UOL Notícias Internacional
 

08/09/2005

Uma Nova Orleans irreal, onde os mortos estão esperando

The New York Times
Dan Barry

em Nova Orleans
No distrito comercial no centro da cidade, em um trecho seco da Union Street, passando o caixa eletrônico do Omni Bank, diante de um estacionamento oferecendo descontos para aqueles que chegam mais cedo, há um cadáver. Seus pés se projetavam para fora de uma lona azul molhada. Seus joelhos estavam erguidos em rigor mortis.

Seis soldados da Guarda Nacional passaram por ele na tarde de terça-feira e dois se benzeram fazendo o sinal da cruz. Um soldado tirou uma foto como um participante de convenção fazendo turismo, e então foi embora. Nova Orleans, setembro de 2005.

As horas passaram, veio o anoitecer do toque de recolher e o corpo lá permanecia. Um soldado estadual da Louisiana na esquina sabia a respeito: uma vítima de assassinato, com ferimento de pancada, uma de várias na área. A polícia o marcou com cones de trânsito talvez quatro dias atrás, ele disse, e então brincou que se você quisesse matar alguém aqui, este era uma bom momento.

A noite chegou, então a manhã, o meio-dia, outro dia de sol castigando um filho morto desta cidade.

O fato de haver um cadáver na Union Street pode não chocar; no rastro do furacão da semana passada, há certamente centenas, provavelmente milhares. O que é notável é o fato de que em uma rua do centro de uma grande cidade americana, um cadáver pode decompor por dias, como carniça, e isto ser aceitável.

Bem-vindo a Nova Orleans no pós-apocalipse, meio seca e meio inundada: pestilenta, lúgubre, em uma calma não natural. Moradores desalinhados emergem de uma mata alagada para dizer coisas estranhas, e então retornam à podridão. Carros seguem na contramão na interestadual e ninguém se importa. Incêndios queimam, cães reviram o lixo, e antigos sinais dos bons tempos foram substituídos por ameaças rabiscadas à mão como uma na Charles Street: "Eu vou atirar no seu traseiro miserável -seja bonzinho e vá embora".

O incompreensível se tornou tão rotineiro aqui que tende a induzir você à aceitação. No domingo, por exemplo, vários soldados na Jefferson Highway tinham armas apontadas para as cabeças de vários homens prostrados no chão, suspeitos de terem invadido uma loja de aparelhos eletrônicos. Um carro parou bem ao lado daquela cena tensa e o motorista se reclinou para fora de sua janela para fazer uma pergunta aos soldados:

"Ei, vocês sabem como chegar na interestadual?"

Talvez a lenta aceitação do horripilante aqui -não em Bagdá, não em Ruanda, aqui- esteja enraizada na intensa cobertura da mídia das conseqüências do furacão: corpos boiando mais cidades destruídas é igual a notícia velha. Talvez as preocupações do vivos superem em muito a dignidade de um cadáver na Union Street. Ou talvez a nação esteja entorpecida com o choque pós-traumático.

Vagar por Nova Orleans nesta semana, longe das coletivas de imprensa e dos esquadrões de busca e resgate, fornece vislumbres assombrosos do passado, presente e futuro, com um raro conforto encontrado no, digamos, cartaz branco tremulando, não em sinal de rendição e também de promessa, na esquina da Poydras com a Saint Charles Avenue.

"Nós Sobreviveremos", ele dizia, como se expressando um voto diante dos batalhões de tratores que algum dia virão derrubar bairros destruídos pela água e rearranjar a lama da Louisiana para a infra-estrutura de uma Nova Orleans totalmente diferente.

Mas aqui está a Nova Orleans de hoje, onde hidrantes de incêndio abertos jorram a última coisa necessária nestas ruas; onde um dos muitos cheiros presentes - o de carne podre - é melhor do que um guia para indicar a presença de um mercado; e onde imagens de ironia imploram para ser notadas. As contas do Mardi Gras (o carnaval de Nova Orleans) incrustadas na lama pela pegada da bota de um soldado. Os cartazes de "para viagem" do lado de fora de restaurantes que foram saqueados. O quiosque na esquina exibindo a manchete de 28 de agosto do "New Orleans Times-Picayune": "Katrina Faz Mira".

Hora do rush no centro agora significa picapes levando homens armados com óculos de sol, utilitários esporte cheios de repórteres de fora da cidade famintos por ação, e um tanque ocasional. Os únicos que tomam ônibus são suspeitos de olhar opaco caminhando de forma arrastada dois a dois no terminal, que agora serve como uma prisão improvisada.

Talvez alguns deles tenham ajudado a arrombar a porta do Williams Super Market, no antes desejável Garden District, e quem poderia acusá-los se tudo o que quisessem fosse comida naqueles primeiros dias desesperados? Os intrusos levaram água, cerveja, cigarros e alimentos. Eles não levaram vinho nem cartões postais de Nova Orleans.

Do outro lado do centro, do outro lado da Canal Street no Bairro Francês, a mais estridente e irreal das avenidas americanas agora é pouco mais do que um corredor vazio com sacadas. A ausência do doce jazz, de alguém dizendo amorosamente "ma cher", de homens exibindo crachás de convenção e emitindo gargalhadas forçadas - a ausência de pessoas - assalta os sentidos mais do que qualquer cheiro. Passando o famoso Cafe du Monde, onde uma leve brisa girava os ventiladores de teto para ninguém, passando a estátua de Joana D'Arc com brilho dourado, um homem saiu do nada na Royal Street. Foi perguntado a ele: "Onde fica a Saint Bernard Avenue?"

"Cadê o gelo?" ele perguntou de volta, com os olhos semicerrados de forma ameaçadora. "Cadê o gelo? Saint Bernard fica naquela direção, mas cadê o gelo?"

Nos saturados de água Sétimo, Oitavo e Nono Distritos, as ruas e bairros seriamente danificados levam nomes de santos que não puderam protegê-los. Seja lá o que foi que a natureza tenha poupado, a natureza humana interveio para fornecer uma espécie de democracia na destruição.

No Whitney National Bank na Saint Claude Avenue, pedaços de vidro em forma de diamante se espalhavam da porta destruída, oferecendo uma visão de uma mesa de café no interior. Uma mulher grande chamada Phoebe Au apareceu para informar que homens a arrebentaram com um caminhão. Ela desapareceu em meio aos escombros, e uma mulher magra chamada Toni Miller apareceu para corrigir o relato.

"Que besteira ela disse a você?" ela perguntou. Então disse: "Eles usaram marretas".

Mais adiante na Saint Claude Avenue, onde tanques passavam por um prédio em chamas, as ruas estavam obstruídas por ônibus municipais vandalizados. A cidade os estacionou às margens do rio por causa do furacão, mas alguns marginais os pegaram para farrear em passeios gratuitos pelas ruas sem lei, e depois os descartaram.

Na Clouet Street, onde um incêndio que já dura dias continua queimando um depósito, um homem de bicicleta atravessou a fumaça para se apresentar como Strangebone. As noites sem energia elétrica ou água foram duras, especialmente desde que a polícia levou a arma que ele estava carregando - "Eles me surraram e ameaçaram me matar", disse ele - mas há benefícios neste novo mundo.

"Você consegue ver as estrelas", ele disse. "É maravilhoso."

Hoje, as tropas começaram a executar a promessa do prefeito C. Ray Nagin de evacuar à força quaisquer residentes desafiadores demais ou estúpidos demais para permanecerem na metrópole tóxica. Eles revistavam as ruas em busca de pessoas como Strangebone e Au.

Enquanto isso, de volta ao centro, as sombras de outra noite cobriam como água escura o cadáver de alguém. George El Khouri Andolfato

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