UOL Notícias Internacional
 

08/09/2005

Furacão pode ter destruído universo musical de Nova Orleans

The New York Times
Ben Ratliff
New Orleans é uma cidade de jazz, mas também de funk, de bandas de metais, de hip-hop e de jam-band. Ela possui músicos de jazz de fama internacional, bem como astros do hip-hop, e ainda uma verdadeira cultura musical de rua de subsistência. Grande parte da sua música está vinculada à geografia, aos bairros e às multidões.

Tudo isso era uma verdade incontroversa até a segunda-feira da semana
passada. Agora o futuro das bandas de metais e dos desfiles dos Mardi Gras Indians, para citar dois exemplos, parece particularmente sombrio caso os bairros em que atuavam tenham sido destruídos pela inundação, e ainda mais sombrios caso os turistas não retornem rapidamente à cidade para injetar dinheiro novo na tradição desses grupos.

Embora não se conheça toda a amplitude dos estragos, não há dúvidas de que estes foram severos - para as famílias, os instrumentos, os registros históricos, os clubes e os trajes artísticos. "Quem sabe se ainda existe alguma fantasia de Mardi Gras Indian em Nova Orleans?", questionou Don Marshall, diretor da Jazz and Heritage Festival Foundation.

"Vários dos grandes músicos vinham das áreas de Treme e de Lower Ninth Ward", disse o trompetista Kermit Ruffins, falando de Houston, na quarta-feira, em uma entrevista telefônica. Ruffins, um dos mais populares músicos de jazz em Nova Orleans, construiu o seu nome na cidade devido, em parte, à sua regular apresentação às quintas-feiras, nos últimos 12 anos, no Vaughan's, um bar no bairro de Baywater, onde à meia-noite se servia arroz com feijão vermelho. Agora o Vaughan's pode estar destruído, assim como a sua nova residência, que não ficava muito longe do bar.

Na noite de sábado, Ruffins voou de volta a Nova Orleans, após uma
apresentação em San Diego, depois que ouviu o primeiro dos alertas
alarmantes sobre a tempestade. Ele foi até uma serraria para comprar tábuas de madeira, com as quais vedou 25 janelas de sua casa, e depois foi se divertir nos bares da cidade, quando brincou com os amigos, dizendo que o local em que se encontravam poderia estar submerso no dia seguinte.

Na manhã seguinte ele fugiu com a família para Baton Rouge, e agora está em Houston, prestes a se instalar em apartamentos desta cidade, junto com mais de 30 parentes. Ele recebeu várias ofertas de trabalho em Houston, e já está pensando no futuro, naquilo que chama de "a nova Nova Orleans".

"Creio que a cidade acabará ocupando uma área menor", afirmou. "Eles terão que construir alguns superdiques".

"Acho que, assim que terminem o trabalho, tal desastre nunca mais acontecerá", acrescentou o trompetista. "Vamos trazer os músicos de volta, as bandas de metais, os músicos de jazz funeral, e todos os outros".

As bandas de metais atuam durante o ano todo - não só no anual Jazzfest,
onde vários visitantes podem ouvi-los ao vivo, e nos funerais de jazz, mas também nos cerca de 55 clubes de diversão e filantropia, cada um dos quais realiza um desfile anual. Trata-se de uma cultura intensamente local, e que vinha prosperando nos últimos anos. A música das bandas de metais, de ritmo funky e intenso, pode se transformar facilmente, passando de um evento social de bairros a um espetáculo de clubes.

Bandas de metais como Rebirth, Dirty Dozen e Soul Rebels têm se saído bem ao atuarem como entidades comerciais. Membros da Stooges Brass Band foram parar em Atlanta, e os do Li'l Rascals em Houston. Pode haver uma diáspora significativa dessas bandas antes que os músicos sejam capazes de voltar a Nova Orleans (O site do Rebirth, www.rebirthbrassband.com traz uma lista constantemente atualizada dos músicos da banda cujo paradeiro é conhecido).

Já a tradição Mardi Gras Indian é mais frágil. Monk Boudreaux é líder dos Golden Eagles, uma das cerca de 40 tribos secretas Mardi Gras, que são conhecidas não só pelas suas fantasias exóticas, mas também pelos seus desfiles competitivos pelos bairros na época do Mardi Gras (os "índios" Mardi Gras não são índios norte-americanos, mas sim moradores dos bairros de trabalhadores negros).

Boudreaux, que está em segurança com a filha em Mesquite, no Texas, não passou por grandes problemas na sua casa no bairro Uptown durante a tempestade. Mas quando partiu, na semana passada, o nível da água no bairro chegava à sua cintura. Ele é pessimista quanto à possibilidade de a tradição Mardi Gras sobreviver em outra cidade. "Não conheço nenhum outro Mardi Gras fora de Nova Orleans", explica.

Atualmente, uma cidade do jazz é definida por até que ponto os músicos
residentes possuem carreiras internacionais. A maior parte dos músicos de jazz de Nova Orleans exibia uma tendência para permanecer na cidade (cerca de vinte nas duas últimas décadas, inclusive vários "Marsalises", são exceções óbvias).

Mas, como todo mundo sabe, o jazz é crucial para Nova Orleans, e Nova
Orleans é crucial para combinar as partes constituintes do jazz; as suas
influências espanhola, francesa, caribenha e do oeste da África. O fato de tantos músicos serem ligados a alguma das grandes famílias musicais da cidade - Lastie, Brunious, Neville, Jordan, Marsalis - ainda confere a grande parte do cenário musical um senso de nobreza intrínseco.

"Enquanto Nova York tem uma indústria do jazz, Nova Orleans possui uma
cultura do jazz", disse Quint Davis, diretor do Jazzfest (e por falar em
Jazzfest, Davis disse não estar pronto para discutir se haverá um festival em abril do ano que vem. "Primeiro estou lidando com a questão das vidas e da subsistência das pessoas que fazem o festival", explicou).

E a maior parte do jazz em Nova Orleans aborda esse estilo musical de forma direta. "Todo mundo busca a revelação mais quente e nova", diz Maurice Brown, um jovem trompetista de Chicago que vinha galgando os escalões do cenário jazzístico de Nova Orleans nos últimos quatro anos, antes que a tempestade levasse a sua casa e o seu carro. "As pessoas procuram se manter fiéis à melodia".

Gregory Davis, trompetista e vocalista da Dirty Dozen Brass Band, um dos
grupos de maior sucesso da cidade, disse que o músico típico de Nova Orleans ficou muito vulnerável, devido à forma como mora e trabalha (a casa de Davis fica no bairro Gentilly, disse ele na semana passada, por telefone, da residência do irmão, em Dallas).

"Grande parte dessas pessoas que tocavam nos clubes não tem casa própria", explica. "Eles ficarão a mercê dos donos dos imóveis. Para alguns deles, tocar nos clubes era a única forma de ganhar algum dinheiro. Se esses músicos voltarem e não encontrarem moradias a preços acessíveis, sofrerão um grande golpe".

Louis Edwards, romancista de Nova Orleans e um dos produtores do Jazz and Heritage Festival, disse: "Nenhuma outra cidade está tão equipada para lidar com isso". Morador do French Quarter, na semana passada Edwards estava refugiado na casa da mãe, em Lake Charles, Louisiana.

"Pensem no jazz funeral", disse ele. "Em Nova Orleans nós respondemos ao
conceito de tragédia com alegria. Essa é uma filosofia poderosa para se
sustentar uma cultura".

Boudreaux, chefe dos Golden Eagles, tem a sensação de que a sua própria
fantasia de Mardi Gras Indian está intacta. Ele tomou o cuidado de colocá-la em um local seco da casa antes de partir. "Eu só tenho que voltar para casa e tirar a fantasia do alto daquele armário", afirmou. Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host