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09/09/2005

Soweto vira ilha de prosperidade na África do Sul

The New York Times
Michael Wines
Em Soweto, África do Sul
Eles realizaram um festival de degustação de vinho aqui no último fim de semana, o evento social do mês neste amplo município de mais de 1 milhão de habitantes a oeste do centro de Johannesburgo. Uma das 1.500 pessoas que compareceram foi Maureen Makhathini de Diepkloof, que precisou de uma carona para chegar lá.

The New York Times Image 
Soweto era um subúrbio de Johannesburgo
"Meu carro está na oficina", ela explicou. "O BMW, quero dizer."

Se algo parece errado neste quadro, bem, algo está. Afinal, Soweto é famosa como berço da rebelião nos últimos dias do apartheid --um local de miséria infindável, raiva em ebulição e, freqüentemente, violência insensata de opressores e oprimidos. Diga "Soweto" e paladares educados e carros de luxo alemães não costumam vir a mente.

Isto é o que está errado, disse Makhathini. "Costumava ser muito difícil", disse ela. "Agora você pode ver que é exatamente o oposto."

É possível maquiar os muitos problemas de Soweto --e da África do Sul. A desigualdade entre ricos e pobres neste país continua sendo uma das maiores do mundo, e Soweto, o maior e mais antigo município, continua profundamente enraizado no lado pobre. A divisão racial também persiste, e os habitantes comuns de Soweto ainda não fizeram as pazes com seus antigos opressores brancos, os tornando irrelevantes na vida cotidiana.

Naashon Zalk/The New York Times 
Carros caros, como Mercedez, são cada vez mais comuns na frente de casas luxuosas
Mas algo mais está ocorrendo aqui. Das cinzas do apartheid, Soweto está despontando como um trampolim para as classes média e alta negras, um centro econômico e, como dizem seus defensores, um exemplo para outros municípios.

"Há dez anos não havia uma empolgação como há agora", disse Mnikelo Mangciphu, um distribuidor de secos e molhados que entrou no florescente mercado de vinhos de Soweto. "Há um interesse por parte do governo e por parte das pessoas em investir em Soweto. Ruas estão sendo pavimentadas, toda a infra-estrutura está sendo atualizada, e isto por si só encoraja mais investimento."

De fato, Soweto não tem mais seu antigo aspecto, com sua coleção de cabanas de bloco de concreto e barracões sem água e luz, lembrando agora um subúrbio típico, mesmo que modesto.

A chamada construção informal de barracos representa menos de 1 entre 10 moradias; a maioria dos lares agora é feito de alvenaria e serviços de água, esgoto, luz, entre outros, são garantidos.

Alguns bairros, Diepkloof e Pimville entre eles, agora são comparativamente áreas de alta renda, com residências e mercados imobiliários à altura. Um recente estudo de mercado estimou a renda média dos lares em cerca de US$ 4.900 por ano --acima da média para os negros sul-africanos e elevada para os padrões africanos em geral, apesar das estatísticas não serem confiáveis.

E apesar do último Censo do país, de 2001, ter concluído que a grande maioria dos habitantes de Soweto ganhou menos de US$ 12 mil por ano, ele também revelou que quase 20 mil dos 300 mil lares ganharam mais --alguns deles centenas de milhares de dólares por ano, na verdade.

De lá para cá, a região embarcou no que parece muito um boom de desenvolvimento. Um complexo de US$ 16 milhões que inclui escritórios, lojas e um centro turístico comemorando a Constituição da Liberdade da África do Sul, foi inaugurado em junho em Kliptown, o coração histórico de Soweto. Richard Maponya, um milionário que se fez sozinho no varejo, deu início em julho às obras de um shopping center de 60 mil metros quadrados no centro de Soweto, que ele disse que será voltado para os consumidores de maior renda.

Outro consórcio anunciou planos em agosto para um campo de golfe com 18 buracos perto de Pimville, que está sendo projetado por Gary Player, o lendário profissional sul-africano, e que será cercado por moradias. Coincidentemente, o anúncio ocorreu após um alerta do presidente Thabo Mbeki de que tais clubes de golfe estavam devorando terrenos em áreas privilegiadas, marginalizando os pobres e agravando as divisões raciais.

A Caxton Newspapers, um grande grupo de jornais sul-africano, está distribuindo 11 jornais semanais gratuitos nos bairros de Soweto, escritos e publicados pelos moradores locais, para complementar os 90 que distribui nas comunidades brancas.

"Eles abriram um shopping muito grande em Protea; há um shopping grande em Dobsonville e outro abrirá no futuro em Pimville", disse Kevin Keogh, executivo-chefe da divisão de jornais locais da Caxton, listando bairros de Soweto. "Tudo isto adiciona dólares de publicidade."

Os comerciantes locais também dizem que estão vendo as mudanças. O Backroom Restaurant em Pimville, que abriu há apenas quatro meses, tem grande movimento servindo comida, blues e jazz para clientes de alta renda --não apenas moradores de Soweto (onde as pesquisas dizem que quatro entre 10 trabalhadores são funcionários de colarinho branco ou profissionais), mas também negros que se mudaram de Soweto para municípios mais ricos ao norte da cidade.

"Nosso público alvo é da classe média à classe alta", disse o proprietário, Patrick Mrasi. "Eu queria criar um local de contatos, um onde as pessoas pudessem vir e realizar suas reuniões de negócios. Muitas destas pessoas são bem-sucedidas e vivem nos subúrbios, mas ainda possuem parentes no município, e mesmo durante a semana, após o trabalho, elas vêm aqui. É em Soweto que elas passam grande parte de seu tempo."

Como chamariz, o Backroom começou a oferecer uma estensa lista de vinhos sul-africanos, servidos por garçons treinados na Cape Wine Academy. "Desde que abri, tem ocorrido um bom crescimento constante", disse Mrasi. "Ninguém poderia imaginar que eu atingiria estes níveis."

Mas alguns sim. O festival de vinho do último fim de semana, que apresentou os vinhos de 10 vinículas de propriedade de negros entre os 86 expositores, foi concebido por Mangciphu, o distribuidor, e a diretora local da Cape Wine Academy, Lyn Woodward, em um jantar ao ar livre na casa de Mangciphu, em Pretória.

"Eu estava bebendo cerveja em um copo do Festival da Cerveja de Soweto" em novembro passado, ele disse, "e então ela me disse, 'Pessoal, porque não promovemos um festival de vinho?'"

Dez meses depois, o festival fez tamanho sucesso que algumas pessoas que chegaram mais tarde no domingo não puderam entrar, e os promotores decidiram transformá-lo em um evento anual. Mangciphu e Woodward, juntamente com dois outros, formaram uma empresa de comércio e distribuição de vinhos finos em Soweto e, posteriormente, em outro municípios.

O público alvo deles é composto de pessoas como Makhathini, uma empreendedora de 52 anos que parece ter os dedos de cada mão em tortas diferentes. Uma enfermeira odontológica em um hospital local, ela também dirige uma confecção de vestidos em um escritório de quintal, aluga espaço para um salão de cabeleireiro e --em suas horas vagas-- administra uma pequena caridade para 100 órfãos locais.

Seu mais recente plano é adicionar um segundo andar à casa de sua propriedade, em Pimville, e usar a receita do aluguel para reabrir uma escola de informática e abrir um centro de videoconferência para os habitantes de Soweto que quiserem se comunicar com amigos e contatos comerciais no exterior.

Agentes imobiliários a estão pressionando para que venda a casa em que ela mora, um casa de alvenaria de cinco quartos com quintal espaçoso, por cerca de US$ 80 mil. Mas ela está resistindo, por ora.

Quanto ao vinho, Makhathini não bebe com freqüência. Mas o festival poderá fazê-la mudar de idéia. "Eu realmente me diverti", disse ela. "Inesperadamente." O antigo foco de conflitos do apartheid transforma-se em área nobre George El Khouri Andolfato

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