UOL Notícias Internacional
 

09/09/2005

Comecemos a apontar os responsáveis pelo caos

The New York Times
Paul Krugman

Em Nova York
NYT Image

Paul Krugman é colunista
Para compreender a história da resposta do governo Bush ao desastre, acompanhe as frases de efeito.

Primeiro, lembre do testemunho de Joseph Allbaugh ao Congresso em 2001. Allbaugh foi a primeira pessoa nomeada por Bush para chefiar a Agência de Gerenciamento de Emergências Federais (Fema). A agência, disse ele, ia enfatizar a "Responsabilidade e Responsabilização" (letras maiúsculas e negrito na declaração original). Ele repetiu a frase várias vezes.

O que talvez quisesse dizer era que governos estaduais e municipais não deviam contar com a Fema para livrar suas culpa, se não se preparassem adequadamente para o desastre. Deviam aceitar a responsabilidade de proteger seus habitantes e seriam responsabilizados, caso não o fizessem.

Mas essas regras eram para os pequenos. Agora que o governo Bush remendou sua própria resposta ao desastre, alega que não devemos usar o "jogo da culpa" [blaming game]. Scott McClellan repetiu essa frase 15 vezes no curso de duas conferências com a imprensa na Casa Branca.

Se esse fosse o primeiro grande desastre no governo Bush, ou se o conjunto de erros na resposta ao furacão Katrina fosse fora do padrão, talvez fizesse sentido evitar as críticas. Mas mesmo na análise mais generosa possível, este é o segundo grande desastre das políticas do governo, depois do Iraque. E o conjunto de erros foi consistente --há paralelos impressionantes entre os erros que o governo fez no Iraque e os erros da semana passada.

No Iraque, o governo mostrou uma combinação de paralisia e negação depois da queda de Bagdá, enquanto uma onda de saques destruía grande parte da infra-estrutura.

A mesma imobilidade de animal na frente dos faróis prevaleceu quando o Katrina se aproximou e atingiu a Costa do Golfo. A tempestade deu suficientes avisos. Na tarde de segunda-feira, 29 de agosto, o alagamento de Nova Orleans já tinha se iniciado --as autoridades da cidade confirmaram publicamente o rompimento no Canal da Rua 17 às 14h. Mesmo assim, na terça-feira, as autoridades federais ainda estavam minimizando o problema, e a ajuda em grande escala só chegou na sexta-feira.

No Iraque, a Autoridade Provisória da Coalizão dirigiu o país durante o primeiro e crucial ano depois da queda de Saddam --período em que um governo eficaz talvez tivesse detido a insurgência nascente. No entanto, sua equipe era constituída de pessoas contratadas com bases ideológicas e em conexões pessoais, não em qualificações. Em certa altura, o irmão de Ari Fleischer era o responsável pelo desenvolvimento do setor privado.

O governo seguiu os mesmos princípios para ocupar a Fema, que havia se tornado uma organização altamente profissional durante os anos Clinton, mas sob Bush voltou ao seu padrão anterior, de cabide de empregos.

Como disse a rede de TV Bloomberg News, os altos escalões da agência "são compostos de pessoas que compartilham dois traços: lealdade ao presidente George W. Bush e pouca ou nenhuma experiência em gerenciamento de emergência."

Agora todos sabem como foi que o atual diretor da Fema passou de sua ocupação anterior, de supervisor de exibições de cavalos, para a supervisão da resposta do país ao desastre, sem nenhuma qualificação além do fato de ser colega de quarto de Allbaugh durante a faculdade.

Só o que está faltando na história do Katrina é um esforço de reconstrução caro, com acordos lucrativos para empresas que tenham conexões políticas, mas que não conseguem prestar os serviços essenciais. Mas dê-lhes um tempo --também estão trabalhando nisso.

Por que o governo repetiu os mesmos erros duas vezes?

Porque não prestou atenção no preço político da primeira vez.

O governo conseguirá fugir da responsabilidade novamente?

Algumas das táticas que usou para obscurecer seu fracasso no Iraque não estão disponíveis desta vez. A realidade da catástrofe na nossa frente, em nossas televisões, apesar de a Fema agora estar tentando impedir a mídia de mostrar imagens dos mortos. Além disso, desta vez, aqueles que fazem as perguntas duras não podem ser acusados de prejudicar as tropas.

No entanto, outros fatores que permitiram que o governo fugisse à responsabilidade pela bagunça no Iraque ainda estão operantes. A mídia pode ser seduzida pelas histórias de "ele disse que ela disse", em vez de censurar o que realmente aconteceu.

O esforço para transferir a culpa para as autoridades estaduais e municipais está sendo feito. Campanhas para difamar os críticos vão começar em breve, se já não começaram. E o poder político será usado para impedir qualquer investigação independente.

Será suficiente para permitir que o governo não seja culpado por seu papel em outro fracasso? Esperemos que não: se não for responsabilizado pelo que acaba de acontecer, vai continuar repetindo seus erros. Michael Brown e Michael Chertoff receberão medalhas presidenciais, e o próximo desastre será ainda pior. Cabide de empregos de amigos de Bush não quer assumir sua culpa Deborah Weinberg

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