UOL Notícias Internacional
 

09/09/2005

Política causou atraso no socorro a Nova Orleans

The New York Times
Eric Lipton, Eric Schmitt e Tom Shanker*

Em Washington
Enquanto Nova Orleans degenerava no caos na semana passada e a governadora da Louisiana pedia por 40 mil soldados, os principais assessores do presidente Bush debatiam se o presidente devia assumir o controle da caótica missão de ajuda humanitária, sob comando da governadora, para que tropas de combate do serviço ativo pudessem ser enviadas para impor a ordem.

Michael Stravato/The New York Times 
Kevin J. Eaton vive com a família em ginásio em Houston após perder tudo em Nova Orleans

Por motivos políticos e de praticidade, membros do Departamento de Justiça e do Pentágono, e eventualmente a Casa Branca, decidiram não pedir ao presidente que assumisse o comando do esforço invocando a Lei de Insurreição, que permite que o presidente, em momentos de inquietação, comande as forças do serviço ativo nos Estados para cumprimento da função de manutenção da lei.

Em vez disso, as autoridades de Washington decidiram contar com o número crescente de soldados da Guarda Nacional que estavam a caminho da Louisiana, que estavam sob controle da governadora Kathleen Babineaux Blanco.

À medida que cresciam as críticas à resposta ao furacão Katrina, uma das principais perguntas era por que mais tropas não foram disponibilizadas mais rapidamente para restaurar a ordem e oferecer ajuda à cidade inundada. Entrevistas com autoridades em Washington e na Louisiana mostraram que à medida que a situação ficava mais caótica, elas estavam discutindo questões complicadas envolvendo a autoridade federal e estadual, pesando a realidade da logística militar e talvez atropelando um ao outro na crise.

As autoridades em Washington sentiram que certamente Blanco teria resistido à entrada de forças de combate do serviço ativo em seu Estado sem estarem sob seu comando. Apesar de as tropas poderem realizar missões de ajuda sem a autoridade legal da Lei de Insurreição, oficiais militares e autoridades do Pentágono disseram que nenhuma força do serviço ativo poderia ter sido enviada para o caos de Nova Orleans na quarta ou quinta-feira sem enfrentar problemas de lei e ordem.

Mas igualmente importante para o governo era a preocupação com a mensagem que seria transmitida, caso um presidente removesse uma governadora do Sul, de outro partido, do comando de sua Guarda Nacional, segundo autoridades do governo, Pentágono e do Departamento de Justiça.

"Você pode imaginar como seria visto um presidente dos Estados Unidos de um partido, removendo preventivamente uma governadora de outro partido do controle de suas forças, a menos que a situação da segurança deixasse completamente claro a incapacidade dela de exercer com eficácia sua autoridade de comando e que a falta de lei era o resultado inevitável?" perguntou um alto funcionário do governo, que falou na condição de anonimato porque as discussões foram confidenciais.

As autoridades na Louisiana concordaram que a governadora não abriria mão do controle sobre as tropas em seu Estado, como seria exigido para o envio de um grande número de soldados do serviço ativo à área, antes da ordem ser restaurada. Mas elas também disseram que estavam tão desesperadas por ajuda que teriam apreciado a assistência dos soldados do serviço ativo.

"Eu preciso de tudo o que você tiver", Blanco disse ter dito para Bush na última terça-feira, quando Nova Orleans estava inundada. Em uma entrevista, ela reconheceu que não especificou que tipo de soldados eles deviam ser. "Ninguém me disse que eu precisava pedir isto. Eu achei que tinha requisitado tudo o que tinham", disse ela. "Nós estávamos vivendo em uma zona de guerra àquela altura."

A governadora ilustrou sua posição quando, na madrugada de sexta-feira, ela rejeitou uma proposta mais modesta de estrutura de comando híbrida, na qual tanto a Guarda Nacional quanto as tropas do serviço ativo ficariam sob o comando de um general três estrelas do serviço ativo --mas apenas após ele ingressar na Guarda da Louisiana.

Também foi questionado se as tropas do serviço ativo poderiam responder mais rapidamente e em maior número do que os soldados da Guarda Nacional.

Na última quarta-feira, autoridades do Pentágono disseram que mesmo a 82ª Divisão Aerotransportada, que tem uma brigada de prontidão para se deslocar em questão de 18 horas, não poderia chegar mais rapidamente do que 7 mil soldados da Guarda Nacional, que são especificamente treinados e equipados para a função de manutenção da lei civil. No final, o afluxo de milhares de soldados da Guarda Nacional, especialmente policiais militares, foi acelerado por outros Estados.

"Eu estava lá. Eu vi o que precisava ser feito", disse o general de exército H Steven Blum, chefe do Escritório da Guarda Nacional, em uma entrevista. "Ela era a força mas rápida, mais capacitada e mais apropriada para chegar lá no tempo permitido. E é disto que se trata."

Mas um alto oficial do Exército expressou não ter entendido por que as tropas do serviço ativo não foram convocadas mais cedo, dizendo que os soldados da 82ª Aerotransportada estavam prontos para partir do Forte Bragg, na Carolina do Norte, no domingo, um dia antes da chegada do furacão.

Mas o chamado nunca ocorreu, em parte porque os oficiais militares acreditavam que as tropas da Guarda Nacional chegariam lá mais rapidamente e porque os civis do governo estavam preocupados com a repercussão política caso tropas federais fossem forçadas a atirar contra saqueadores, disseram funcionários do governo.

Para ajudar as autoridades estaduais, o general de exército James T. Conway, diretor de operações do Estado-Maior das Forças Armadas, disse que o Pentágono simplificou em agosto um sistema rígido de ordens, de décadas, para permitir o envio pelo Comando do Norte de oficiais de ligação para trabalharem com as autoridades locais em caso de aproximação de um furacão.

O Pentágono está analisando os eventos desde o momento em que o furacão atingiu força plena e seguiu para Nova Orleans até cinco dias depois, quando Bush ordenou a presença de 7.200 soldados do serviço ativo e marines no local.

Após a passagem do furacão por Nova Orleans e o rompimento das barragens, o que provocou a inundação da cidade, ficou cada vez mais evidente que os esforços de resposta ao desastre estavam seriamente atolados.

Advogados do Departamento de Justiça, que estavam recebendo os relatos aflitivos da área, consideraram se unidades militares do serviço ativo poderiam ser trazidas para operações de ajuda mesmo se as autoridades locais dessem ou não seu consentimento.

A questão da federalização da resposta foi uma de várias questões legais consideradas em uma enxurrada de reuniões no Departamento de Justiça, Casa Branca e outras agências, disseram funcionários do governo.

O secretário de Justiça, Alberto R. Gonzales, pediu aos advogados do Departamento de Justiça que interpretassem criativamente a lei federal para ajudar as autoridades locais. Por exemplo, promotores federais se prepararam para expandir a aplicação de alguns estatutos criminais, como leis contra roubo de carros, que poderiam ser processados tanto na esfera estadual quanto federal.

Quanto a questão sobre se as forças militares podiam ser enviadas sem a requisição das autoridades estaduais, o Escritório de Consultoria Legal, a unidade dentro do Departamento de Justiça que fornece orientação legal para as agências federais, concluiu que o governo federal tinha autoridade para agir mesmo diante da objeção das autoridades locais.

Esta lei foi invocada pela última vez nos tumultos de Los Angeles em 1992, mas a pedido do governador da Califórnia, Pete Wilson, e foi invocada com a objeção de um governador pela última vez na era dos direitos civis -e antes disso, na época da Guerra Civil, segundo funcionários do governo. Autoridades do governo Bush, do Pentágono e altos oficiais militares alertaram que tal medida extrema traria sérias implicações legais e políticas.

O secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, disse que o envio de soldados da Guarda Nacional ao Iraque, incluindo uma brigada da Louisiana, não afetou a missão de ajuda humanitária, mas Blanco disse que os soldados de seu Estado fizeram falta.

"Ao longo do último ano sempre tivemos 5 mil fora a qualquer momento", disse Blanco. "Eles estão no serviço ativo, servindo no Iraque e no Afeganistão. Isto certamente pesou."

Na sexta-feira, os reforços da Guarda chegaram, e um comboio de caminhões com 1.000 soldados da Guarda trouxe suprimentos --e ordem-- para a área do centro de convenções.

Funcionários da Segurança Interna disseram que a experiência com o Katrina demonstrou as falhas nos planos da nação para lidar com desastres.

"Este evento expôs, talvez eventualmente em nosso benefício, a deficiência em termos de substituição da primeira linha de resposta, pessoas que tragicamente podem estar entre as primeiras baixas", disse Paul McHale, o secretário assistente para Defesa do Departamento de Segurança Interna.

Michael Chertoff, o secretário de Segurança Interna, sugeriu que soldados do serviço ativo devem ser treinados e equipados para intervir caso o pessoal da linha de frente de emergência seja vencido. Mas a liderança do Pentágono permanece não convencida de que este plano é sólido, sugerindo que os planos de resposta nacional para emergência precisam ser revisados para extrair reforços inicialmente dentre policiais, bombeiros e médicos civis e especialistas em lixo tóxico de outros Estados não afetados pelo desastre.

O governo federal reescreveu seu plano de resposta nacional para emergência depois dos ataques de 11 de setembro, mas ele se apóia na administração por parte das autoridades locais de quaisquer crises nos seus primeiros dias. Mas o furacão Katrina sobrepujou a "primeira linha de resposta" local, incluindo a polícia civil e a Guarda Nacional.

Em uma coletiva de imprensa no sábado, Chertoff disse: "O conjunto incomum de desafios na condução de uma evacuação em massa, no contexto de uma inundação ainda perigosa, exige basicamente a quebra do modelo tradicional e a criação de um novo modelo, um para o que poderíamos chamar de uma ultra-catástrofe. E é em um caso destes que usaríamos a presença das forças armadas, ainda dentro da lei, para lidarem com a evacuação, lidarem com os elementos associados. E isto, é claro, liberaria a Guarda Nacional para a realização da missão de segurança."

McHale, apesar de concordar com o problema, ofereceu soluções diferentes. "É possível conceber uma explosão catastrófica que mataria virtualmente todos os policiais em um raio de quilômetros do ataque", disse ele. "Portanto, nós teremos que reavaliar nossa capacidade de retomar a capacidade de primeira resposta, que pode ter sido degradada ou destruída durante o evento inicial."

Ele continuou: "O que temos que olhar agora é talvez uma capacidade regional, provavelmente dentro do setor civil, que possa ser empregada em uma cidade quando a infra-estrutura e a capacidade de primeira resposta tiverem sido destruídas pelo próprio evento".

*Colaborou David Johnston, com reportagem. Casa Branca cogitou assumir antes o comando da missão de ajuda George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,12
    3,283
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,05
    63.226,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host