na primeira eleição com múltiplos candidatos

The New York Times
Michael Slackman

no Cairo, Egito
Os egípcios votaram na quarta-feira na primeira disputa presidencial do país com vários candidatos, e apesar do Egito ainda claramente não ter se livrado de décadas de governo de um só homem, um só partido, as ruas estavam calmas, manifestantes foram autorizados a bloquear o trânsito da cidade e os eleitores puderam votar em alguém que não Hosni Mubarak.

Esta eleição esteve longe de ser livre e limpa, com base nas visitas aos locais de votação ao redor da cidade. Mas foi um passo à frente, independente de quão pequeno, para um país que tem operado sob estado de emergência há décadas, que nunca permitiu que candidatos da oposição aparecessem na cédula presidencial e que rotineiramente sancionava a violência como instrumento no dia da eleição, disseram analistas políticos e críticos do governo.

"Há violações, mas em comparação a antes, foi muito melhor do que esperávamos", disse Gasser Abdel Razeq, um membro do conselho da Organização Egípcia de Direitos Humanos e um freqüente crítico das táticas pesadas do governo.

Grupos cívicos independentes disseram que o comparecimento dos eleitores pareceu ter sido baixo, mas as autoridades eleitorais disseram que os números não estariam prontamente disponíveis. O partido de Mubarak estava ansioso para aumentar a credibilidade da eleição encorajando um alto comparecimento.

Ainda assim, estava claro que Mubarak venceria -e que seus simpatizantes fariam o que fosse necessário para que isto acontecesse. Os locais de votação por toda a capital estavam lotados de cabos eleitorais de Mubarak, e em vários distritos por toda a cidade pessoas que prometiam votar no presidente ganhavam rifas de prêmios, que incluíam um apartamento, uma peregrinação a Meca, um dormitório completo, televisores, refrigeradores e fogões.

Os locais de votação abriram às 8 horas da manhã e fecharam às 10 da noite. Mubarak enfrentou nove oponentes, apesar de que apenas dois tinham um número significativo de eleitores. Após tantos anos no poder, e com um sistema de favores políticos que emprega cerca de 7 milhões de pessoas, era esperado que Mubarak venceria com facilidade. Segundo a lei, após a contagens dos votos, a comissão tem três dias para anunciar os resultados oficiais.

Em uma coletiva de imprensa no fim de noite, o ministro da informação, Anas El Feky, reconheceu que ocorreram alguns problemas nos locais de votação, mas enfatizou a natureza sem precedente das eleições.

Mesmo antes do início da votação, havia preocupação de que a eleição seria marcada por fraude e manipulação, porque foi impedida a presença de monitores externos. Uma comissão especial para eleição presidencial, que foi criada pela emenda constitucional que permitiu a eleição com múltiplos candidatos, proibiu a presença de monitores estrangeiros. A comissão também proibiu as organizações cívicas de atuarem como monitores das urnas - depois reverteu tal decisão, horas antes da abertura das urnas, dando a poucos grupos a chance de estabelecer operações de monitoramento por todo o país. Os únicos monitores previstos eram os juízes, que ficaram sentados no interior dos locais de votação, afastados das atividades e táticas de pressão política que transcorriam do lado de fora.

"Eu estou realmente triste por esta comissão ter fracassado em estabelecer as regras desejadas de integridade e garantias de transparência", disse Muhammad El Sayed Said, vice-diretor do Centro Ahram de Estudos Políticos e Estratégicos, financiado pelo governo. "O que eles parecem estar dizendo, juntamente com as autoridades do governo, é 'vocês devem confiar em nós'."

A comissão se recusou a explicar suas decisões -e representantes do partido do governo disseram que não criticariam a comissão por respeito à Constituição.

Sem monitores na maioria dos quase 10 mil locais de votação, foi praticamente o Partido Nacional Democrata de Mubarak que dirigiu o processo de votação. Se lhes foi ordenado a agir desta forma ou não, muitas pessoas agiram como se o dia da eleição fosse um exercício de adoração ao líder.

"Eu voto no presidente Mubarak porque não consigo encontrar nenhum candidato mais simpático do que Hosni Mubarak", disse Mohany Ziad, 48 anos, enquanto colocava seu voto na urna no bairro de Torah, no Cairo, pressionando depois seus vizinhos a votarem da mesma forma.

Em muitos locais de votação, os cabos eleitorais de Mubarak literalmente se debruçavam sobre os eleitores enquanto estes davam seu voto. Murad Mahmoud Abdullah registrou em vídeo as pessoas em seu local de votação, e a mensagem de intimidação era clara. Khalid Ahmed Muhammad ficava ao lado dos eleitores cantando "Hosni! Hosni!" de forma ameaçadora. E em pelo menos um local de votação, a única pessoa que parecia estar encarregada era um representante do partido do governo que ostentava um button de Mubarak enquanto dizia às pessoas onde votarem.

Também ocorreram outros problemas. A tinta vermelha usada para marcar o dedo do eleitor, para impedi-lo de votar novamente, era facilmente lavável com água. Os locais de votação eram caóticos e desorganizados, com os eleitores sendo forçados a esperar enquanto os mesários procuravam nomes em longas listas antes de serem autorizados a votar. Muitas pessoas disseram que lhes foi negado o direito de votar porque seus nomes não puderam ser encontrados nas listas. A campanha de Mubarak também se queixou de que os juízes não estavam seguindo as regras e estavam atrasando o processo.

E havia a rifa. As pessoas eram atraídas aos locais de votação por cabos eleitorais do Partido Nacional Democrata, que ofereciam a possibilidade de prêmios extravagantes em troca do voto. Em muitos casos, as pessoas caminhavam para a urna segurando a rifa na mão. Representantes do partido do governo disseram que a rifa não foi organizada pelo partido, que provavelmente foi obra dos simpatizantes locais.

Ainda assim, mesmo alguns dos maiores críticos do governo disseram que apesar do processo ter parecido altamente manipulado a favor de Mubarak, ele foi bem melhor do que em anos anteriores, quando os eleitores eram pressionados por capangas, e as urnas eram enchidas descaradamente.

"Ainda é cedo demais para dizer, mas parece que há algumas violações, mas nada grande", disse Ghada Shahbandar, fundador de um comitê que buscou monitorar as eleições. "De certa forma, nós podemos dizer que há um maior grau de justiça em comparação a antes."

Mesmo os críticos mais francos de Mubarak -membros do movimento chamado Kifaya, ou Basta- ficaram surpresos quando lotaram o centro simbólico da cidade e foram autorizados a cantar slogans antigoverno por horas, sem serem atacados ou perseguidos pela polícia.

"Nós estamos um tanto chocados por não terem batido em nós", disse Ahmad Salah, um membro do Kifaya que era um dos vários manifestantes que bloqueavam o trânsito na praça Tahrir.

Apesar da vitória estar virtualmente assegurada para Mubarak e seu partido, o comparecimento continuava sendo uma preocupação. Após tantos anos de governo de um só partido, que enrijeceu a participação política, as autoridades disseram que o comparecimento nas cidades era tradicionalmente de 4%, e no interior, onde os favores políticos levam pessoas às urnas, geralmente por volta de 15%. Membros da campanha de Mubarak disseram que esperavam por mais de 25% - e autoridades do governo esperavam por 35% a 45%, números que observadores políticos consideraram improváveis.

A meta dos simpatizantes de Mubarak era conquistar votos suficientes para dar credibilidade ao quinto mandato do presidente. E campanha elaborou um processo para conseguir isto. Trabalhando em uma tenda branca armada no bairro de Heliopolis, no Cairo, 500 cabos eleitorais ficavam ao telefone tentando mobilizar os eleitores.

Assessores dos dois principais oponentes de Mubarak, Ayman Nour, do partido Amanhã, e Noaman Gomaa, do partido chamado Wafd, acusaram o esforço para mobilizar os eleitores de ter se transformado em uma manipulação imprópria -uma acusação negada pela campanha, dizendo que ela apenas era melhor organizada.

"Eles estão trazendo um grande número de pessoas em ônibus e as transportando de um local a outro para darem seu voto para Mubarak", disse Gamila Ismail, a esposa de Nour. "Eles vêm em grandes números, e isto fará uma grande diferença."

Mubarak anunciou seis meses atrás que apoiaria eleições com múltiplos candidatos, depois ajudou a promover a aprovação da emenda constitucional que permitiu tal disputa. Mas a emenda também criou uma comissão de monitoramento que está na prática acima da lei. Não é possível apelar de seus decretos -e isto permitiu ao governo e ao partido de Mubarak rechaçar qualquer crítica ao processo eleitoral.

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